Sped-up songs: O que começou como brincadeira no TikTok está mudando a indústria; entenda o que é

Músicas ganham versões aceleradas, com mais batidas e palavras por minuto; Lady Gaga, SZA e Demi Lovato já aderiram

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Por Leon Ferrari
Atualização:
11 min de leitura

Quando a cantora Lady Gaga lançou seu segundo álbum de estúdio, Born This Way, em 2011, Bloody Mary, uma música lenta e com diversas referências bíblicas, ficou ofuscada por outros hits do disco. Mais de uma década depois, em 2022, a canção recebeu seus louros em um retorno glorioso que rendeu até uma aparição, pela primeira vez, na Billboard Hot 100 (ranking que contabiliza e mostra os sucessos musicais da semana).

Como? A resposta está na palma da mão do leitor: o TikTok. Por lá, músicas, novas ou antigas, na mão dos usuários, ganham versões aceleradas, com mais batidas e palavras por minuto - que por vezes deixa a voz do intérprete semelhante a de Alvin e os Esquilos -, as sped-up songs (a pressa é tanta que até um e de speed foi comido) ou, menos comum, speed-up songs, que acumulam milhares de visualizações, curtidas e comentários. Para se ter uma ideia, a #speedupsongs se encaminha para os 6 bilhões de visualizações. No caso de Gaga, a versão acelerada de sua canção também embalou a protagonista de Wandinha, sucesso da Netflix.

Gaga não foi a única que ingressou no universo do sped-up. SZA, Melanie Martinez, RAYE, Demi Lovato e, com lançamento nesta sexta-feira, 19, Lana Del Rey são alguns dos nomes que seguiram a tendência. O que começou como uma brincadeira de usuários do TikTok já mudou a maneira como a indústria musical divulga canções, mostrando o tamanho da influência da plataforma.

Especialistas ouvidos pelo Estadão destacam que as speed-up songs são uma experimentação que pode trazer resultados interessantes e também ajudam a falar sobre um momento acelerado da vida. Por outro lado, preocupam-se com o consumo demasiado de produtos acelerados e orientam buscar o equilíbrio.

Brasil

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No TikTok brasileiro, reinam as versões aceleradas de funks, ritmo que, naturalmente, já tem uma velocidade intrínseca, vide o funk 150 BPM (batidas pro minuto). Normalmente, no aplicativo, a música é acompanhada por uma imagem estática com jogadores de futebol, como Neymar, ou com alguém vestindo uma jaqueta corta-vento e um óculos juliet, traje típico dos bailes funk.

Embora as versões aceleradas de músicas de funk predominem, outros gêneros não ficam imunes à aceleração. Há sertanejos e até clássicos do MPB, como Palco, de Gilberto Gil, com rotações aceleradas na plataforma de vídeos curtos.

Cultura do remix

Simone Pereira de Sá, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação (LabCULT), destaca que a tecnologia “sempre moldou a temporalidade da música”, ao menos desde de que a gravação elétrica foi inventada. Segundo ela, as sped-up songs são mais uma “faceta” da tradição do remixes, que surge com a cultura dos DJs nos anos 1980. “A gente vai ter essa estratégia, vamos dizer assim, de pegar as músicas e mudar o andamento delas para elas funcionarem na pista de dança.”

Segundo a revista de música Billboard, as sped-up songs está no seio nightcore, que teve sua origem ainda no início dos anos 2000, e, ao longo dos anos, se “infiltrou” na PC Music, da qual bebem e beberam diversos artistas como SOPHIE e Charli XCX. “Mas seu poder de fazer sucessos era insignificante em comparação com o ecossistema de músicas aceleradas do TikTok”, diz a publicação americana.

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O produtor musical João Marcello Bôscoli destaca que vários artistas consagrados já lançaram mão de acelerar trechos de suas músicas, ainda de forma analógica, com o varispeed, e, depois, com os samplers. Entre eles, cita, Stevie Wonder, Prince, Madonna e Beyoncé, com o hit Crazy In Love. Agora, acelerar a faixa inteira, é novidade, diz. “O tipo de procedimento é parecido, o que muda é a dose.”

Público jovem

Apesar de todo esse sucesso, conforme os pesquisadores, a música acelerada é direcionada e consumida por um segmento bastante específico, os jovens, principalmente por ser um movimento associado ao TikTok.

Tatiana Cirisano, analista de indústria musical do MIDiA Research, serviço norte-americano que foca na economia digital e tem como clientes as gigantes Google e Amazon, contou ao Estadão que o TikTok é mais popular entre pessoas nas faixa etárias de 16 a 19 anos e 20 a 24 anos. “50% de ambos os grupos usam o TikTok semanalmente.”

Os dados são de uma pesquisa de consumo da empresa feita pesquisa de consumo no último trimestre de 2022, tendo como amostra Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá, Alemanha, França, Suécia, Coreia do Sul e Brasil. Ela destaca, porém, que ainda não há dados de consumo das músicas aceleradas.

Indústria da música

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O sucesso das músicas aceleradas não passa batido pela indústria da música. Os remixes sempre foram lucrativos e permitiam inflar as reproduções (streaming) das canções originais, melhorando a posição delas nas paradas musicais (charts). “Este é o novo remix. Isso é melhor do que um remix”, disse Jacob Byrnes , diretor de relações com criadores e estratégia de conteúdo do Universal Music Group, à Billboard.

O processo para acelerar uma canção e torná-la uma speed-up song é simples e pouco custoso. Profissionais de marketing relataram à Billboard pagar contas no TikTok para publicar edições de músicas que estão promovendo, com valores que variam entre U$50 e U$200, enquanto um remix mais elaborado pode custar U$50 mil.

