‘Escute as Feras’: História da antropóloga atacada por urso volta ao teatro em temporada gratuita

Peça baseada no livro da francesa Nastassja Martin pode ser vista no Teatro Cacilda Becker entre quinta e domingo; conheça a história transformadora do acidente ocorrido em área remota da Sibéria e que ganha novas interpretações no palco brasileiro

PUBLICIDADE

Foto do author Daniel Silveira
Por Daniel Silveira

Uma mulher enfrenta um urso e sai dessa luta com o rosto desfigurado. Além de precisar se adaptar a uma nova realidade, ela usa sua história para pensar sobre si e sobre o mundo. Esse é o ponto de partida do livro Escute as Feras (Editora 34), de Nastassja Martin, adaptado para o teatro com o mesmo título por Fernanda Diamant, Mika Lins e Maria Manoella. A peça tem temporada curtíssima no Teatro Cacilda Becker, com seis apresentações entre quinta-feira, 29, e domingo, 3, com apresentações gratuitas.

Maria Manoella protagoniza a história real da mulher que enfrentou um urso, saiu viva e decidiu narrar sua transformação em um livro. Foto: Ariela Bueno/Divulgação

PUBLICIDADE

Maria também protagoniza a peça que se concentra nos principais pontos de contato entre essa história e a realidade brasileira, entre essa mulher e todas as mulheres. “Esse é um livro que, ao refletir sobre esse encontro radical, catalisador, modificador da vida, poderia ser usado como uma grande metáfora para falar de muitas questões femininas radicais como o próprio lugar da mulher no mundo”, comenta Maria.

No livro, a autora, que nasceu em 1986, relata seu encontro, em 2015, com esse urso pardo, que aconteceu na região de Kamchatka, na Sibéria. Além de experimentar transformações físicas, ela encara mudanças espirituais e se vê às voltas com questões filosóficas sobre as relações entre a humanidade e a natureza. Sonhos, delírios provocados por intervenções médicas e memórias em meio aos vulcões. “Essa mulher que luta com um urso se traumatiza, mas sobrevive por meio dessa história e ganha força para poder contá-la de uma perspectiva de cura”, aponta a atriz que, em cena, divide o palco com o músico Lúcio Maia.

Maria se empenha em dizer que esta é uma história que tem um ponto de vista feminino, o que também justifica uma equipe majoritariamente formada por mulheres. “Não tem como não fazer uma relação com a maternidade, que é o maior e radical encontro que uma mulher tem. É a morte do seu eu anterior e o nascimento de seu novo eu. O livro fala sobre todas essas questões, para além de falar sobre povos originários e sonhos”, continua.

Nastassja Martin no Brasil

Nastassja Martin veio ao Brasil em 2023 para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e conversou com o Estadão.

“Precisei escrever essa história para que ela saísse do meu corpo e eu pudesse sobreviver. Esse é o primeiro significado deste livro para mim: encerrar e compartilhar com outras pessoas para que eu possa criar de novo as minhas fronteiras e me libertar dessa história. Mas o livro é, também, um manifesto sobre como pensar a antropologia e a cosmologia indígena de uma forma diferente”, ela explicou – referindo-se, também, à questão do sonho, tratada por muitos como uma crendice e defendida por ela como algo “tão real quanto a mais dura das ciências”. Leia a entrevista.

Maria Manoella ao lado do músico Lúcio Maia, que a acomapnha no palco fazendo trilha e ambiência sonora.  Foto: Ariela Bueno/Divulgação

A montagem

O “quase solo” de Maria Manoella é, como a atriz fala, uma transposição do texto narrativo escrito por Nastassja para a atuação. “Acho que teve uma uma dificuldade inicial de transpor para o palco porque trata-se de um livro, onde tudo narrado. No teatro, precisamos de ação física”, comenta.

Publicidade

“Ele é muito mental, quase uma tese antropológica, um livro de etnografia. Ela conta muito sobre a comunidade onde ela fez sua pesquisa, que serviu de base para sua. Então é uma narração muito mental e a dificuldade foi simplificar e transformar em ação física. Quando descobrimos como fazer, foi uma delícia”, complementa.

A atriz conta que a preparação física foi muito importante para o desenvolvimento da peça. O trabalho foi feito por Vivien Buckup, que assina a direção de movimento. “Ela soube conduzir e achar esse corpo híbrido dessa mulher urso, atravessada por esse encontro, que passa boa parte da história numa cama de hospital tentando se reconstruir”, reflete.

A parceria com Lúcio Maia, que além de dividir o palco com ela faz direção musical, produção, composição e execução, vem de outros carnavais. “Ele é um grande músico, ex-companheiro, pai do meu filho e há muitos anos procuramos um projeto para fazermos juntos. Quando lemos Escute as Feras, entendemos todo o potencial sonoro do livro. Foi um encontro muito bonito”, diz a atriz.

“Acabamos brincando, dizendo que não é um monólogo e sim um grande diálogo, um grande encontro também. Usamos encontro para falar desse encontro radical e modificador que também não deixa de ser um pouco o que foi a nossa história”, completa.

Nastassja Martin, autora do livro Escute as Feras (34), em que narra a experiência de ser atacada por um urso nas montanhas da Sibéria.  Foto: Editora 34

Quem é Nastassja Martin

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Nastassja Martin é uma antropóloga francesa. Seu sucesso no mundo literário aconteceu depois de Escute as Feras, livro que escreveu depois de enfrentar um urso pardo. Seu trabalho envolvia investigar e estudar os gwinch’in, no Alasca, e os even, no extremo leste da Sibéria, grupos de pessoas que vivem na natureza profunda. A história com o urso aconteceu quando a estudiosa estava em um trabalho de campo no extremo leste da Rússia. De acordo com a autora, seu livro é baseado em um caderno de anotações pessoais, uma espécie de diário de viagem e caderno de sonhos que ela tinha consigo. Outro livro da francesa disponível no Brasil, lançado depois do sucesso de Escute as Feras, é A Leste dos Sonhos: Respostas Even às Crises Sistêmicas, também pela Editora 34.

Escute as Feras

  • Teatro Cacilda Becker (Rua Tito, n 295 – Lapa)
  • Curta temporada: 6 apresentações. De 29/2 a 3/3
  • Quinta (29) e sábado (2), às 18h e 21h. Sexta (1°), às 21h. Domingo (3), às 19h
  • Ingressos gratuitos distribuídos exclusivamente na bilheteria do teatro, 1 hora antes do início das apresentações. Sujeito a lotação – 195 lugares
Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.