Banco Mundial projeta queda de 5% no PIB do Brasil devido a novo coronavírus

Se confirmada a projeção, será a maior recessão que o Brasil enfrentará em 120 anos. Segundo estatísticas históricas do IBGE, não há registro de uma queda tão grande da atividade desde 1901

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Por Idiana Tomazelli
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4 min de leitura

BRASÍLIA | A atividade econômica brasileira deve encolher 5% neste ano devido à crise provocada pelo novo coronavírus, projeta o Banco Mundial. O organismo multilateral divulgou hoje um relatório em que analisa os impactos da pandemia na América Latina.

São Paulo deve dar prioridade ao isolamento durante a pandemia de coronavírus Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

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Se confirmada a projeção do Banco Mundial, será a maior recessão que o Brasil enfrentará em 120 anos. Segundo estatísticas históricas do IBGE, não há registro de uma queda tão grande da atividade desde 1901. 

Até hoje, o maior tombo na economia ocorreu em 1990, quando houve retração de 4,35% - foi o ano do Plano Collor I e do confisco do dinheiro dos brasileiros. A segunda maior queda já registrada foi em 1981, quando o PIB caiu 4,25% na esteira da crise da dívida externa brasileira.

No conjunto da região, o PIB deve sofrer uma contração de 4,6% em 2020, segundo o Banco Mundial. A projeção não inclui a Venezuela, que já enfrentava uma forte crise antes mesmo da eclosão da pandemia da covid-19.

O economista-chefe do Banco Mundial para a região, Martin Rama, explicou que a pandemia impôs um “choque triplo” às economias latino-americanas. O primeiro deles ocorreu na demanda, com famílias comprando menos bens e serviços e grandes países como China demandando menos commodities. O segundo teve repercussões financeiras, com uma fuga de capitais estrangeiros maior até do que o observado na crise de 2008 e 2009. O último choque é de oferta, com as pessoas impedidas de sair para trabalhar.

Os dados fazem parte de um relatório semestral do escritório do economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, intitulado “A economia nos tempos da covid-19”. Segundo o documento, o forte choque sofrido pelas economias exige respostas de políticas em diversas frentes: para apoiar os mais vulneráveis, evitar uma crise financeira e proteger os empregos.

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Para ajudar os vulneráveis a enfrentar a perda de renda motivada pelo isolamento social, os programas atuais de proteção e assistência social “devem ser rapidamente ampliados e ter sua cobertura estendida”. Ao mesmo tempo, os governos devem considerar apoiar as instituições do setor financeiro e as principais fontes de emprego, diz o relatório.

“Precisamos ajudar as pessoas a enfrentar esses enormes desafios e garantir que os mercados financeiros e os empregadores sobrevivam à tempestade” afirma o vice-presidente interino do Banco Mundial para a região, Humberto López. “É preciso limitar os danos e lançar as bases para a recuperação o mais rapidamente possível.”

Ao fazer suas projeções, o próprio Banco Mundial reconhece que as circunstâncias econômicas estão mudando diariamente. A análise tomou como base informações dos países disponíveis até 10 de abril de 2020.

Entre os grandes países da América Latina, o Brasil só não deve ter desempenho pior em 2020 do que México (-6,0%), Equador (-6,0%) e Argentina (-5,2%). Países do Caribe sofrerão um baque devido aos impactos da pandemia sobre o turismo, uma fonte importante de renda nesses locais.

A recuperação no Brasil também deve ser mais lenta do que na média da região. O Banco Mundial espera avanço do PIB brasileiro de 1,5% em 2021 e de 2,3% em 2022. Para a América Latina e Caribe, a alta esperada é de 2,6% tanto em 2021 quanto em 2022.

Na avaliação do Banco Mundial, a pandemia da covid-19 contribui para um grande choque do lado da oferta. A demanda da China e de países desenvolvidos deve cair drasticamente, afetando os exportadores de commodities da América do Sul e os exportadores de serviços e bens manufaturados da América Central e Caribe.

Agravantes

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Muitos países da região, porém, estão enfrentando a crise com um espaço fiscal limitado. O Banco alerta ainda que níveis mais elevados de informalidade no mercado de trabalho latino tornam mais difícil que os sistemas de proteção social atinjam todas as famílias. A proteção de todas as fontes de emprego também é mais incerta.

“Muitas famílias vivem ‘da mão para a boca’ e não dispõem de recursos para suportar os bloqueios e quarentenas necessários para conter a propagação da pandemia. Muitos também dependem de remessas internacionais, que estão em colapso”, diz a instituição, que defende a ampliação de programas de assistência social.

“Ao mesmo tempo, os governos terão que arcar com grande parte do prejuízo. Socializar esse prejuízo pode exigir a aquisição de participação em instituições do setor financeiro e empregadores estratégicos por meio de recapitalização. Esse apoio será essencial para preservar os empregos e possibilitar a recuperação”, afirma o relatório.

Para o Banco Mundial, um risco de uma crise financeira não pode ser totalmente descartado, dada a magnitude do choque, daí a necessidade de dar apoio a instituições desse setor. O Banco ressalta, no entanto, que qualquer medida nesse sentido deve ser transparente, com acordos sólidos para administrar os ativos recém-adquiridos.

O organismo multilateral ressaltou ainda que a América Latina assiste a uma saída de investimentos externos em portfólio muito maior do que na época da crise financeira global. “No nível doméstico, muitos devedores não serão capazes de cumprir suas obrigações ou solicitar renegociações, ou simplesmente ficarão inadimplentes”, diz o documento.

“Os governos da América Latina e do Caribe enfrentam o enorme desafio de proteger vidas e ao mesmo tempo limitar o impacto das consequências econômicas”, diz o economista-chefe do Banco Mundial para a região da América Latina e Caribe, Martin Rama. “Isso exigirá políticas coerentes e direcionadas em uma escala raramente vista antes.”

O Banco Mundial informou ainda em seu relatório que distribuirá até US$ 160 bilhões em apoio financeiro nos próximos 15 meses para ajudar os países a proteger os pobres e vulneráveis, apoiar as empresas e fortalecer o processo de recuperação econômica.

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Governo trabalha para evitar que crise transitória tenha efeitos permanentes, diz secretário

O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, disse ao Estadão/Broadcast que o governo trabalha para evitar que a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus tenha efeitos permanentes sobre a economia brasileira. Ele respondeu a questionamentos enviados pela reportagem após o Banco Mundial ter divulgado projeção de queda de 5,0% no PIB brasileiro este ano.

“A crise externa, que surgiu fora do Brasil, se expandiu para todos os países do mundo, é sem paralelo na história recente. Estamos trabalhando para evitar que uma crise transitória tenha efeitos permanentes. Quanto mais tempo nossa economia permanecer fechada, maior será o efeito em termos de emprego e produção”, disse o secretário.

Sachsida afirmou que o governo “reagiu rápido e de maneira decisiva” ao apresentar um conjunto de medidas que, nos cálculos da equipe econômica, chegam a R$ 750 bilhões. “Salvar vidas é prioridade. Adicionalmente a isso, temos trabalhado para preservar empregos e empresas.”