‘Inflação global não foi definitivamente domada, ainda há trabalho a ser feito’, diz diretora do BC

Segundo Fernanda Guardado, que deixa o cargo em janeiro, Banco Central vê como muito importante o governo perseguir a meta de déficit fiscal zero

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Por Célia Froufe
Foto: TABA BENEDICTO/ ESTADÃO
Entrevista comFernanda GuardadoDiretora do Banco Central

BRASÍLIA - A menos de um mês para deixar o cargo, a diretora de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, Fernanda Guardado, disse em entrevista ao Estadão/Broadcast que sai feliz da instituição, ao enxergar que a desinflação segue seu caminho no País, apesar de enfatizar que foram muitos os momentos duros de decisão sobre política monetária.

A diretora admitiu ser conservadora e comentou que a questão fiscal segue na mira do BC, mas fez elogios à determinação da equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em relação à entrega da meta zero no ano que vem. “Aplaudimos essa determinação do ministro Haddad e da equipe econômica de perseguirem a meta de déficit zero”, destacou.

Sobre a economia global, a análise de Guardado é a de que ficou para trás o período extraordinário de juros baixos no mundo, e que a inflação no mundo ainda não foi definitivamente domada, incluindo os Estados Unidos. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Diretora do BC termina seu mandato em janeiro: "Saio bastante satisfeita" Foto: TABA BENEDICTO/ ESTADÃO

Estava se formando no mundo uma expectativa muito negativa para 2024, mas de uns dias para cá essa percepção virou. Como o BC está vendo essas mudanças no cenário externo?

A mudança na leitura tem mais a ver com uma esperança de que haja cortes nas taxas de juros americanas mais cedo do que se imaginava anteriormente. Mas veja que ainda é um ambiente em que a inflação não foi definitivamente domada, inclusive nos Estados Unidos. Ainda tem trabalho a ser feito. Tem uma discussão que entrou agora no banco de trás, mas que segue muito presente na cabeça dos BCs, que é a de quão permanente é esse nível mais alto de taxa de juros que nós estamos vendo agora. Os bancos centrais têm se desdobrado em reforçar que existem ainda desafios... Desafios do ponto de vista da convergência da inflação, de salários, de questões geopolíticas, discussões fiscais em diversos países do mundo, com destaque para os EUA. Como todas essas questões potencialmente estruturais afetam a taxa neutra de juros?

Nós deixamos para trás um período extraordinário pós-grande crise financeira. Aquilo foi um período de taxa de juros excessivamente baixas, quantitative easing... um período em que mesmo cenários de déficits fiscais elevados nos EUA eram facilmente financiados. Os déficits fiscais americanos podiam ser altos, mas, quando o seu juro é zero, é muito fácil financiar essa dívida. Essa figura muda um pouco quando se tem dívida/PIB mais perto de 100% e isso pode ter complicações sobre a taxa neutra. Quando se está em um ambiente de taxa de juros positiva, isso cria um cenário mais desafiador. Essas questões podem não estar sendo tão importantes nesse momento, mas têm permeado esse caminho que percorremos ao longo de 2023. A pergunta é: a gente voltou para o velho normal, de ter taxas longas que são mais altas?

E têm aparecido muitas surpresas de dados, como a resiliência do mercado de trabalho nos EUA. Trazendo para o Brasil, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tem comentado que as projeções para o PIB - tanto do mercado quanto do governo - têm sido menores do que os dados efetivos. Alguns apontam que isso é fruto das reformas recentes que ainda não estão capturadas nos modelos. Como a sra, vê esse novo cenário da estrutura economia doméstica?

