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Opinião|A morte de Terence Davies

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Foto do author Luiz Zanin Oricchio

Com o desaparecimento de Terence Davies vai-se um estilo de cinema delicado, sutil e profundo - tão raro em nossos dias. Davies morreu neste sábado, dia 7 de outubro, aos 77 anos, de uma "súbita doença", segundo foi divulgado.

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Filho da classe operária inglesa, Davies dirigiu filmes que se tornaram famosos, como Amor Profundo e Uma Paixão Tranquila. Fazia um cinema triste, melancólico, bastante distante do ruído falsamente otimista do mundo contemporâneo.

Tenho vontade de rever vários de seus nove longas-metragens, produção sintética para 45 anos de carreira. Em particular, o último, Benediction, que passou na Mostra de São Paulo do ano passado, tendo por personagem o poeta inglês Sigfried Sassoon, católico, homossexual...e triste.

Ou, aquele que talvez seja o meu favorito, Além das Palavras, delicada cinebiografia da poeta Emily Dickinson (1830-1886). Em homenagem a Davies, transcrevo abaixo o que escrevi sobre esse lindo filme quando ele estreou por aqui:

Além das Palavras

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Não há dúvida que o título original de Além das Palavras, A Quiet Passion, descreve melhor a essência da personagem. Emily Dickinson manteve, de fato, uma paixão tão febril quanto discreta pelas palavras. A vida desta poeta é descrita com o mesmo calor humano, porém sem arroubos, pelo diretor Terence Davies.

O filme funciona como biopic. Vemos o desenvolvimento da garota de boa família, em um pensionato da Nova Inglaterra, no século 10. A jovem Emily é rebelde. Revolta-se contra a subserviência aos preceitos da fé cristã e desperta a ira dos superiores. E também a do seu pai, retratado como homem justo, porém rígido. Mas Emily não cede.

E mantém, ao longo de sua breve vida, intacta a sua independência em relação ao ambiente. O que lhe custará alto preço em termos de uma vida social bastante limitada. Mas isto não parece importar tanto. Conta mesmo a faina diária com as palavras, a luta cotidiana em busca da quintessência da poesia.

Devoção que implica numa vida retirada, em meio à família, só em seu quarto no qual luta com as armas de papel e tinta para domar sua forma expressiva. Batalha que, sem dúvida, será vitoriosa, já que hoje Emily Dickinson é considerada uma das mais importantes poetas em língua inglesa.

Creio ser Merleau-Ponty, em Le Doute de Cézanne, quem escreve que tal vida, a do pintor, era necessária para que criasse aquela obra. O mesmo pode ser dito de Emily Dickinson. Quem lê sua poesia, de tanto rigor e melancolia, sente que uma existência deveria ser oferecida em sacrifício para que nascesse tanta beleza. Só em seu quarto, Emily era livre por sua poesia.

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A interpretação de Cynthia Nixon para essa alma sensível e solitária é inesquecível. O filme todo o é.

Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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