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Jota Quest volta, busca ‘essência’ e reclama do pop atual: ‘Hoje em dia é tudo editado, fabricado’

Grupo lança ‘De Volta ao Novo – Volume 1′, com participação de Hebert Vianna. Eles explicam ao ‘Estadão’ conselho do produtor: ‘A coisa mais exclusiva que vocês têm hoje é ser uma banda. Sentem e toquem’

Foto do author Danilo Casaletti
Por Danilo Casaletti
Atualização:

Não existe desafio maior, apesar da banalização deste termo, do que uma banda que está em plena turnê comemorativa de 25 anos de carreira e, portanto, com alta dose de nostalgia no repertório, do que lançar um álbum de inéditas.

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O grupo mineiro Jota Quest resolveu dar essa espécie de cavalo de pau - na estratégia de mercado, e não na sonoridade, é preciso esclarecer - e colocou nas plataformas o álbum De Volta ao Novo – Volume 1. É o primeiro com novas canções desde Pancadélico, de 2015.

Amparados pela gravadora Sony Music, multinacional com quem o grupo tem contrato desde 1996, a banda já planejava lançar o trabalho desde antes da pandemia. A parada forçada e, depois, a estreia da turnê comemorativa, despertou nos integrantes Rogério Flausino (vocal), Marco Túlio Lara (guitarra e violão), Márcio Buzelin (teclados), PJ (baixo) e Paulinho Fonseca (bateria) a vontade de começar tudo de novo.

Marco Túlio, Rogério Flausino e Paulinho Fonseca: três integrantes do Jota Quest em papo com o 'Estadão' Foto: ALEX SILVA/ESTADAO

Eles deixaram o conforto do estúdio próprio em Belo Horizonte e vieram para São Paulo ao encontro do produtor Rick Bonadio, com quem nunca haviam trabalhado, o mesmo que pilotou discos de nomes como Charlie Brown Jr., Los Hermanos e Titãs, para seguirem de uma maneira que parecia óbvia: ser uma banda também na hora de fazer um álbum, em estúdio.

“Ele nos disse: a coisa mais exclusiva que vocês têm hoje em dia é ser uma banda. Sentem e toquem. Foi muito interessante, com toda a tecnologia disponível atualmente, ir para a essência”, explica Lara. “Hoje em dia é tudo tão editado, fabricado, que uma banda tocar no rádio pode soar até estranho”, diz Fonseca.

Foi Bonadio que trouxe o cantor e compositor Vitor Kley, 29 anos, para perto do Jota. A banda assina com ele a faixa N-U-M-A-B-O-A, balada dançante com batidas eletrônicas, piano e cordas. “O Vitor se parece com a gente na leveza quando fala sobre o amor. Somos bem baladeiros”, diz Flausino.

Na faixa seguinte, uma versão para Loco Loco (Amor Loco) de Emmanuel Horvilleur, da dupla argentina Illya Kuryaki & Valderramas, que inicia com um sample de Squash, do cultuado álbum Robson Jorge & Lincoln Olivetti, de 1982, reforçando a ligação do grupo com a black music e o uso de samples. A banda trabalhou com Olivetti (1954-2015) no disco Oxigênio, de 2000. O músico fez arranjos de cordas para a música Tele-Fome.

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Hoje em dia é tudo tão editado, fabricado, que uma banda tocar no rádio pode soar até estranho

“Nossa banda foi montada para ser de black autoral brasileira. Essa sempre foi a nossa grande identidade. Com a entrada do Flausino, abrimos também para o pop rock”, explica Fonseca. “E tem sample em todos nossos discos. A primeira versão de As Dores do Mundo está cheia deles. No começo, a gente sampleava Simply Red”.

