PUBLICIDADE

Brasil e Colômbia não chegam a consenso em acordo automotivo; exportações brasileiras serão afetadas

Tratado que permitia a venda sem tarifa de até 50 mil veículos por ano do Brasil para o seu 3º maior mercado venceu nesta terça-feira, 30, sem que os dois países tenham chegado a acordo

PUBLICIDADE

Foto do autor Mariana Carneiro
Atualização:

Tarifas, juros e política: o roteiro americano que ameaça a economia, segundo a Duquesa de Tax

No programa Não vou passar raiva sozinha, a colunista fala sobre os reflexos das tarifas na economia americana e as interferências de Trump no Fed. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg/Estadão

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

BRASÍLIA - A Colômbia não aceitou prorrogar o acordo automotivo com o Brasil, que venceu nesta terça-feira, 30, e isso vai afetar as exportações para o terceiro maior mercado de carros e veículos leves brasileiros no exterior.

PUBLICIDADE

Em 2024, o Brasil vendeu US$ 750 milhões em veículos leves e picapes para a Colômbia, um mercado que fica atrás apenas de Argentina e México. Com o acordo automotivo, firmado em 2017, o Brasil vendia ao país vizinho até 50 mil unidades por ano com tarifa zero. Agora, essas vendas serão taxadas em 16,1%.

Em setembro passado, a Colômbia informou o Brasil de que não tinha interesse em prorrogar o acordo, mas o governo brasileiro iniciou uma série de tratativas com o objetivo de contornar o problema.

Publicidade

Indústria automotiva brasileira (na foto, fábrica da Fiat em Betim/MG) corre o risco de depender mais da Argentina  Foto: Washington Alves/Estadão

Em agosto, durante a cúpula dos países amazônicos em Bogotá, Lula e o presidente colombiano, Gustavo Petro, chegaram a tratar do assunto. Desse encontro, saiu a informação de que o acordo poderia ser estendido por mais um ano até que os dois países chegassem a um consenso.

Na semana passada, porém, em reunião de equipes técnicas em Brasília, os representantes colombianos fizeram uma contraproposta considerada inaceitável pelo setor produtivo brasileiro: reduzir a cota para 20 mil veículos por ano, além de assumir o controle unilateral sobre como administrar a entrada desses veículos.

A resposta pegou as equipes negociadoras brasileiras de surpresa, uma vez que o intuito do Ministério de Desenvolvimento e Indústria (Mdic), chefiado por Geraldo Alckmin, e do Itamaraty era ganhar tempo e, nesse tempo, convencer a Colômbia a avançar para um tratado de livre-comércio — no qual um conjunto mais amplo de mercadorias e serviços tem taxação zerada de ambos os lados.

Publicidade

A desconfiança do setor privado brasileiro é a de que a Colômbia está fechando a porta para o produto brasileiro e dará preferência a veículos chineses, coreanos e até americanos. O país já tem acordo de livre-comércio com Estados Unidos, Coreia do Sul e União Europeia.

Com a China, a Colômbia mantém um acordo de cooperação comercial. Todos esses países são grandes produtores de veículos e potenciais controladores de um mercado até aqui prioritariamente brasileiro.

A notícia é negativa ainda por deixar o Brasil ainda mais dependente das vendas para a Argentina, que já respondem por 60% das exportações de veículos do Brasil, em um momento de incerteza sobre o que acontecerá na economia do país vizinho com o plano de Javier Milei dando água.

Publicidade

Segundo o Mdic, neste ano o Brasil já vendeu para a Colômbia 38.385 veículos dentro da cota e, pelo tratado agora encerrado, poderá vender os 11.615 veículos que restam da cota até o final de 2026.

Petro e Lula (na foto, em evento em Bogotá, em abril de 2024) abriram uma negociação sobre o acordo automotivo Foto: Cesar Carrion/Presidência da Colômbia

Questionado pelo Estadão sobre o fim do prazo de negociação, o Mdic disse que “o governo colombiano manifestou o interesse de descontinuar o Entendimento Automotivo Bilateral, firmado em 2017 e manteve está disposição ao longo do último ano e durante todas as negociações”.

“O governo brasileiro manteve articulação com o setor privado brasileiro, realizou inúmeras reuniões bilaterais com o governo colombiano e apresentou propostas que viabilizassem um novo entendimento mutuamente benéfico, mas o desejo colombiano se manteve. Por isso, apesar dos esforços brasileiros até as vésperas do prazo final, não foi possível chegar a um novo acordo”, acrescentou.

Publicidade

Participantes das tentativas de acordo dizem que o governo de Gustavo Petro assumiu um tom de desconfiança e rejeição durante todo o processo de diálogo, rejeitando de antemão qualquer sinalização para avançar num tratado de livre-comércio.

Como gesto para abrir a negociação, o Brasil cogitou tratar do comércio de outros produtos, com o intuito de chegar a um acordo, mas a iniciativa não prosperou.

Divergentes dentro da esquerda

Apesar de Lula e Petro serem identificados como políticos da esquerda latino-americana, os dois presidentes não se entenderam novamente na cúpula dos países amazônicos, em agosto, sobre a exploração de combustíveis fósseis na região. Com o encerramento abrupto do acordo automotivo, após uma indicação de que poderia haver a extensão por um ano, trata-se da segunda divergência entre os dois países em dois meses.

Publicidade

Petro foi eleito em 2022, e seu mandato se encerra no ano que vem, sem possibilidade de reeleição. O colombiano vive uma fase de baixa popularidade em meio a atentados violentos como o que vitimou em julho o político Miguel Uribe Turbay, um potencial candidato a presidente em 2026.

Vale ler também
Coluna da Broadcast
Mercado vê oferta de ações voltarem apenas após sinalização de ajuste
Coluna da Broadcast
Lei de resseguros exigirá ajuste no balanço e trará competitividade, diz CEO do IRB
Pedro Fernando Nery
Sidônio, Brasil precisa de 3 salários mínimos: comunicação pode destravar impasse da desvinculação