Walter Salles: ‘Ainda Estou Aqui ecoa perigo autoritário no mundo como um todo’

Cineasta comentou sobre como seu filme vencedor do Oscar tem se conectado com outros públicos em tempos de escalada no autoritarismo

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Foto do autor Beatriz Amendola
Atualização:

ENVIADA ESPECIAL A LOS ANGELES - Um dia após ganhar o Oscar de Melhor Filme Internacional com Ainda Estou Aqui – o primeiro do Brasil –, o diretor Walter Salles refletiu sobre como o filme tem servido de alerta aos perigos do autoritarismo em outros lugares do mundo, incluindo os Estados Unidos.

“A gente está vendo um processo de fragilização crescente da democracia, e esse processo está acelerando cada vez mais”, disse o cineasta em conversa com jornalistas, acompanhada pelo Estadão, em um hotel em Los Angeles.

Walter Salles no palco do Oscar Foto: Chris Pizzello/AP Photo

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O longa brasileiro, centrado na luta de Eunice Paiva após seu marido, Rubens Paiva, ser levado pelo regime militar, “se tornou próximo de quem o viu nos Estados Unidos”, na avaliação de Salles. O diretor acredita que isso, inclusive, possa ter contribuído para o sucesso que o Ainda Estou Aqui vem fazendo no país americano, onde já arrecadou mais de US$ 5 milhões.

“Voltei de um almoço e as pessoas vieram falar comigo sobre isso, sobre como o filme lhes pareceu próximo do momento presente nos Estados Unidos”, contou. “E eu diria que não é só aqui; também, de uma certa forma, ecoa o perigo autoritário que hoje grassa no mundo como um todo.”

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Ele prosseguiu: “Acho que a gente está vivendo um momento de extrema crueldade, vendo a prática da crueldade como forma de exercício de poder. Acho isso profundamente inquietante.”

O cineasta pontuou, porém, que o jornalismo e a arte são formas de lutar contra isso. “As formas de expressão se tornam fundamentais para trazer uma polifonia democrática em um funil autoritário.”

A memória de Rubens Paiva

Em outro momento da conversa, Selton Mello e Fernanda Torres citaram a importância de Ainda Estou Aqui para preservar a memória de Rubens Paiva, que foi assassinado por agentes da ditadura militar.

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“Interpretar o Rubens foi uma honra”, afirmou Mello. “É um homem que foi levado de casa e assassinado pelo Estado. E eu dei corpo a esse homem, eu trouxe ele para viver de novo (...) Quando acabou a exibição [em Veneza], eu falei ‘esse é o corpo do Rubens, que nunca voltou’. Tudo isso é muito comovente, poderoso e forte”.

Fernanda Torres, por sua vez, completou: “O Rubens Paiva, para mim, era um retrato que estava desaparecendo. Ele foi levado e morto, e houve um movimento muito grande de essa história desaparecer, como aquele retrato. E hoje a família Paiva voltou à vida, jamais os esqueceremos e eles sempre estarão aqui. O Rubens Paiva sempre estará aqui por causa da literatura e do cinema. Acho isso muito bonito. Hoje, isso é a prova de que eles existiram, não conseguiram apagá-los da memória.”