Do Nirvana ao Garbage, Butch Vig ajudou a mudar a história do rock: ‘Ninguém previu o zeitgeist’

Ao ‘Estadão’, o produtor e músico americano de 69 anos fala sobre ter trabalhado no álbum ‘Nevermind’, a morte de Kurt Cobain e os próximos passos do Garbage, que toca em SP em 22 de março; grupo emplacou hits como ‘Stupid Girl’ e ‘The World Is Not Enough’, tema de James Bond

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Foto do autor Gabriel Zorzetto
Atualização:
Foto: Bo Vig/Divulgação
Entrevista comButch VigProdutor e músico

São 9h em Los Angeles e Butch Vig, de 69 anos, afirma “mal estar acordado” para conceder uma entrevista ao Estadão, por telefone. Nem parece. Eloquente e empolgado com a iminente turnê no Brasil, o baterista e fundador do Garbage beberica uma xícara de café entre suas respostas para prosseguir o papo.

No seu currículo, há a participação em um marco divisor de águas na história do rock: ter produzido o Nevermind (1991), do Nirvana, álbum que catapultou o gênero grunge nos anos 90 e freou a febre do hair metal de grupos como Bon Jovi, Guns N’ Roses e Mötley Crüe, dominantes na década anterior.

Na esteira do sucesso com a banda de Kurt Cobain (1967-1994), o produtor americano também foi responsável por Dirty (1992), do Sonic Youth; Bricks Are Heavy (1992), do L7; Siamese Dream (1993), do Smashing Pumpkins, entre outros trabalhos relevantes, antes de fundar o Garbage com a cantora Shirley Manson, o baixista Duke Erikson e o guitarrista Steve Marker. Anos depois Butch ainda imprimira sua marca, notavelmente, em discos do Green Day e do Foo Fighters.

O quarteto de sucessos como Stupid Girl, Only Happy When It Rains e The World Is Not Enough, tema de James Bond em 007 – O Mundo não é o Bastante (1999), se prepara para lançar o 8º álbum de estúdio. Let All That We Imagine Be the Light virá à luz em 30 de maio. Já o novo giro brasileiro passa por Rio, São Paulo e Curitiba, com abertura do L7. Na capital paulista, a apresentação será em 22 de março na casa de shows Terra SP. Trata-se da 4ª visita do grupo ao País, dois anos após performance na edição de estreia do The Town.

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Garbage, banda de sucesso dos anos 90, fez apresentação no festival The Town, em 2023, e agora retorna para nova turnê no Brasil Foto: Taba Benedicto/Estadão

Vamos começar falando sobre este novo álbum que vocês acabaram de anunciar, ‘Let All That We Imagine Be The Light’. O que pode nos adiantar? É um passo natural após ‘No Gods, No Masters’ (2021)?

No Gods, No Masters foi meio que o primeiro álbum com uma temática social e política que fizemos, por causa das letras da Shirley, e isso definitivamente acontece com este novo disco também. Mas a música no novo álbum, para mim, parece mais cinematográfica, há muitos sintetizadores analógicos e teclados. Há essa vibe meio distópica. Shirley realmente queria que houvesse alguma esperança e alguma luz, porque eu acho que o mundo só parece estar ficando cada vez mais louco a cada dia. Ela não queria que o disco fosse todo sombrio, mas sim que as pessoas tivessem algo para levar consigo para lutar através do que está acontecendo. Essa sensação de poder comunitário para lutar contra a autoridade, combater os bilionários que estão tentando dominar o mundo. Pode parecer ridiculamente otimista, mas queríamos isso neste disco.

A formação da banda permanece a mesma desde a sua fundação, o que é algo muito raro. Qual é o segredo para isso?

Acho que todos nós compartilhamos perspectivas similares, em termos de política. Temos muito respeito um pelo outro. Enquanto podemos discutir sobre um arranjo de música ou uma letra, nós nos respeitamos o suficiente para não levar essas discussões para o lado pessoal. Ao fim, nós meio que chegamos a um consenso entre os quatro, e essa é uma das razões de ainda estarmos aqui depois de 30 anos. Percebemos que somos tão sortudos por ainda estar aqui por tanto tempo, fazendo o 8º álbum e podendo vir ao Brasil para tocar na frente dos nossos fãs fantásticos. Estamos cientes de que, conforme estamos envelhecendo, o tempo está passando. Tentamos saborear todo esse processo.

Como foi a experiência de fazer uma música-tema para James Bond?

Foi uma experiência incrível. Estávamos em turnê em algum lugar da Europa e recebemos uma ligação. Nos bastidores, alguém disse: ‘David Arnold está ao telefone, ele quer falar com Shirley e o Garbage’. Nós sabíamos que David é um compositor, e eu sabia que ele estava trabalhando no filme do Bond, mas nunca tinha o conhecido antes. David disse a Shirley: ‘você gostaria de cantar no próximo filme de James Bond?’. E ela gritou, todos nós pulamos. Ser convidado para fazer isso é simplesmente uma das maiores honras que tivemos como banda. Não existem muitas músicas-tema do Bond, e nós fizemos uma delas.

Quanto do seu trabalho com o Nirvana influenciou na criação do Garbage?

