O trabalho na era da IA: como os profissionais da área do design gráfico estão sendo impactados
'Estadão' compartilha relatos de designers para entender como a tecnologia mudou a rotina de quem atua no setor. Crédito: Jayanne Rodrigues/Estadão
Gerando resumo
O diagnóstico de burnout fez a designer Raquel Lucena, de 27 anos, repensar os planos da carreira. Quando estava prestes a completar dois anos no antigo emprego, a rotina de trabalho mudou drasticamente. Hoje, ela atribui a sobrecarga à decisão de como a IA foi incorporada no dia a dia. “De 150 peças para as redes sociais passei a produzir mais de 400 por mês”, diz a jovem.
A queixa da profissional em relação ao uso da IA no trabalho é confirmada por relatos de outros designers gráficos ouvidos pela reportagem. No segundo episódio da série O trabalho na era da IA, que o Estadão começou a publicar na segunda-feira, 20, os profissionais da área afirmam que a tecnologia distorce o tempo de produção, utiliza imagens sem autorização de ilustradores e contribui para a desvalorização dos serviços.
O avanço da inteligência artificial vem transformando de forma acelerada o mercado criativo. Em áreas como a de design gráfico, ferramentas capazes de gerar imagens, textos e layouts em poucos segundos mudaram não apenas o modo de produção, mas também as relações de trabalho, o ritmo das entregas e a percepção de valor sobre o serviço humano.
Entre oportunidades de ganho de produtividade e riscos de precarização, profissionais vivem um momento de tensão: enquanto alguns usam a tecnologia como aliada para inovar e ampliar o portfólio, outros enfrentam sobrecarga, queda de demanda e desvalorização.
O trabalho na era da IA
No caso de Raquel, a automatização de tarefas para aumentar o volume de entregas foi um pedido da própria chefia. “Recebemos a ordem de criar ilustrações com IA”, relembra. No entanto, a profissional optou por manter a execução de algumas tarefas de forma artesanal. Para alcançar os novos resultados, enquanto outros colegas economizavam tempo utilizando a IA para boa parte das demandas, Raquel começou a ter de dobrar a jornada de trabalho para conseguir cumprir a meta da empresa.
Alguns meses após a mudança, a profissional foi demitida e decidiu começar atuar de forma autônoma como designer de estampas. Desde então, desenvolveu trabalhos autorais para marcas de roupas e sites, como a Shein.

Porém, não demorou para começar a notar que alguns clientes a procuravam com pedido de prazo de produção incompatível com o trabalho humano. “Faço rascunho, pesquisa, pintura e montagem de estampa. Muitos clientes não estão entendendo o tempo que esse processo leva”, conta, ao atribuir a distorção de tempo à IA.
Um trabalho categorizado como simples demanda um dia de trabalho, por exemplo. Se for mais complexo pode chegar a sete dias úteis. Hoje, o volume de pedidos diminuiu, revela a designer, que optou por não aceitar clientes que pedem projetos semelhantes ou iguais aos feitos por IA.
Para acompanhar as mudanças impostas pela tecnologia é preciso mudar a forma de entrega do serviço, sugere Georgia Reinés, cofundadora da Página 3, consultoria que ajuda líderes na tomada de decisões. Ainda que as marcas estejam cobrando uso da IA para otimizar as tarefas, ela defende que a criatividade exige tempo.
No mercado de design, por exemplo, os profissionais podem utilizar a ferramenta como desdobramentos de peças, mas sem ignorar a capacidade analítica, que deve exigir mais cobrança em menos tempo. “A IA vai entregar coisas medianas”, afirma.

Quem também percebeu redução nas demandas foi a ilustradora Thai Rodrigues, de 30 anos. Há nove anos no mercado, ela afirma que o avanço da inteligência artificial reduziu a procura, fez os preços despencarem e abriu brecha para o uso indevido de obras de artistas. Uma das principais fontes de receita de Thai é a produção de capas de livros e foi exatamente neste nicho onde notou maior redução no período em que as editoras fazem mais pedidos, principalmente de obras didáticas.
“Quando fomos conversar entre nós (profissionais da área do designer gráfico), vimos que várias editoras estavam usando imagens geradas por IA”, lamenta.

