‘O amor é impossível’: conheça filósofo argentino que defende o fim da busca de relações eternas

Para Darío Sztajnszrajber, sociedade pode repensar ideia de perda ao fim de relacionamento se deixar de enxergar pessoas como propriedade; entenda suas ideias em novo livro

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Por Gustavo Borges
Atualização:

Cidade do México, 22 de julho (EFE) - Para o filósofo argentino Darío Sztajnszrajber, a sociedade deve reconsiderar o conceito de perda quando um relacionamento termina, o que é possível se a outra pessoa não for vista como propriedade.

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“É preciso repensar a ideia da perda no amor. O que gera dor é o desamor, achar que a outra pessoa me pertence. Se você desarma essa crença, não perde no sentido de perder o que tinha”, disse Sztajnszrajber em entrevista à EFE da Cidade do México.

O escritor e apresentador de televisão lança no México El amor es imposible, um ensaio com oito teses que se propõe a desconstruir conceitos sobre o amor, com propostas filosóficas baseadas em histórias.

Para o filósofo argentino Darío Sztajnszzrajber, a sociedade deve repensar o conceito de perda quando o relacionamento de um casal termina Foto: Isaac Esquivel/EFE

“Gosto de fazer filosofia com o corpo. É um livro que fala a partir da filosofia, mas mexe com questões biográficas porque para mim não vale a pena uma filosofia que não comece do lugar mais estremecedor”, disse o autor.

O livro discute a impossibilidade do amor por vários motivos, entre eles: todos os amores são uma cópia do primeiro, o amor é inefável e sempre chega na hora errada, é incalculável e é sempre um desamor.

A metade da laranja

Com base em anos de leitura, diálogos e vivências, a obra de 376 páginas aborda o amor por diversos ângulos, até mesmo a carência, representada por uma teoria repetida em cartões postais e redes sociais: a ideia da outra metade da laranja.

“Se alguém é metade da laranja e sai em busca da outra metade, é porque antes era uma laranja inteira. Então houve algum castigo anterior, um corte. Por isso em meu livro proponho que o amor sempre vem depois do desamor”, explicou.

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À maneira de O Jogo da Amarelinha, o canônico romance de Julio Cortázar, El amor es imposible pode ser lido do primeiro capítulo ao último ou com saltos para frente e para trás. Cada seção pertence a uma tese sobre o amor e pode ser tomada separadamente, como nas coletâneas de contos.

“Quem tiver interesse em ler que o amor é impossível porque é incalculável, pode ler essa parte e deixar as outras sete teses para lá. O livro é claro em demonstrar que o amor é impossível, partindo de gatilhos determinantes: o desamor, o destempo, a monogamia, o primeiro amor. O leitor tem a liberdade de escolher”, disse ele.

"El amor es imposible" é o novo livro do filósofo e apresentador Darío Sztajnszrajber Foto: Paidós

No meio da escrita de seu livro, Sztajnszrajber sofreu a morte dos pais: foi um golpe que alterou o processo de criação. O escritor tirou o pó das histórias humanas guardadas em sua memória e com base nelas fez filosofia.

Darío defende o conceito de “eu te amo, mas não preciso de você” em um relacionamento, embora aceite que é difícil colocá-lo em prática em uma sociedade que comercializa sentimentos.

“Seria importante se essas questões fossem planejadas. Então, sustentá-las no dia a dia é um processo”.

Abençoados sejam os beijos não dados

Filósofo argentino Darío Sztajnszrajber durante entrevista na Cidade do México  Foto: Isaac Esquivel/EFE

Sztajnszrajber olha para trás e se vê aos 9 anos de idade, em uma festa de aniversário na frente de uma menina chamada Silvia. É o primeiro amor, inocente, sem beijos, que acabou borrado na névoa do pior dilúvio: a passagem do tempo.

“Se eu a encontrasse hoje, talvez pudéssemos tomar um café e nada mais, porque as histórias não se redimem no futuro. Quando as histórias de amor das crianças alcançam redenção na vida adulta, isso nunca nos satisfaz porque o que motiva e inspira está pendente, não consumado”, disse ele.

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O autor diz tudo isso com uma ideia muitas vezes recriada pelos poetas, que consideram abençoados os beijos que nunca foram dados, porque ficaram protegidos pelo mistério do que poderia ter sido.

“É um pouco a lógica do desejo. Quando se consegue o que se deseja, perde-se aquele tipo de ardor do desejo. [O que poderia ter sido] dá um charme porque a característica essencial do amor talvez seja o não consumado. Não esqueçamos que amar é ir em busca de algo que não sabemos o que é”, afirma.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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