Parte dos erros dos modelos se justifica pelo tipo de choques que o Brasil viveu de 2020 a 2022, mas a economia global também viveu. Era difícil antecipar como ia ser a resposta, por exemplo, de consumidores que estavam em lockdown diante de toda a expansão monetária e fiscal que foi feita. Os modelos erraram porque refletem padrões históricos e tivemos acontecimentos extraordinários. Os próprios gargalos logísticos foram um reflexo de um momento de demanda muito surpreendente, em boa parte. À medida que a gente avança de 2023 para 2024, a economia global e a brasileira estão mais perto do que a gente consideraria a normalidade. A normalidade na resposta da política monetária, que tem subido em boa parte do mundo. Se observa uma moderação de crescimento em diversas economias. Acho que os modelos tendem a acertar mais daqui para a frente. De fato, 2023 vai ser o terceiro ano consecutivo de revisão substancial no crescimento brasileiro e eu pessoalmente acho que tem uma parte de ganho advindo das reformas que contribui para isso. Infelizmente, é muito difícil colocar um número (no modelo). Precisamos de mais tempo para conseguir entender, para fazer exercícios econométricos do antes e do depois. E pense: muitas dessas reformas se depararam com uma pandemia em 2020. Isso denota a importância de seguirmos no caminho das reformas, porque aumentam a produtividade e ajudam no crescimento potencial do País.

Esses dados são insumos para o Comitê de Política Monetária (Copom), mas a área fiscal voltou a ganhar relevância para o colegiado, depois do ruído causado pela fala do presidente Lula contra a meta de déficit zero. A sra. vê a possibilidade de a equipe econômica conseguir os recursos para equalizar a questão fiscal?

O Banco Central vê como muito importante esse compromisso com a meta zero e persistir no caminho para tentar atingi-la. O Banco Central não faz análises ou julgamentos “ex ante” sobre a política fiscal, ela serve como mais um insumo para as projeções que fazemos de inflação. O que percebemos é que pode haver algum componente da desconfiança com o atingimento das metas influenciando as expectativas de inflação longas, e isso acaba impactando as nossas próprias projeções de inflação. Aplaudimos essa determinação do ministro Haddad e da equipe econômica de perseguirem a meta de déficit zero. Acho que estão bastante determinados a seguir com a pauta que foi colocada no Congresso, mas é uma decisão política que cabe ao Congresso.

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Semana que vem haverá reunião do Copom, e há um consenso no mercado, após a sinalização do BC, para um novo corte de 0,5 ponto porcentual na Selic. Este será seu último Copom, e a senhora foi vista em sua trajetória como uma diretora mais dura, mais hawkish...

Conservadora…

Ok, conservadora. Qual o balanço dessa sua passagem pelo BC?

Esse período na diretoria colegiada foi bastante... eu não vou dizer feliz, porque feliz vai ficar parecendo que foi fácil... Eu vejo esse meu período no BC como uma grande oportunidade de poder contribuir com o Brasil, com o Banco Central, de fazer política monetária num momento que foi chave e que foi muito difícil também. Foi um momento cercado de muita incerteza e tivemos de nos deparar com choques de diversos tipos ao longo do caminho, mas foi também extremamente satisfatório. Conheci pessoas incríveis, entre os meus colegas de diretoria passados e presentes. Carrego comigo aprendizados inestimáveis e talvez eu tenha um perfil um pouco mais conservador, mas eu também sou diretora de riscos corporativos. Eu tento olhar para os riscos e respeitá-los, ter uma gestão que leva em consideração o risco e o retorno das nossas decisões olhando para o futuro e em um período que foi cercado de incertezas e riscos que eram bastante relevantes.

Sai satisfeita, então?

Saio bastante satisfeita, bastante feliz e mais feliz ainda por ver que a desinflação está seguindo da maneira que esperávamos.

Houve rumores de que a sra. teria pedido para permanecer por mais um mandato. Isso aconteceu?

Eu não pedi para ser reconduzida, ao contrário do que dizem os rumores. Eu já tinha esse plano de terminar este ciclo, até por questões familiares. O que cheguei a comentar seria ficar até o G20 de fevereiro (quando está marcada a reunião ministerial financeira) para poder ajudar a equipe do BC, mas tenho a certeza que o diretor Paulo (Picchetti), que vai me substituir aqui no BC, vai poder fazer esse trabalho com brilhantismo. Estarei sempre disponível para ajudar a equipe do BC no que precisarem, mesmo fora da instituição.

Falando em G20, no último dia 1º, o Brasil passou a presidir o órgão. Como o País deve se preparar para ser essa vitrine internacional?

