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Pequenas neuroses contemporâneas

Opinião|Franceses estão mais preocupados com a crise climática?

Quando Emmanuel Macron disse não ao acordo Mercosul e União Europeia, não era um populista contra um inimigo ideológico, mas um representante do povo

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Foto do author Marcelo Rubens Paiva
Atualização:

Franceses não são ingênuos à toa. Espertos, agora usam o discurso do combate contra a crise climática. Saquei que parte da minha família que mora na Europa está engajada nesse movimento mais crucial do que a mesquinhez nacionalista.

Meu programa favorito em viagens é entrar num supermercado local. Me hospedei agora em janeiro na casa da minha irmã, em Paris. Diante, tinha um que equivale a uma ida ao Louvre.

Louvre, em Paris Foto: EFE/EPA/TERESA SUAREZ

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Vinhos, queijos e iogurtes são como uma exposição sem precedentes por aqui. Frutas e verduras, a galeria temporária fraca. Comparada a uma feira de rua paulistana, a galeria é como comparar a coleção de impressionistas do Musée d’Orsay com a do Masp.

Só dois tipos de uvas: uma espanhola verde azeda, e uma docíssima e desconhecida uva rosa peruana, que comprei depois de experimentar. A tal uva foi o hit do inverno.

Não só fui esculachado por duas gerações da família, ao comprar uvas importadas na terra das uvas, como responsabilizado por me aliar ao desastre ambiental. E jamais poderia ter comprado uma fruta fora da estação. Não se faz mais isso.

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Nesta semana, a cidade foi sitiada por tratores de agricultores franceses. A causa foram as uvas peruanas?

Europeus sabem que, para ajudar com o clima, é preciso diminuir a logística de produtos e pessoas.

Paris está irreconhecível. Ruas foram fechadas, calçadas, alargadas, ciclovias são do tamanho de vias de carros. O vaivém de scooters elétricas como o de táxis pretos, uma novidade.

Em Paris, como em Londres, Nova York, basta esticar o dedo para um táxi, que antes era uma raridade.

O vaivém de bicicletas e patinetes lembra o de uma cidade nórdica. Plana, pequena, servida pela terceira maior rede de metrô do mundo, sem contar os RERs que cruzam a cidade, o parisiense encostou seu carro. Sobram vagas nas ruas de bairros progressistas, como Quartier Latin.

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Quando Emmanuel Macron disse não ao acordo Mercosul e União Europeia, não era um populista contra um inimigo ideológico, mas um representante do povo. Faz sentido: por que comprar toneladas de proteína do outro lado do oceano, alimentada pela combinação sementes transgênicas e agrotóxicos proibidos?

E é raro ver intolerância à lactose por lá, uma praga brasileira. A vaca francesa não é mais bem tratada do que a nossa, não recebe hidratantes da Roche, nem maquiagem da MAC. A indústria matura a sua produção de forma que a lactase diminui.

De nada adiantaram meus argumentos de que deveríamos ajudar o grande e bravo povo dos Andes, civilização antiga como a europeia. Salvar o planeta é prioritário.

Opinião por Marcelo Rubens Paiva

É escritor, dramaturgo e autor de 'Feliz Ano Velho', entre outros

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