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Consignado do Auxílio Brasil: Dinheiro que deveria cair em dois dias pode demorar até 15

Com a justificativa de ‘excesso de solicitações’, Caixa frustra beneficiários que contrataram empréstimo vinculado a auxílio e esperavam valor na conta em 48 horas

Foto do author Adriana Fernandes
Foto do author Anna Carolina Papp
Por Adriana Fernandes e Anna Carolina Papp
Atualização:

Num movimento atípico, famílias de baixa renda que recebem Auxílio Brasil foram informadas pela Caixa que o dinheiro do consignado que contrataram só será depositado depois das eleições. O prazo inicial era de 48 horas, mas nesta semana o banco informou que o dinheiro só deve cair na conta em até 15 dias.

Ao Estadão, a Caixa justifica que há um “excesso de solicitações” que ocasionou “lentidão nos processamentos”, mas afirma que a liberação do crédito se dá no máximo em cinco dias. A reportagem, contudo, teve acesso a mensagens enviadas pelos bancos aos clientes nas quais informa que o “crédito ocorre entre 2 e 15 dias”. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) recebeu relatos de beneficiários para quem o dinheiro do empréstimo foi prometido apenas para dezembro.

Caixa afirma que a liberação do crédito consignado se dá no máximo em cinco dias; beneficiários falam em 15 Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Jenifer Kauane Batista contratou o consignado do Auxílio Brasil pela Caixa na terça-feira, dia 11, logo no primeiro dia em que estava disponível nas lotéricas. Dois dias depois, o empréstimo foi aprovado e ela foi informada de que o dinheiro seria liberado em 48 horas. Como a transferência não foi feita, ela ligou para o SAC do banco e a atendente deu uma outra informação: de que o prazo, na verdade, era de cinco dias. Na quinta, porém, ao checar o aplicativo do banco, o pedido que antes constava como “aprovado” havia voltado para o status “em processamento “.

“Tentei ligar no SAC novamente, mas não atendem. Também estou tentando falar no WhatsApp da Caixa, mas só dá erro. Não sei mais o que eu faço”, conta ela, que mora em Paranaguá (PR) com o marido e o filho de dois anos. Jenifer contratou um empréstimo de R$ 2,3 mil reais. “Esse dinheiro iria me ajudar muito para pagar contas atrasadas e comprar coisas para a minha casa”, diz.

Além da queixa geral, há muita desinformação nas redes sociais em torno do Auxílio Brasil. O Estadão acompanhou a movimentação de sete grupos de beneficiários do programa no WhatsApp, Facebook e no Telegram. O clima das mensagens é um misto de indignação e revolta de quem ainda não conseguiu receber o dinheiro mesmo depois da contratação da operação e de insegurança com uma enxurrada de fake news em torno do consignado.

O Idec vem monitorando reclamações nas redes sociais sobre o consignado do Auxílio Brasil. Nos últimos dias, a instituição notou um aumento expressivo no número de queixas sobre o atraso no pagamento. “Nas redes sociais, encontramos divulgação de fake news informando que, caso a pessoa deixasse de receber o auxílio, o governo iria assumir essa dívida”, diz Ione Amorim, coordenadora do Programa de Serviços Financeiros do Idec.

O atraso na liberação do dinheiro no período eleitoral tem gerado dúvidas nos beneficiários do programa. “Muitos perguntaram se o Lula ganhar a eleição o consignado será suspenso”, relata a diretora institucional da Rede Brasileira de Renda Básica, Paola Carvalho, uma rede de apoio aos vulneráveis criada durante a pandemia da covid-19 pelo terceiro setor. Segundo ela, essas dúvidas estão se espalhando dentro de grupos dos beneficiários.

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Beneficiários do Auxílio Brasil relatam atraso na obtenção do crédito consignado  Foto: Reprodução

Num dos grupos públicos do Facebook “Empréstimo Caixa Tem – Auxílio Brasil”, com mais de 280 mil membros, a pergunta mais frequente é “Quem conseguiu receber o empréstimo?” e críticas à Caixa. “É muito humilhante. Eu tenho um print de quando foi aprovado. A menina da Lotérica disse que aparecia no sistema que eu não tinha mais margem e que significava que o empréstimo deu certo. E hoje me apareceu cancelado”, relatou ao Estadão, Giovana Verli, de Umuarama, no Paraná. Segundo a Caixa, nessas situações, é preciso fazer uma nova solicitação do consignado.

“Temos que cobrar do presidente, desse pessoal que aprovou o empréstimo e da Caixa. Não só eu como outras mulheres dependem do dinheiro”, disse ela, que ouviu de uma atendente do banco que o problema é no suporte técnico do banco que está muito sobrecarregado com a forte procura pelo empréstimo.

Informações truncadas

Nos grupos de Facebook e WhatsApp aos quais o Estadão teve acesso, há uma avalanche de reclamações de atraso no pagamento do dinheiro. Beneficiários relatam que a Caixa já fala em 15 dias de prazo para o recebimento do crédito, sendo que o prazo informado inicialmente era de 48 horas após a aprovação.

Em uma das mensagens compartilhadas, a Caixa diz a uma beneficiária por WhatsApp que “nesta semana o sistema da Dataprev está congestionado, atrasando o crédito”. Uma outra participante relatou ter sido informada de que só teria acesso ao crédito a partir de 10 de novembro, daqui a três semanas.

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Há ainda muitos relatos de cancelamento do benefício – sobretudo de pessoas que contrataram o consignado nos primeiros dias da modalidade, 10 e 11 deste mês. O empréstimo, que aparecia como “aprovado” ou “em processamento”, agora aparece como cancelado, sem explicações.

Segundo a Caixa, quando a solicitação apresenta status de “em processamento” há mais de dois dias ou “cancelado” “os beneficiários podem realizar nova solicitação diretamente no Caixa Tem ou nas unidades lotéricas e agências”. Segundo o banco, das 700 mil contratações da modalidade até agora, que totalizam R$ 1,8 bilhão, “já foram creditados aproximadamente 80%”.

O consignado do Auxílio tem juro de 3,45% ao mês, beirando o limite de 3,5% estabelecido pelo Ministério da Cidadania. A prestação máxima é de 40% do valor do Auxílio Brasil; já a parcela mínima é de R$ 15 reais. A duração do empréstimo é de até 24 meses.

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