Meryl Streep repassa carreira em Cannes e brinca: ‘Em casa ninguém me respeita’

Homenageada com a Palma de Ouro honorária, a atriz participou de um encontro com o público nesta quarta-feira, comentou alguns de seus grandes filmes, disse que não está acostumada com tamanho assédio e que sua vida cotidiana é muito diferente daquilo - chata, até.

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Por Luiz Carlos Merten

CANNES - Homenageada de honra do 77º Festival de Cannes, Meryl Streep recebeu na terça-feira, 14, à noite sua Palma de Ouro honorária, dada pelo conjunto da obra da atriz, ao longo da cerimônia de abertura que terminou com a apresentação do filme Le Deuxième Acte.

O longa de Quentin Dupieux eleva a metalinguagem a um novo plano de humor e inteligência. Meryl adorou o filme. Fez questão de cumprimentar o diretor e a protagonista, Léa Seydoux. Quem contou foi o diretor artístico, o homem que organiza a seleção de Cannes, Thierry Frémaux, ao iniciar, na tarde de ontem – quarta, 15 – o encontro de Meryl com o público.

Foi um rendez-vous, não uma masterclass, como chegou a ser anunciado. A primeira pergunta (como Meryl recebeu o duplo carinho de Cannes, aplaudida de pé pelo público do palais) e provocando lágrimas em Juliette Binoche, que lhe entregou o troféu. E, de novo, por jornalistas de todo o mundo na Salle Debussy?

Meryl Streep é homenageada na abertura do festival de Cannes  Foto: Valery Hache/VALERY HACHE

‘Não estou muito acostumada com isso, ainda é uma coisa que me intimida, não, impressiona. Levo uma vida muito tranquila, na verdade, very boring. Não, não é uma vida aborrecida, mas a verdade é que em casa ninguém me respeita muito”, e ela riu da própria piada.

“Tenho quatro filhos e cinco netos. Os filhos crescem, mas permanecem eternas crianças para qualquer mãe. E os netos nos fazem duas vezes mães. Sou feliz, mas isso aqui, essa emoção toda, não é a minha vida cotidiana.”

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Meryl lembra-se quando veio a Cannes apresentar Um Grito no Escuro, de Fred Schipisi, e ganhou o prêmio de interpretação. Já era um filme sobre uma mãe, baseado numa história real. Uma mãe australiana acusada de matar o próprio filho.

“Ao chegar, disseram que eu precisaria de nove guarda-costas, e eu disse que era nonsense. Não ando por aí cercada de seguranças, mas em Cannes é uma loucura. Na primeira vez avançavam, queriam me tocar”, e ela se levantou para mostrar como o cerco foi grande. “Cheguei ao hotel no fim da noite, extenuada, tremendo.”

Streep tem a carreira homenageada durante a abertura do festival de Cannes Foto: Sarah Meyssonnier/REUTERS

Ela própria mãe e avó, premiada em Cannes por um papel de mãe. Os dois primeiros Oscars também foram por papeis de mãe. Por Kramer Vs. Kramer, de Robert Benton, de 1979, venceu como melhor coadjuvante. Por A Escolha de Sophia, de Alan J. Pakula, baseado no romance de William Styron, recebeu o primeiro Oscar com o melhor atriz, três anos mais tarde. Kramer Vs. Kramer foi um filme que virou um fenômeno social nos EUA, e em todo o mundo.

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“Era a história de um divórcio, a mãe ia embora e ao cabo de oito meses voltava para reclamar o filho. Durante todo esse período, Dustin (Hoffman) tinha de se desdobrar como homem e profissional para cumpriu a dupla e até tripla função que em geral cabe a nós, mulheres.” E por que a mãe ia embora, abandonava o próprio filho.

“Esse era o xis da questão e o motivo pelo qual o filme repercutiu tanto, num momento em que o feminismo deixava de ser uma agenda de mulheres aguerridas e começava a ser uma pauta das mulheres comuns.”

Meryl, sobre Kramer Vs. Kramer

Na grande cena do filme, Meryl – a personagem -, no tribunal, tem de dizer por que partiu. “Robert (Benton), que também era roteirista, iniciou o filme sem saber a resposta à pergunta. Colocou-a na mesa. Dustin disse que sabia a resposta, eu sugeri que cada um de nós escrevesse a sua versão. Depois, votaríamos a escolhida, a melhor, seria filmada. Foi a minha!”

