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‘Tenho um sonho de fazer um disco de música sertaneja’, revela Criolo

Influenciado por variados gêneros, mas não pela fama, cantor diz que ‘sucesso é pagar plano de saúde dos pais’

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Por Paula Bonelli

Criolo rejeita o título de celebridade e tampouco se coloca no posto de continuador da música brasileira, mesmo sendo destacado nome da cena. Idolatra mesmo é o rap, que permitiu a ele destino diferente da maioria dos jovens do Grajaú, área carente na zona sul de São Paulo, onde cresceu.

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Além disso, o estilo permitiu-lhe conhecer músicas do mundo todo. Aos 48 anos, flerta até com gêneros para os quais muitos torcem o nariz. “Tenho um sonho de fazer um disco de música sertaneja”, disse em entrevista por videoconferência à repórter Paula Bonelli.

Criolo é atração do festival Encontro das Tribos, que será realizado no próximo dia 21, em Ribeirão Preto, no interior paulista. Para completar, acaba de receber duas indicações ao Grammy Latino 2023.

Criolo Foto: Helder Fruteira

Como vai ser seu show no Encontro das Tribos?

Para o festival, vamos levar o tour ‘Sobre Viver’, que tem como espinha dorsal esse meu último álbum, feito no período da pandemia. Vamos cantar músicas também do ‘Convoque seu Buda’; do ‘Nó na Orelha’, do ‘Espiral de Ilusão’ e do ‘Ainda Há Tempo’, de 2006.

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De que modo surgiu o seu nome artístico?

Ganhei esse nome há 30 anos, quando eu era adolescente. Eu o abracei com todo amor. Em um segundo momento, quis ver as pessoas tendo que lidar com aquilo que elas criaram, o peso que dão para a palavra, para as nomenclaturas. E depois ressignificar que a música e o rap poderiam me levar a lugares incríveis.

Ele gera polêmica?

Acho que as pessoas perceberam já a força dessa provocação. Com ela, eu recebi apenas acolhimento.

Entre as influências diversas, do samba, rap, hip hop, música brasileira e estrangeira, como se posiciona?

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Eu respiro música. O rap veio para mim quando tinha 11 anos e me disse que seria possível criar. Isso mudou minha vida completamente, quando você sente que é capaz de fazer alguma coisa. Cresci em um ambiente muito hostil, muito difícil, com muita fome e muita violência. As histórias que chegavam dos nossos amigos do bairro eram que o nosso destino já estava traçado, nada muito diferente disso poderia acontecer. Então, o rap foi me mostrando outros jeitos de me expressar e começou a me mostrar a música do mundo todo.

Como é fazer rap?

Você tem que pesquisar. Usa um pedaço de uma música jamaicana, de uma música clássica, outro trecho de uma música regional para construir uma instrumental que seja interessante e traga força para o seu texto. Fui desde pequeno absorvendo música do mundo, a força do hip hop e dos tambores africanos.

O que não gosta em termos de música?

Gosto de tudo. Tenho um sonho de fazer um disco de música sertaneja, do campo. Gosto de Pena Branca e Xavantinho, Irmãs Galvão, Tonico e Tinoco. Fico fascinado por moda de viola. Esse jeito especial, incrível e único de se tocar um instrumento.

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O movimento de poesia das periferias te afeta ainda?

É emocionante porque é resistência toda cheia de ternura. Isso vai me emocionar sempre. É motivo de orgulho máximo saber que venho de uma periferia. Essas pessoas no decorrer de toda a minha vida me impactaram de modo brutal. Elas querem um nome, um herói, uma referência, às vezes.

Você transita entre Planet Hemp, Mano Brown, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Milton Nascimento.

É a força do rap, nunca tive dúvida. Isso é uma construção de 35 anos. Comecei a escrever com 11 anos, com 13 pedi para cantar em uma festa de doação de roupa e comida no meu bairro.

Paulinho da Viola, Jorge Ben Jor... Você é de uma geração mais nova. O que vem por aí depende de artistas como você e Seu Jorge?

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Não vou me colocar nesse lugar. Essa continuidade está acontecendo para além dos nossos nomes. Esse contemporâneo já existe. Não vamos saber falar os nomes porque eles ainda nem tiveram a oportunidade de aparecer para todo mundo. A revolução musical tá onde? Está em Manaus, em São Paulo, na Bahia? Tá em todos os lugares com pessoas que respiram música, que entregam sua vida e pagam um preço muito alto também por seu sonho.

Tornar-se celebridade chegou a atingir a sua saúde mental?

Não cheguei nesse lugar. Nem mirei ele, por isso, também. O disco ‘Nó na Orelha’ mudou a minha vida e a da minha família completamente. Essa transformação que eu quero falar para você. Saber que eu posso pagar plano de saúde para minha mãe e para o meu pai. Não estou preocupado se sou celebridade. Sucesso para mim é pagar o plano de saúde dos meus pais.

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