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É uma grande oportunidade para o Brasil, porque o País tem um peso maior para delinear a agenda de discussões de agora até novembro de 2024. Nós colocamos uma série de prioridades que consideramos importantes do que seja discutido, ou temas que precisam avançar dentro da arquitetura financeira global, dentro do uso de recursos para a sustentabilidade. Pedimos às organizações internacionais que tragam relatórios e estudos referentes a essas prioridades.

A sra. tem exemplos?

Temos algumas prioridades dentro do grupo de Finanças Sustentáveis, como a otimização do uso dos fundos climáticos e ambientais: como podemos usar essa massa de recursos, e não só melhorar a interlocução entre eles, mas também o uso desses fundos para os objetivos de descarbonização que o mundo tem. Em outro, vamos trabalhar bem próximos do BIS (Banco de Compensações Internacionais, na sigla em inglês) e do FSB (Conselho de Estabilidade Financeira). Pedimos um estudo para tentar entender como as instituições regulatórias estão olhando para os riscos de biodiversidade. Não trazer recomendações, mas um levantamento daqueles que se preocupam com riscos relacionados à biodiversidade - como é o caso do BC. Pode ficar como um legado para outros reguladores no mundo. Vamos seguir também a implementação do roadmap de criptoativos, que já avançou na presidência indiana, e vamos ter um olhar bastante atento para a questão de pagamentos transfronteiriços. Tentar avançar em arcabouços para que o mundo possa caminhar melhor no sentido de ter esses pagamentos.

Isso é a CBDC (a moeda digital do Banco Central)?

Uma das possibilidades é a CBDC como uma camada de liquidação. Por exemplo: uma dessas encomendas que estamos fazendo é uma análise da crescente tendência de tokenização e DeFi (serviços e produtos financeiros que rodam em blockchain), só que usando diferentes formas de liquidação, e a CBDC é uma delas.

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É importante que haja uma referência para todo o mundo ou os países podem seguir caminhos diferentes?

Boa parte do que sai do BIS e do FSB é recomendação - não imposição -, respeitando as diferenças de regulação e de arranjos regulatórios. Vamos propor também uma análise dos fatores que influenciam o fluxo de capitais para países emergentes: quais são as barreiras, as oportunidades? Porque eles podem se beneficiar, por exemplo, da entrada, mas a depender do perfil desses investimentos também podem sair rapidamente. Vamos fazer um estudo mais geral de uma agenda que é tocada aqui pelo Banco Central em que estamos propondo que o G20 estude e tente entender melhor a qualidade da educação financeira dos consumidores, tentar estudar métricas que definam essa qualidade.

E sobre o seu futuro? Alguma ideia?

Ainda não parei para pensar, não tive tempo, mas vou tirar umas férias e pensar se volto a dar aulas. Vou deixar para resolver minha vida futura durante a quarentena.

Há algum ponto que não tenha conseguido avançar durante seu mandato ou uma recomendação para o diretor que será seu sucessor?

Já conversei com o Paulo, temos conversado. O grande desafio é levarmos a cabo o G20 e fazer com que seja um sucesso. Já vai ser uma tarefa bastante grande para o Paulo. Desejo a ele sucesso. O G20 é um grande desafio logístico e de recursos, o BC tem recursos limitados e os nossos funcionários estão se dedicando imensamente. É importante relembrar a necessidade de uma pauta de valorização da carreira do BC, porque são pessoas de uma qualidade incrível e que estão se desdobrando para fazer um G20 que o mundo todo possa admirar.

Porta-vozes do BC têm vindo a público defender os servidores. Há o temor de o BC perder qualidade ao perder funcionários para o setor privado ou outras carreiras públicas?

Esse risco sempre existe. Agora, ele certamente aumenta quando se está em um ambiente de certo desânimo, um sentimento de desprestígio em relação a outras carreiras. A gente precisa olhar com carinho para o corpo funcional do BC exatamente para poder limitar esse risco. O projeto do senador Vanderlan (Cardoso, PSD-GO) é super importante, porque traz autonomia administrativa e financeira. Seria uma maneira de completar a autonomia que o Congresso nos garantiu em 2021 e nos alinharia com outros bancos centrais da América Latina. Esta é mais uma dimensão que nós precisamos avançar para garantir que o Banco Central mantenha a sua qualidade ao longo dos próximos anos.

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