Herbert Vianna e Nando Reis: os ídolos no disco

A banda mineira Jota Quest Foto: Weber Padua

Banda de uma geração posterior ao chamado BRock, o Jota Quest tem entre as suas inspirações Os Paralamas do Sucesso, formado por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone. Algo fácil de entender. Foram os Paralamas que se abriram para o mundo, deixando gêneros como o reggae e a música africana, além de brasilidade, se misturar com o rock feito no País. Isso ocorreu já no segundo disco do grupo, O Passo do Lui (1984) e mais fortemente em Selvagem? (1986).

Por isso, a presença de Vianna no vocal e tocando guitarra na faixa (é mais uma de amor) Fique Bem é tão significativa para os jotas. “O Herbert tem diversas limitações. Ele não tem querido muito ir a estúdio. Mas ele foi amarradão. Ficamos sabendo que ele gostou muito do resultado da gravação”, conta Flausino.

Para Lara, os Paralamas ensinaram para a molecada que queria fazer banda, que era possível fazer rock com uma cara brasileira e não apenas reproduzir o que era produzido pelas bandas internacionais. “Depois deles, a geração dos anos 1990 fez muito isso. E até mais”, diz o guitarrista.

Em De Volta ao Novo – Volume 1, o Jota Quest ainda se reencontra com outro ídolo, o compositor Nando Reis, de que eles incluíram a inédita Só o Amor Liberta. A letra traz citações a Luiz Melodia e Criolo.

A capa do álbum 'De Volta ao Mundo - Volume 1', com arte de Carlos Fides Foto: Sony Music

É a terceira composição de Nando no repertório do grupo que gravou antes e o lançou Do Seu Lado, que virou hit. Só o Amor Liberta está há quatro anos com o grupo e eles quase perderam seu ineditismo para o próprio compositor que, na última hora, decidiu tirar de seu disco. “É meio Roberto Carlos, meio Raul Seixas”, define Flausino.

O Volume 2 de De Volta ao Novo, o álbum vai totalizar 16 músicas, está previsto para ser lançado no próximo ano. A ideia do grupo é lançar um vinil duplo. Antes, até o fim do ano, deve chegar no mercado um registro audiovisual gravado no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre.

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O que faz a banda seguir adiante?

Em um momento em que a reunião dos Titãs foi abraçada pelos fãs – uma turnê de meia dúzia de shows se tornou um giro mundial – e que o Skank fez uma pausa na carreira, um questionamento válido é o que move o Jota Quest estar junto ao longo de quase 30 anos ininterruptos.

O primeiro motivo, segundo a banda, é justamente a possibilidade de lançar um álbum de inéditas em um movimento natural de continuidade da trajetória do grupo.

“Não estamos voltando ou acabando. Esse momento se assemelha muito a uma família, não romantizada, mas também com as divergências, mas que tem um pilar de sustentação que é essa renovação dos nossos objetivos. Isso supera tudo. Com o tempo, também aprendemos a lidar um com o outro”, diz Lara.

“Não tem fórmula. Fomos aprendendo”, diz Fonseca. “A gente conseguiu entender um limite do outro. Se eu quiser matar o Flausino do coração, é dois minutos. Um é refém do outro”, completa o baterista.

Talvez aí esteja a alma do negócio: não amadurecer

Um processo de amadurecimento juntos – todos os integrantes, atualmente, estão na faixa dos 50 anos? “Ou não amadurece”, brinca Lara. “Talvez aí esteja a alma do negócio: não amadurecer”, aponta Flausino.

O segundo impulso é uma série de shows por arenas e estádios no Brasil em 2024 com a turnê Jota 25, algo que cada vez mais tem atraído o público. “O pessoal tem pensado: ‘poxa, posso ver minha banda preferida de pop/rock em um estádio, igual quando as de fora vem para cá’”, diz Flausino, sobre uma das causas do sucesso do modelo.

O Jota Quest, com produção da Opus Entretenimento, a mesma que tem cuidado da carreira de nomes como Seu Jorge, Alexandre Pires, Daniel e Roupa Nova, vai se apresentar na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, no Allianz Parque, em São Paulo, na Esplanada do Mineirão, em Belo Horizonte, na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, e na área externa do Centro de Convenções do Recife.

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