Campos Neto: barra para acelerar cortes na Selic ficou ‘ligeiramente mais alta’

Segundo o presidente do BC, entre os fatores que explicam essa dificuldade maior está o aumento da curva de juros nos EUA

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Por Thaís Barcellos, Eduardo Rodrigues e Célia Froufe
Atualização:

Brasília - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta quinta-feira, 28, que a barra para acelerar o ritmo de cortes da taxa Selic, atualmente em 0,5 ponto porcentual, está “ligeiramente mais alta” atualmente. Desde agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) vem indicando que vê o ritmo de 0,5 ponto como adequado e que é pouco provável intensificação.

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Dentre os fatores que explicariam essa barra “ligeiramente mais alta” estão os desenvolvimentos recentes no cenário externo. Campos Neto mencionou o aumento recente da curva de juros dos Estados Unidos, destacando que há consequências para os emergentes. “Empresas boas americanas têm tido emissões de crédito saindo com 6,5% a 7,5% de juro. É dreno de liquidez para emergentes.”

Segundo o presidente do BC, boa parte dos analistas não avalia que as preocupações fiscais nos EUA explicam esse movimento do juro longo, mas, se assim fosse, conforme Campos Neto, o formato da curva seria outro. “Se fosse só a indicação de que as taxas de juros vão ficar altas por mais tempo o formato não seria esse”, disse, em relação à estratégia de política monetária nos Estados Unidos.

Outra razão que pode explicar o aumento da curva de juros americana, disse ele, é um tema mais técnico, em relação à China, que tem feito intervenções no mercado e vendendo títulos do Tesouro. Campos Neto ainda disse que, no cenário externo mais incerto, há a discussão sobre o crescimento chinês. “Parece que há uma mudança de modelo, de passar de infraestrutura para inovação e consumo, o que pode fazer com que o crescimento fique mais baixo por mais tempo”, acrescentou.

Para presidente do BC, não há ganhos em indicar com maior clareza o tamanho do ciclo de cortes da taxa Selic no momento atual Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

O presidente do BC fez essas observações durante entrevista concedida para explicar o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do Banco Central, divulgado nesta quinta-feira. No relatório, o BC elevou novamente sua estimativa para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 2023, de 2% para 2,9%. Além disso, o banco também informou pela primeira vez suas projeções para 2024 para o PIB. A expectativa é de crescimento de 1,8%.

O RTI também trouxe as estimativas do BC para a inflação em 2023 (5%), 2024 (3,5%) e 2025 (3,1%). Essas projeções já haviam sido divulgadas na semana passada, no comunicado da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) que reduziu a Selic de 13,25% para 12,75% e sinalizou novos cortes de 0,5 ponto nas próximas reuniões.

A novidade foi a estimativa da autoridade monetária para a inflação de 2026, com IPCA de 3,1% no cenário de referência. A meta para aquele ano foi definida em 3% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em junho, e o governo avisou na ocasião que iria editar um decreto mudando o regime para meta contínua a partir de 2025.

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Selic

Segundo o presidente do BC, o entendimento do Comitê de Política Monetária (Copom) é de que, mesmo iniciado o ciclo de afrouxamento dos juros, a taxa Selic precisa permanecer em patamar ainda contracionista para alcançar os objetivos inflacionários. “Mesmo com o ajuste, o que estamos fazendo é restritivo suficiente para atingir a meta”, disse.

Campos Neto disse ainda que não há ganhos em indicar com maior clareza o tamanho do ciclo de cortes da taxa Selic no momento atual, em que há “grande incerteza”. Ele reconheceu que isso já foi feito no passado, mas que o valor esperado de passar essa informação depende do grau de certeza que o BC tem sobre determinado cenário.

“Em momento de mais incerteza, trocar o ‘guidance’ gera ruídos de credibilidade. Como definimos o momento atual como de grande incerteza, inclusive com incertezas adicionais no cenário externo, entendemos que não há ganho em indicar tamanho do ciclo no momento”, disse.

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