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Um enigmático pensador grego, chamado de ‘o obscuro’, explica a disparada das guerras no mundo hoje

Nestes tempos de guerras que assombram a alma, Heráclito de Éfeso pode nos acolher em sua sabedoria. Para ele, o conflito é uma força natural, necessária e intrínseca à nossa existência, mas há caminho para a paz; leia artigo

Por Anna Padoa Casoretti
Atualização:

No recente artigo Por que o mundo voltou a viver uma era de guerras e conflitos sangrentos?, escrito para o The New York Times e publicado no Estadão, Peter Coy faz uma análise sobre o retorno à atrocidade das guerras, caso dos combates travados na Etiópia, na Ucrânia e, mais atuais, entre Israel e o Hamas. Ao final de sua matéria, o jornalista pergunta à pesquisadora Siri Aas Rustad porque a violência teria se tornado tão preponderante novamente. Sua resposta, desprovida de qualquer pretensão, revela mais verdade do que talvez ela própria intencionasse: “talvez porque tenha passado tempo demais desde a 2.ª Guerra e nós estejamos esquecendo como é ter um mundo em guerra”; daí estarmos “retornando a mais conflitos”. Heráclito concordaria.

Soldados israelenses assumem posições perto da fronteira com a Faixa de Gaza, no sul de Israel, em 11 de dezembro de 2023 Foto: Ohad Zwigenberg/AP

Em tempos de guerras, a antiga filosofia grega pode oferecer abrigo. Ali há sempre respostas. O tema da discórdia, do antagonismo, do confronto foi objeto das mais variadas especulações, que levaram os Antigos a nos presentear com uma rica fonte para investigações acerca da essência do universo e do homem. Nestes tempos de guerras que assombram a alma, Heráclito de Éfeso (VI a.C.) pode nos acolher em sua sabedoria.

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De sua obra Sobre a Natureza, sobreviveram alguns fragmentos que foram ordenados e numerados pelo helenista alemão Hermann Diels. No fragmento 53, o filósofo grego afirma que “a guerra (polemos) é o pai de todas as coisas”. A intrigante passagem deve ser interpretada à luz do conjunto da obra. Heráclito postulava que o conflito é uma força natural, necessária e intrínseca à nossa existência. No atual panorama de combates que tem confiscado nossa atenção, o fragmento 53 ecoa com uma incômoda relevância.

As abstrações filosóficas costumam contemplar uma universalidade que pode ser verificada em diferentes níveis da realidade. Não seria diferente com as reflexões de Heráclito. Ao empregar, em seu emblemático fragmento, o termo “todas as coisas” (panton), o autor anuncia que está a tratar de algo que faz parte de todos os níveis da existência, das realidades suprafísicas ao mundo natural, da coletividade ao ser humano. Vejamos de perto.

Considerado o pai da dialética, Heráclito tratou da multiplicidade de oposições que compõem o Todo. Origem e fim, vida e morte, saúde e doença, paz e guerra. A vida se desenrola na tensão entre as polaridades. Na tensão entre os elementos químicos, entre as virtudes e vícios humanos, entre os distintos aspectos da natureza física e biológica das coisas. O jogo das oposições se faz presente em tudo aquilo que participa do reino sujeito à impermanência (ou seja, o nosso). E as coisas que existem se afirmam a partir da contraposição, do contraste.

Essa disposição se mostra na disputa entre as nações, entre os condados ao longo da história, entre vizinhos em sua demarcação de territórios, dentro dos núcleos familiares, dentro de nós. A mente humana interpreta os eventos em termos duais, seja dos mais banais do cotidiano, a nos causar entusiasmo ou aborrecimento, aconchego ou desconforto, aos mais impactantes, que trazem alegria ou tristeza, prazer ou dor. Assim, em um primeiro momento, Heráclito nos convida a contemplar a dualidade da experiência humana e a tensão presente entre os opostos.

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Diante de tal quadro, há alguma esperança de paz para nós? Sim, e a resposta pode ser encontrada no próprio fragmento 53. Há uma segunda ideia ali contida. Ao nomear a guerra como “pai” (pater) de todas as coisas, Heráclito (que já foi chamado de “o obscuro”, em razão de seu pensamento misterioso e enigmático) faz menção a uma “origem” das coisas, concedendo à batalha uma potência de criação. Como a sinalizar que, diante da contínua tensão entre os extremos, estabelece-se uma força fundamental e geradora a impulsionar a mudança que antecede o novo, seja na natureza que na sociedade.

O desfecho de toda essa dinâmica está propagado em outro fragmento do filósofo, o de número 8, onde se lê que “dos contrários nasce a harmonia”. Ou seja, após o caos ocasionado na luta das oposições, temos como resultante um ponto de equilíbrio, a harmonia.

Pode parecer um resultado otimista, mas não nos enganemos. Tal adjetivo não se aplica a Heráclito e a palavra harmonia, aqui, não tem exatamente a conotação que gostaríamos. Não se trata de dar um final feliz para a adversidade. O sofrimento envolvido nos confrontos é imenso; a dor não conversa com teorias filosóficas. A constatação do caráter transformador do conflito não diminui a desolação inerente a ele. Ainda assim, a reflexão sobre a resiliência humana e sua capacidade de reconstrução pode e deve ser feita. A partir da solução de conflitos, novas realidades são forjadas, novos sistemas de convivência emergem.

Ilustração de Heráclito de Éfeso Foto: fogbird

Embates dolorosos não se limitam aos campos de batalha. Aquele que sofre com algum tipo de transtorno mental ou emocional trava excruciantes batalhas diárias dentro de si, em busca de momentos de estabilidade entre suas próprias polaridades. Em âmbito familiar, a presença de um integrante em discórdia dentro do núcleo é suficiente para que todos os demais familiares saiam de suas zonas de conforto, tendo que se esforçar para, através do atrito da própria consciência, encontrar a melhor forma de manter certa coesão que permita uma vida em comum. Em uma sociedade democrática, somos obrigados (pela nossa própria razão) a coexistir com ideais tantas vezes discordantes dos nossos.

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E o que dizer da guerra, a mais injusta das experiências que resulta das oposições? As tragédias vivenciadas nos combates entre nações e territórios vizinhos podem ser vistas como catalisadores de mudanças profundas, não somente na estrutura das sociedades, seu resultado mais visível, como, principalmente, nas repercussões individuais. Em meio à barbárie, às perdas humanas, ao luto, pequenos e significativos gestos de humanidade, no seu melhor, podem se revelar. Aquela humanidade que a vida cotidiana tantas vezes anestesia, ressurge nos momentos mais difíceis, mais gritantes, em busca de razões para perpetuar a vida. Da devastação, podem surgir sementes que carregam uma inesperada capacidade de adaptação. Sob essa lente, as palavras de Heráclito ressoam com uma contemporaneidade surpreendente.

Dualidade entre os opostos, tensão, discórdia, necessidade de conclusão. A paz decorre de um breve momento de harmonia, quando as contradições se resolvem; quando as partes encontram alguma forma de adequação. Esse momento de harmonia representa um fugidio princípio de permanência em meio às dissonâncias; um momento de repouso em meio ao caos. Esse momento não perdura, ele apenas prepara o próximo. Mas de resolução em resolução, renovamo-nos. Afinal, não é disso que trata a nossa existência?

*Anna Padoa Casoretti é doutora em Filosofia. Escreve sobre filosofia, religiosidade antiga e comportamento.

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