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Jovens criam app que alerta para tempestades de areia e vencem etapa de concurso da Nasa

O aplicativo usa basicamente dados do sensor EMIT, que identifica a composição mineral de cada região árida

Por Marina Rigueira

Quatro jovens mineiros e um paulista compõem a equipe capacitada a programar um novo aplicativo, que é capaz de mensurar e alertar para os efeitos das tempestades de areia no planeta. O app foi ideia da Larissa Borges de Mello, de 23 anos, natural de Uberlândia, graduanda de engenharia elétrica pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e com ele, ela e sua equipe de colegas pesquisadores venceram a etapa brasileira do International Nasa Space Apps Hackathon, evento que aconteceu nos dias 7 e 8 de outubro.

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Larissa Borges está cursando o 7° período de Engenharia Elétrica na UFU. “Escolhi engenharia, porque sempre fui apaixonada por exatas e tecnologia, fui a primeira pessoa da minha família a entrar no curso superior, a escolha da elétrica foi por ser uma área muito abrangente, eu pensava que desde áreas rurais, e menos desenvolvidas, até centros urbanos podem precisar de um engenheiro eletricista”, revela.

O interesse relacionado às mudanças climáticas se deu após o estágio de férias na Usina Nuclear de Angra dos Reis (RJ), onde começou a ler relatórios da ONU, para entender a importância dessa energia e como as diferentes atividades humanas estão contribuindo para o aumento da frequência e intensificação dos desastres naturais.

A partir daí, Larissa escolheu uma equipe para seguir com ela no desafio (EMIT para o futuro), entre os 31 disponíveis, que fosse relacionado às mudanças climáticas, pois estavam entusiasmados para contribuir com essas causas. O desafio possuía como objetivo a criação de um aplicativo para conscientizar sobre essa missão e também como os seus dados poderiam ser usados.

Assim, ela convidou para contribuírem com um projeto que já estava em sua mente: Gustavo Ferreira Tavares, de 23 anos, natural de Uberlândia, graduando de engenharia biomédica pela UFU, Gabriel Ribeiro Filice Chayb, de 19, também de Uberlândia, graduando em sistemas de informação pela UFU, Vinícius de Carvalho Zanini, Sertãozinho (SP), graduando em engenharia biomédica pela UFU, e Izabel Chaves, 18 anos, de Belo Horizonte, estudante do Ensino Médio, para tirar a ideia da cabeça e colocá-la em prática.

Jovens da Universidade Federal de Uberlândia desenvolvem aplicativo que vence etapa brasileira de concurso da Nasa. Foto: Marco Cavalcanti

“Eu convidei algumas pessoas que soubessem programar, o Vinícius do curso de Engenharia Biomédica da UFU, que ficou com a parte de machine learning. Em seguida, por já ter feito parte uma vez, eu estava procurando, no LinkedIn, alguém que fizesse parte do Zooniverse, que é uma plataforma de pesquisa voluntária colaborativa de dados da Nasa, que poderia entender bem os dados que usaríamos. E foi onde encontrei a publicação da Izabel, aluna do ensino médio, falando sobre a plataforma. E ela aceitou participar da equipe”, explica.

Depois, ela tentou encontrar alguém que já tivesse experiência no Hackathon da Nasa em algum ano anterior, e também por meio do LinkedIn, encontrou uma publicação do Gabriel contando sobre sua vitória no ano passado na etapa brasileira.

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“Fiz o convite para ele entrar na nossa equipe, ele aceitou e abraçou totalmente o tema, por coincidência, ele também estudava na UFU, a sua experiência contou muito para nos antecipar como funcionariam as 48 horas do evento. Para a equipe de programação ficar em maior peso, tentamos encontrar outra pessoa dentro da UFU, e foi onde o Gabriel manifestou o interesse em participar, entrou faltando uma semana para o evento acontecer, mas este mudou todo o rumo da estratégia que adotaríamos na execução da nossa ideia”.

O aplicativo usa basicamente dados do sensor EMIT, que identifica a composição mineral de cada região árida. Assim, a equipe cruza esse dado da composição com as direções do vento e as coordenadas de tribos indígenas do norte da África, porque é uma das regiões que mais sofrem com esse fenômeno. “A utilização de dados do sensor EMIT e a análise da composição mineral do ar podem ser valiosas para prever a chegada de plumas de poeira e permitir que as comunidades sub-representadas e que sofrem de justiça ambiental se protejam e se previnam de maneira mais eficaz”, salienta.