Assim como a designer Raquel Lucena, a ilustradora concorda que a relação com os clientes mudou. “As empresas tinham cuidado com o briefing, pesquisavam referências culturais. Hoje recebo textos feitos por chatbots, cheios de erros”, diz. O novo comportamento também impactou a forma de negociar o orçamento. Uma capa de livro feita por Thai custa entre R$ 1,5 mil e R$ 4 mil.
O valor cobrado era aceito sem questionamentos até pouco tempo atrás, ressalta a ilustradora. Agora, muitos clientes nem consideram pagar o mínimo. “As pessoas entendiam que era o nosso valor. Hoje tem até chantagem: ‘tem certeza que vai cobrar isso? Olha, temos outras formas de fazer essa arte também’”, diz, em referência ao uso de imagens geradas por IA no lugar de artes feitas por humanos.
Em média, a ilustradora leva de 20 a 30 dias para desenvolver uma capa de livro, desde a pesquisa e o esboço até a finalização e a parte burocrática, como emissão de nota fiscal e contrato. Apesar do desânimo, ela se ancora no repertório e conhecimento na área como diferencial para seguir relevante no mercado.
Entidade alerta uso indevido
A Associação dos Designers Gráficos do Brasil (ADG Brasil) decidiu vetar o uso de inteligência artificial na 14ª Bienal Brasileira de Design, no final de 2024. Na ocasião, a entidade argumentou que ainda não há regulação sobre a tecnologia e que permitir a participação seria legitimar uma ferramenta “obscura” e “precarizadora do trabalho”.
Em nota divulgada na época, a entidade defendeu que o debate sobre IA envolve questões sociais, políticas e econômicas. Procurada, a ADG informou que o posicionamento não mudou.
Não é a primeira vez que há um paradigma tecnológico no setor, avalia Thaïs de Araújo, designer gráfica e diretora da gestão atual da ADG Brasil. Embora reconheça que as ferramentas da IA podem automatizar tarefas simples do dia a dia, como gerenciamento de projetos, ela alerta que a criação de imagens e o trabalho artístico não podem ser substituídos.
“O design envolve uma gama enorme de escolhas, desde estudar o público até decidir a identidade visual de uma marca. Isso não é algo que uma máquina consiga reproduzir. É preciso bagagem cultural, técnica e um olhar humano”, explica.
A designer que ganha mais com a IA
Foi apostando em um modelo de boutique que a designer Manu Lamartine, de 34 anos, começou a usar recursos de IA de forma experimental para alavancar o estúdio que comanda, ao lado da sócia, desde 2022 em Natal (RN). Ela está entre os profissionais da área que não foram impactados negativamente pela tecnologia.
Com foco em identidade visual, branding, projetos editoriais e layouts para sites e materiais digitais, incorporaram Photoshop e ChatGPT para criar textos de exemplo, substituindo o tradicional “Lorem Ipsum” por conteúdos mais personalizados para a diagramação.

Com o tempo, a dupla começou a explorar ferramentas que permitem criar ilustrações para projetos, sempre sob curadoria humana, reforça a designer. Elas passaram a orientar os clientes a alimentar a IA com o material de branding estratégico criado para a ferramenta poder ser usada de forma consistente na comunicação da marca, a exemplo de legendas nas redes sociais ou peças.
Um exemplo recente do uso da IA no estúdio foi o desenvolvimento de identidade visual para uma startup de IA. O projeto combinou ilustrações geradas por IA com elementos gráficos criados manualmente, além de imagens direcionadas que ajudaram o fotógrafo a compreender o estilo da marca.

“Temos as ideias, mas precisamos de algo que dê celeridade ao processo. A IA faz um trabalho inicial, a partir daí refinamos e damos nossos inputs”, explica Manu.
IA vira disciplina obrigatória para estudantes de designer
Pensando nos profissionais que vão ingressar no mercado de trabalho com um jeito diferente de trabalhar, há universidades que atualizaram a grade curricular para se ajustar à nova realidade. A superintendente acadêmica do Centro Universitário Belas Artes, Josiane Tonelotto, conta que o estudo em IA começou a ser incorporado ao currículo da instituição há quase dois anos. O Belas Artes decidiu inserir uma disciplina optativa sobre inteligência artificial no 1º semestre de todos os cursos, incluindo Design Gráfico. A partir de 2026 a cadeira passa a ser obrigatória.
Segundo Josiane, o objetivo é formar profissionais flexíveis às novas ferramentas e críticos para conseguirem conviver com a IA sem necessariamente depender dela. “Nosso papel é mostrar que a IA veio para ficar e que o diferencial será saber integrá-la de forma inteligente e ética”, argumenta.
Um profissional da área que preferiu não revelar a identidade disse à reportagem que utiliza MidJourney e Photoshop com recursos de IA, além do ChatGPT para pesquisa e organização de ideias. Atualmente desempregado, diz ter sido surpreendido com a exigência de conhecimentos em IA em alguns processos seletivos que participou nos últimos meses. Desde o ano passado notou redução de trabalhos freelance de criação de posts para redes sociais e edições mais simples.








