Museus usam arte e história como antídotos ao preconceito e ao antissemitismo; entenda

Em meio à intolerância crescente, Museu Judaico de São Paulo trilha o caminho da educação, conscientização e combate a generalizações sobre os judeus no País; conheça ações ao redor do mundo

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Por Alice Ferraz

Os museus de arte e história desempenham um papel fundamental na vida cívica de uma sociedade. Eles sempre foram guardiões de memórias, tradições e expressões artísticas e abrigaram propostas inovadoras de cultura e estética. Museus são também importantes agentes de educação, de formação de senso crítico e de conhecimento. Nesse sentido, é inevitável que a pauta da diversidade e do combate ao preconceito esteja no centro da missão dos museus, sobretudo nesta última década, fazendo com que esses espaços acompanhem as mudanças do tempo e hoje fomentem novas realidades, mais igualitárias.

A própria definição de museu do International Council of Museums (Icom), em 2022, chegou ao seguinte texto: “Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade, que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe o patrimônio material e imaterial. Abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus fomentam a diversidade e a sustentabilidade. Com a participação das comunidades, os museus funcionam e se comunicam de forma ética e profissional, proporcionando experiências diversas para educação, fruição, reflexão e partilha de conhecimentos.”

De olho nisso – e atento ao aumento exponencial do número de manifestações antijudaicas no Brasil –, o Museu Judaico de São Paulo (MUJ) tem dedicado atenção especial e boa parte de sua programação às ações educativas no combate ao antissemitismo, contribuindo contra todas as formas de preconceito. Só no último ano, os casos de antissemitismo cresceram 900%, segundo levantamento da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

Mostras oferecem conhecimento sobre a cultura judaica em trabalho que orienta para diálogo. Foto: Fernando Torres/Divulgação

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Essas denúncias mostram que preconceitos são disseminados por meio de diversas linguagens e ganham roupagens contemporâneas. Por isso, o trabalho com escolas e instituições educacionais tem sido um eixo do MUJ. “É papel basilar dos museus contemporâneos, em todo o mundo, valorizar a diversidade, promover a potência de todas as culturas e contribuir para a construção de uma sociedade democrática. Esse processo passa pelo combate a todas as formas de racismo, incluindo o antissemitismo e a islamofobia, cada vez mais presentes”, afirma Felipe Arruda, diretor-executivo do museu.

“Recebemos todo ano milhares de estudantes, em um trabalho pedagógico que educa para o diálogo e a tolerância. Os estudantes vêm de escolas públicas e privadas, de todas as partes da cidade, e têm a oportunidade de aprendizado sobre a cultura judaica. É pelo contato com as histórias que despertamos uma consciência orientada pelo respeito e pela humanidade, desde a infância”, completa. As visitas mediadas tornam acessíveis conversas difíceis que os museus podem acolher e endereçar, explica.

Futuro

Outros museus judaicos no mundo também estão atentos a essa questão. Há quase 10 anos, o Museu Polin de História dos Judeus Polacos, construído no local do antigo Gueto de Varsóvia, onde mais de 460 mil judeus foram presos antes de serem enviados para campos de concentração nazistas, tem feito esse trabalho minucioso. Recebem diariamente gerações de jovens que mergulham na história dos judeus e refletem sobre a Shoá em vivências educativas. Entretanto, não se trata apenas de olhar para o passado dramático e bárbaro do Holocausto.

Para os profissionais do MUJ, combater generalizações sobre os judeus é um começo de caminho para eliminar teorias conspiratórias e preconceitos. “Sabemos que a identidade judaica é cercada de estereótipos no Brasil e no mundo”, afirma. E como lutar contra isso? “De forma transversal e contínua na programação do museu, sempre mostrando que todas as identidades são plurais e em constante transformação”, explica Arruda. “Por meio de ações educativas, mas também das escolhas curatoriais de exposições, colocando em prática projetos que conectam histórias entre diferentes culturas e identidades.”

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O Museu Judaico de São Paulo (MUJ) visto de cima. Foto: Fernando Siqueira/Divulgação

Arte

Um exemplo recente foi a exposição Botânica Tirannica, de Giselle Beiguelman. A artista mapeou centenas de espécies de plantas com nomeações antissemitas, racistas, misóginas e apresentou essa seleção de forma artística, em um verdadeiro jardim, no qual articulou reflexões sobre preconceito, resiliência e taxonomia. A mostra, que ocorreu em 2022 no MUJ, agora faz sua itinerância, cruzando o continente para ir ao Canadá, onde será exibida no Koffler Arts, em Toronto, a partir de 30 de maio.

Apresentar a música, a culinária, a literatura e outras formas estéticas presentes na cultura judaica já é em si um bom antídoto contra a intolerância. “Os museus do século 21 são espaços de cultivo da diferença. Isso produz um olhar mais generoso sobre o outro, algo vital para um exercício de alteridade. É um dos papéis da cultura”, conclui Arruda.

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