Enviado pela Nasa para a atmosfera em 2022, o Emit monitora as tempestades de poeira pelo planeta. Essa observação ocorre conforme reflexo da luz que, em contato com as partículas de poeira, viajam pelo mundo. Nos últimos anos, com a degradação da Terra a um ritmo cada vez maior à poluição atmosférica, tem transformado o solo fértil em blocos de areia, como afirma a Organização Meteorológica Mundial.

Além disso, as tempestades de poeira também colaboram com a elevação da temperatura, com intervenção no funcionamento do meio ambiente, e ameaçam a saúde pública com os elementos tóxicos que carregam os vendavais. A escolha pelo tema traz questões importantes sobre o atual cenário da sustentabilidade. As tempestades de areia vêm preocupando autoridades mundiais e têm aparecido cada vez mais em pesquisas.

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Dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), as frequentes tempestades de poeira ferem 11 deles, atingindo clima, atmosfera e ecossistemas. “Nós fomos contemplados com uma bolsa de estudos no Founder Institute, renomado internacionalmente como um dos principais programas para o desenvolvimento de startups, e que no Brasil é liderado pela Paloma Lacheta. Estamos muito animados para implementar a nossa ideia, nós gostaríamos de contribuir com sistemas de alerta prévio contra tempestades de areia e poeira, que é uma meta estabelecida pela ONU de alcançar Alertas Prévios para Todos até o final de 2027, garantido os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.”

Izabel Chaves, que compõe a equipe e ainda está no ensino médio, também destaca que a aplicação se direciona principalmente à população mais vulnerável em situação rural. “Isso se deve à dificuldade deste público ao buscar informações sobre as condições ambientais locais e sua respectiva expectativa de vida. As emissões de poeira mineral como a sílica, o ferro e o cobre são promissoras para o desenvolvimento de doenças cardiorrespiratórias, assim como a contaminação da água e do solo agrícola com seus potenciais riscos à saúde e também do aumento da temperatura média global”, ressalta.

A poeira soprada para zonas populosas afeta as condições do ar, refletindo na saúde da população. As doenças mais comuns relacionadas a essas partículas são respiratórias e cardiovasculares. As tempestades ainda podem ser piores quando carregam o elemento mais abundante da crosta terrestre: a sílica. A sílica, utilizada em várias áreas da construção civil, indústria automotiva e da beleza, quando presente em partículas e transportada pelo ar, aumenta o risco de doenças autoimunes, doenças de pele e vários tipos de câncer.

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Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), bilhões de pessoas respiram ar insalubre que excedem os níveis de qualidade recomendados pela própria organização. Esses efeitos ainda são mais sentidos nas regiões subsaarianas que, curiosamente, são as que menos poluem. Por estarem próximas às regiões desérticas, e as tempestades de areia serem frequentes, a equipe Dust Trackers buscaram solucionar este problema com um protótipo de aplicativo, como mencionado, idealizado em 48 horas.

Com esse projeto em mãos, a equipe foi uma das 16 escolhidas no Brasil para a nomeação global da competição, sendo reconhecida como um dos melhores trabalhos brasileiros. De acordo com a Hackathon Brasil, o evento nacional é voluntário e os vencedores são certificados e agraciados com a bolsa de estudos. Já os ganhadores globais têm o direito de visitar a Nasa. Porém, as despesas de logística ficam por conta da equipe.

A Hackathon Brasil é uma entidade sem fins lucrativos que organiza e apoia hackathons para empresas do Brasil e do exterior. Além de promover a inclusão de novas pessoas no mercado de tecnologia. No evento da Nasa, a Hackathon Brasil é umas das organizadoras dentre outros parceiros que também ajudam a realizar o evento aqui no Brasil. Foram mais de 5.500 projetos de 150 países competindo. Além disso, são 6 equipes com menção honrosa de um total de 62 que receberam esse reconhecimento da Nasa e 7 equipes na final de um total de 40 do mundo todo.

Os vencedores globais serão anunciados em janeiro de 2024 e dentre os brasileiros são finalistas:

Menções honrosas:

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