Boa pergunta. Eu não sei até que ponto o Nirvana teve essa grande influência no Garbage além de algumas coisas tonais, sons de guitarra e um pouco da energia na bateria do Dave Grohl. Mas o primeiro álbum do Garbage de certa forma chocou as pessoas na época porque todos esperavam que fosse um disco grunge, e ele soou bastante diferente disso. Quando começamos a fazê-lo, eu não queria que soasse como Nirvana ou Smashing Pumpkins. Eu queria usar samplers, teclados, loops de hip-hop, eletrônica. E essa tem sido a nossa abordagem em 8 álbuns até agora. Começamos a escrever cada canção com uma paleta bem ampla e então podemos trazer qualquer tipo de instrumentação que quisermos.

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Butch Vig, na bateria, e Shirley Manson, durante apresentação do Garbage, em Curitiba, em 2023 Foto: Fernando Yokota/Divulgação/Tedesco Mídia

Na época em que você estava produzindo o ‘Nevermind’, havia uma sensação intencional no Nirvana de dar um fim no gênero do hair metal?

Não vimos isso chegando. Quando terminamos o disco, pensamos que tínhamos feito um disco incrível porque o Kurt escreveu letras incríveis e a banda estava tocando muito bem. Mas, sabe, todos nós pensamos: ‘oh, talvez venda umas 200 mil cópias, talvez sejamos tão grandes quanto os Pixies’. Ninguém previu esse zeitgeist que mudaria completamente a vida de todos. O engraçado é que eu estive em uma banda chamada Fire Town nos anos 80 e nós éramos ao estilo Tom Petty. Fomos contratados pela Atlantic e nosso disco foi esmagado quando saiu. Não fez nada, foi ignorado, porque na época todas as bandas de hair metal estavam na moda, como Twisted Sister e Guns N’ Roses. Então, há uma certa ironia no fato de que então, em 1991, eu fiz o Nevermind e isso meio que colocou o prego no caixão de todas as bandas de hair metal. Há um pouco de karma aí.

Produzir o ‘Nevermind’ foi o trabalho mais desafiador que você já teve?

Não foi desafiador. A coisa mais difícil foi apenas tentar manter o Kurt focado, porque ele poderia ficar muito mal-humorado e se retrair, então eu tinha que saber quando ele estava no momento para gravar. Houve vezes em que eu simplesmente sabia que tinha que deixá-lo sozinho porque ele só queria ir sentar no canto e ficar só. Definitivamente, dentre os discos mais difíceis que eu fiz, o Siamese Dream é um deles. Eu fiz o Nevermind em 16 dias, isso foi rápido. O Siamese Dream levou 5 meses. O 21st Century Breakdown (2009), do Green Day, levou 1 ano para fazer. E todos os discos do Garbage geralmente levam cerca de um ano.

O guitarrista e cantor Kurt Cobain, da banda norte-americana Nirvana, durante show no Hollywood Rock 1993 na Praça da Apoteose, na cidade do Rio de Janeiro Foto: Jonas Cunha/Estadão

Você se lembra do momento em que soube da morte do Kurt?

Sim, eu estava em Londres com Duke e Steve, do Garbage, e foi o dia em que conheci Shirley Manson. Nós fomos almoçar e passamos 3 ou 4 horas apenas conversando. E foi a primeira vez que a encontramos e realmente gostamos dela. Nos demos muito bem e a convidamos para cantar em algumas demos, para ver como as coisas iriam. Então eu saí e fui a um restaurante jantar com alguns amigos produtores. Eu entrei, eles olharam para mim e disseram: ‘Kurt Cobain está morto’. Fiquei atônito. Simplesmente me levantei e disse: ‘Desculpe, eu tenho que ir’. Voltei para o meu hotel, arrumei minha mala e fui para [o aeroporto] Heathrow e voltei para os EUA. Literalmente, aquele dia para mim foi uma mudança de guarda. Parte da minha vida tinha sido formada pelo Nirvana e agora eu acabara de conhecer a cantora do Garbage. Eu estava indo por um caminho completamente novo.

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Por fim, nesses shows no Brasil vocês estarão acompanhados do L7, outra banda com a qual você trabalhou. Há planos de alguma colaboração no palco?

Não temos planos específicos ainda. Provavelmente vamos sair para jantar fora, ir a alguns bares ou cafés. Elas são uma banda incrível. Quando eu produzi Bricks Are Heavy, foi um dos álbuns mais divertidos em que já trabalhei porque elas eram simplesmente selvagens no estúdio. Vejo a Donita [Sparks, cantora] bastante. Ela mora no mesmo bairro que eu em Los Angeles. Então, esbarro nela no supermercado local. Às vezes ela está lá de pijama, tipo 8h. Vamos nos divertir muito no Brasil.

Garbage volta ao Brasil para três shows ao lado do L7 e lançará novo álbum em maio Foto: Reprodução/Garbage via Facebook

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Garbage e L7 - Ao Vivo

  • Quando: 22 de março de 2025
  • Onde: Terra SP (Av. Salim Antônio Curiati, 160)
  • Ingressos: clubedoingresso.com
  • Preços: R$ 300 a R$ 1.200