Tatiana avalia que isso mostra como a indústria musical tem se tornado cada vez mais “reativa” às mídias sociais. “Por exemplo, gravadoras contratam artistas depois de descobri-los no TikTok e tomam decisões sobre quais músicas lançar, para quais músicas criar videoclipes, com base em como os ouvintes reagem na plataforma”, destaca. “Músicas aceleradas são apenas a continuação dessa tendência.”

Bôscoli diz que nos bastidores da indústria brasileira as versões aceleradas de canções já são assunto, e a atratividade vem justamente pelo baixo custo associado. “Economicamente é muito rentável”, diz. “Vou pegar um álbum que tem X bilhões de audições (streamings), e aí eu subo o mesmo álbum, sem gastar um tostão, só aperto um botão e dou um speed-up, e vou ter mais audiência. É por isso que está todo mundo fazendo!”

Da Som Livre, Diana Bouth, gerente de Artístico & Repertório de Música Urbana, fala que as sped-up songs são uma tendência “que veio para ficar e já ficou”, e são encaradas como uma “nova forma de consumo”. “Acreditamos que as speed up songs chegaram para acompanhar e contribuir com este novo momento da música em que estamos vivendo. O avanço da tecnologia, as atualizações constantes das redes sociais com novas ferramentas, o boom dos vídeos curtos, e tudo isso impulsionado pelos hábitos de consumo da geração Z”, disse, em entrevista por e-mail.

Recentemente, o artista Kawe, da Som Livre, lançou uma versão acelerada da canção SUV. De 2 minutos e 59 segundos a canção passou para 1 minuto e 55 segundos. O Estadão questionou se a versão sped-up ganha mais audições. Diana falou que, por ser uma tendência recente, ainda não há dados. “Mas podemos dizer que existe sim a curiosidade do público em ouvir as duas versões para comparações, por exemplo. Então uma versão acaba impulsionando a outra e alimentando o consumo de ambas, e até mesmo levando o usuário para consumir outras faixas do catálogo do artista.”

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Experimentação e contemplação

Para alguns, pode parecer estranho que alguém procure ouvir músicas nas quais as palavras ficam quase ininteligíveis. Conforme mostrou o Estadão, esse tipo de canção é um dos sinais que marcam um momento mais veloz da humanidade, onde mais coisas acontecem em uma mesma unidade de tempo.

A pesquisadora Simone destaca que a busca pelas sped-up songs é também uma forma de lidar com o excesso. “Eu tenho pressa. E tanta coisa me interessa. Mas nada tanto assim”, cita a canção de Kid Abelha. “Uma música antiga, mas que fala disso, de se ter muita oferta do que se pode consumir, e, nesse sentido, a aceleração quer dar conta disso.”

Na visão dela, as sped-up songs é uma experimentação que pode dar frutos interessantes. “Desde que a internet surge, a gente ainda não concluiu esse ciclo de letramento digital. Estamos experimentando, principalmente as novas gerações.”

O sociólogo, antropólogo e psicanalista Tiago Pereira Andrade, coordenador do curso de Ciências do Consumo da ESPM, destaca que arte reflete “um movimento de um grupo ou pessoa, de uma época, em um contexto”. “O produto da arte é um produto de inúmeras interferências muito rápidas no mundo de hoje. Isso não deixa de ser arte. Só que é uma arte confusa, é uma arte acelerada, uma arte difusa também. Uma arte que reflete o tempo que vivemos.”

Criativamente, Bôscoli não vê problema nas músicas aceleradas. “Sou completamente a favor das pessoas terem liberdade de fazerem artisticamente o que elas quiserem”, afirma. Ele comenta que as interferências do público não são algo das sped-up versions, e lembra que já nos toca-discos era possível aumentar a rotação de canções e transformá-las em baladas.

Filho da cantora Elis Regina, Bôscoli conta que já se deparou com versões aceleradas das canções da mãe. “Se essa for maneira através da qual alguém vai conhecer a Elis, ótimo. A molecada está brincando com a Elis, ótimo. Como filho, acho muito bem-vindo que brinquem, que acelerem, que façam tudo, porque, às vezes, é assim que descobrem a obra. A última coisa que eu faria seria censurar, colocar uma artista no pedestal nunca ajudou o artista”, afirma.

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“Pode brincar à vontade, porque a Elis gostava muito de brincar também”, conta. Quando a música acelerada atinge uma escala industrial, Bôscoli, porém, diz ficar preocupado com os possíveis reflexos desse consumo acelerado para a nossa mente.

Michelle Prazeres, pós-doutorada em comunicação, velocidade e tecnologias e idealizadora do movimento Desacelera SP, porém, comenta que ao ver acelerado, porém, vemos, de certa forma, um subproduto. “Ver um vídeo ou uma série velocidade no 2.5x, a pessoa que pensou essa obra, pensou na temporalidade com aquela temporalidade constitui a obra. Então você não viu a obra, viu um produto daquilo, um vestígio da obra.”

As músicas aceleradas aparecem em meio a possibilidade de se acelerar vídeos e áudios. Se isso afeta nosso cérebro? A resposta é sim, de acordo com Vanessa Clarissa Marchesin, doutora em Neurociência Aplicada e professora da ESPM, afinal, tudo o que fazemos ou não, impacta o cérebro. “O que pode acontecer? De repente, não vou dar atenção para um amigo no almoço e logo vou pegar a tela do computador, porque a tela do computador, porque ela me dá uma resposta imediata.” Atenção é tempo direcionado a um alvo, frisa ela. “Se ensino ao cérebro que essa conexão, pode ser menor, a nossa tendência é buscar essa recompensa rápida.”

Os especialistas orientam equilíbrio. Fazer uma reflexão do que precisa ser consumido de forma acelerado e daquilo que pode ser degustado no 1x.

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