A Escolha de Sofia era sobre outra mãe, durante o nazismo. O oficial responsável pelo campo obriga-a a fazer a trágica escolha do título. O filho ou a filha, qual irá sobreviver? É uma escolha impensável, que me angustiava muito, não queria pensar como seria fazer a cena. Li-a apenas uma vez, e tinha decorar em alemão. Foi uma das muitas vezes que disse a meu marido que não ia conseguir. Ele sempre me responde. ‘Tolice, você sempre consegue.’ Mas, dessa vez, foi duro demais. Até hoje sinto calafrios. Mas é verdade que ela fez a cena de primeira, num único take? “Não, foram necessários dois. No primeiro, a garota que fazia a filha não estava ligada de que seria arrancada de mim. Na segunda, sim, e isso contribui para a intensidade da cena.” Meryl ainda tem, ou teve, contacto com ‘a filha’? “Não, mas sei que virou executiva, ou advogada, uma mulher muito bem sucedida. O trauma deve ter contribuído para fortalecê-la.”

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Quando o diretor Sydney Pollack venceu o Oscar por Entre Dois Amores, de 1985, disse que sem Meryl não teria conseguido. Que lembrança ela guarda do filme? “Foi uma experiência maravilhosa, filmar em locação. E o filme tem a cena em que Robert (Redford) lava minha cabeça. Estávamos na beira do rio, e na África você ouve que o mais perigoso dos animais é o hipopótamo. Que nada se coloque entre ele e a água. Robert esfregava minhas têmporas, uma sensação gostosa, e havia hipopótamos que eu não estava vendo. É uma cena muito erótica, a mais sexy que fiz. Tem filmes em que as pessoas vão para a cama, fuck e a gente não sente nada. Aquela é uma cena muito real e envolvente.”

Justamente o tema do real.

“Nunca penso numa personagem como real ou não. Como atriz, sinto que minha função é tornar as personagens humanas, fazer com que o público acredite nelas.”

Meryl vem de uma família prosaica de Nova Jersey. “Acreditem, na minha infância e juventude conheci muitas mulheres, mães, esposas. Se eu mesma tivesse vivido como elas, não estaria aqui.” E citou como exemplo O Franco Atirador, de Michael Cimino, vencedor do Oscar de 1978. “É uma mulher que, aparentemente, não tem muita vida interior. Mas ninguém é comum. Cada pessoa é diferente, e eu tratei de torna-la mais complexa e interessante. É curioso. Sou capaz de me projetar nos homens da história, mas duvido que o público, vendo o filme queira se projetar naquela figura.”

O que levou a uma conversa sobre gêneros.

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“As coisas estão mudando, mas a indústria ainda é predominantemente masculina.” A equidade salarial? “Sempre lutei por ela, mas certos homens são os verdadeiros astros dessa indústria, aqueles que estão no imaginário do público.” Quem? Nenhuma hesitação: “Tom Cruise.”

Em vários momentos de sua vida e carreira, Meryl manifestou-se politicamente. Numa festa da Academia, provocou a ira do então presidente Donald Trump, que a destratou em seu Face, ou Insta. “Luto pelo acho que é direito, mas na verdade sei que sou bastante conservadora.” Por exemplo, ela ganhou outro Oscar pelo papel como Margaret Thatcher em A Dama de Ferro, de Phyllida Law. “Mas não era um filme sobre o governante e sua agenda política. Esse filme ainda tem de ser feito. O nosso era sobre as batalhas da mulher no mundo dos homens.”

O que ela aprendeu na academia de arte dramática? “A fumar e a cantar. Adoro cantar. É uma coisa que não vem da cabeça. Vem daqui.” E apontou o coração.

Antes do encontro, Cannes homenageou-a com um videoclipe retraçando sua carreira. Terminou com imagens de Mamma Mia, outro filme de Phyllida Law. Meryl cantando Winner takes it all. Foi o gatilho para que ela surgisse dos bastidores para a consagração do aplauso de pé.

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