A mesa que reuniu a escritora francesa Neige Sinno e a portuguesa Anabela Mota Ribeiro na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2025) nesta quinta-feira, 31, tratou de um tema denso, indigesto. Talvez por isso era possível ver espaços vazios na plateia. Quem assistiu, porém, saiu tocado pelas revelações e pela força da conversa mediada por Rita Palmeira.
Em comum entre as escritoras, a transformação da dor e da brutalidade em literatura elogiada e inovadora. Anabela, de 53 anos, cujo livro O Quarto do Bebê, uma espécie de autoficção, foi lançado pela Bazar do Tempo, foi diagnosticada com um câncer em meio à pandemia de covid-19.
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Já Neige, hoje com 48 anos, foi estuprada pelo padrasto durante grande parte da infância e adolescência. Triste Tigre, prestes a ser lançado no Brasil pela Amacord, é o relato desta história e de como essa violência impactou toda a vida de Neige. Para a autora, é mais: ela não gosta que o livro seja visto como um testemunho. Ele é um exercício de linguagem que busca explorar os limites da literatura tradicional.

“Minha preocupação principal é a forma, porque da forma deriva tudo o mais (o sentido, o sentimento, até a perspectiva ética e política)”, disse a escritora ao Estadão, em entrevista por e-mail antes de desembarcar no Brasil. A obra, que virou um best-seller na França, foi elogiada pela estrutura híbrida entre memórias e ensaio.
“Neste livro, era importante para mim o vaivém entre gêneros que faz com que o texto não seja nem uma coisa nem outra, mas várias ao mesmo tempo. É uma aposta na hibridização que supõe que o resultado, o híbrido, é uma criação nova que se nutre das espécies que o compõem, mas que também é único em sua forma de ser”, explicou ela.
Neige tenta analisar sua história com certo distanciamento, quase como se, em certos momentos, fosse a história de outra pessoa. Em outros, ela admite para si mesma que nem sempre é capaz. “Primeiro tento me ater a uma determinada verdade objetiva que me escapa, apesar das fotos, das lembranças que permanecem. Depois, obviamente, é impossível, porque é ele”, escreve no capítulo inicial, analisando uma foto de sua família.
Neige Sinno não escreve para se vingar
Elas viviam na região do Alto dos Alpes - Neige, a irmã e a mãe -, quando conheceram o homem que viria a ser o padrasto. A mãe era separado do pai e vivia o luto por um namorado que havia morrido havia pouco tempo. Logo casou-se com o padrasto e teve mais dois filhos, um menino e outra menina.
Os abusos começaram quando Neige tinha cerca de 7 anos e foram até os 14. Quando já não morava mais com eles, contou tudo à mãe. Foi mais de um ano até que ela se separasse do agressor. Por fim, decidiram denunciá-lo e, após dois anos entre investigações e julgamento, ele foi condenado. Confessou o crime, sob a justificava que o fazia para tornar-se mais próximo da menina. Ele passou apenas sete anos na prisão.
Mas Neige não escreve por vingança: ela acha que esse entendimento, dependendo de como é interpretado, “reduz o alcance da escrita a razões individuais”. “Minha ambição para este livro é muito maior que isso. Como muitos escritores, tenho o desejo de que minha criação vá além da minha vida pessoal, de que seja arte, uma força estética e política que abra portas na mente e no mundo”, disse.

Ela completou: “Poderia ser uma forma de vingança do tipo do que diz Annie Ernaux quando diz que escrevia para ‘vingar a sua raça’ – ou seja, uma vingança contra a injustiça de um mundo que permite a perpetuação e a invisibilidade da violência. Uma rebelião ontológica, isso sim. Neste sentido, toda obra de arte, toda tentativa de mudar o mundo pela força da palavra, da música, da imagem, pode ser uma revanche contra o destino."
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Assim como recusa o clichê da vingança, Neige recusa o clichê da salvação pela literatura. “Eu não estou salva e não tento fazer isso neste livro”, disse, já na Flip, em resposta a um questionamento de mediadora. Foi além, em fala aplaudida pela plateia: “Não sou salva por nada, nem pela literatura, nem pelo amor, nem pela terapia, não sou salva.”
Então por que escrever? Ela diz que só tomou a decisão de colocar no papel algum tipo de relato sobre os anos de estupro quando encontrou um maneira muito particular de o fazer, de criar um livro que fosse mais do que um testemunho.
Quando foi lançado na França, em 2023, Triste Tigre foi bem avaliado por críticos e venceu prêmios como Femina e Goncourt des Lycéens. Por um lado, Neige diz ser “magnífico” ser bem recebida pelo meio literário e por leitores. Por outro, lamenta que um de seus medos tenha se concretizado: o sensacionalismo e reducionismo dos meios de comunicação em transformá-la apenas em uma vítima.
“É uma experiência às vezes humilhante, porque me parece injusto que depois de ler este livro os jornalistas não fiquem maravilhados com sua audácia formal e sua aposta estética e prefiram me perguntar de várias maneiras possíveis: como se sente sendo vítima de abuso sexual? Mas tento não me concentrar no que não posso controlar. E isso, definitivamente, não está nas minhas mãos”, disse.
No começo, Neige tinha certa aversão à exposição que viria com a divulgação do livro. Hoje, vê de outra forma: “Aceitei que ao publicar este livro também tenho uma responsabilidade. Agora estou orgulhosa de ser um porta-voz para abrir a conversa social sobre o tema do abuso sexual infantil que é silenciado em todas as sociedades.”
Na Flip
Durante a Flip, a escritora ainda falou sobre a complexidade de sua experiência. É um paradoxo que uma violência tão terrível, pela qual ela sente tanto desprezo, seja uma parte basilar de quem ela é. “Essa violência, como fato, também me pertence”, disse, completando: “A maneira de me empoderar é integrar essa brutalidade na minha linguagem. Saber que tenho esse poder.”
Neige diz que sua maneira de abordar a própria experiência faz com que o tema também seja pertinente a qualquer leitor. Na França, ela lembra, uma a cada dez mulheres é vítima de violência sexual. “No Brasil, isso é parecido. Isso significa que 10% [das mulheres] dessa sala passou por um abuso”, falou.
Desde que denunciou seu agressor, foram mais de duas décadas. Neige morou nos Estados Unidos, onde se especializou em literatura americana, depois passou anos no México dando aulas e escrevendo. Teve uma filha e, só recentemente, voltou a morar na França. “Tudo mudou, acho. Menos a raiva, que continua intacta”, disse.






