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Economia e políticas públicas

Opinião|A economia e a política na explosão da dívida dos EUA

Projeção do Congresso aponta que dívida pública americana vai atingir 172% do PIB em 2054. Na verdade, já existe detalhado diagnóstico sobre o problema, mas pandemia e polarização política puseram preocupação com contas públicas em segundo plano.

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Segundo as últimas projeções da Secretaria de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, a dívida pública norte-americana vai atingir 172% do PIB em 2054. É um número impressionante, mas o economista Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central, explica que as projeções do CBO são um "exercício contábil", no qual a piora do endividamento não afeta a economia e a política.

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No mundo real, essas dimensões estão todas interligadas, o que leva Volpon a ponderar que é bastante possível que tal deterioração da relação dívida/PIB acarrete, como no passado, mudanças de política econômica ou formas mais desagradáveis de corrigir o problema, como alta inflação.

No momento, porém, segundo o economista, os dois principais partidos políticos dos Estados Unidos não parecem estar dando muita bola para a explosão do endividamento. A economia está indo bem no que alguns consideram como um já conquistado pouso suave, com bom crescimento, baixo desemprego e inflação aparentemente caminhando para a meta. Não é o momento de esquentar a cabeça com preocupação fiscal, ainda mais com os dois candidatos caminhando para uma eleição presidencial este ano que tem tudo para ser uma das mais encarniçadas de que se tem notícia.

Recente artigo dos economistas Daniel Wilson e Brigid Meisenbacher, do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) de São Francisco, aponta que a última vez em que a relação dívida/PIB dos Estados Unidos chegou ao nível atual, levemente abaixo de 100% (no conceito do CBO), foi em 1945-46, o imediato pós-guerra. A diferença é que, nos 30 anos após a segunda guerra, a relação dívida/PIB americana recuou fortemente para 25% em 1975, enquanto hoje a projeção do CBO são de 30 anos de crescimento até chegar aos 172% do PIB.

Esses números de dívida correspondem à "dívida federal em poder do público" e excluem títulos do Tesouro encarteirados pelo próprio governo. A dívida total, incluindo esses últimos títulos, foi de 123% do PIB em 2023.

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Wilson e Meisenbacher apontam que o declínio da relação dívida/PIB no pós-guerra deveu-se a uma combinação crescimento econômico rápido e eliminação do déficit primário - e nenhuma dessas duas cartas está presente nas perspectivas atuais.

Volpon, por sua vez, lembra que houve forte piora fiscal nos Estados Unidos no início do governo de Ronald Reagan, mas seguida por medidas mitigadoras tanto no governo de George Bush, pelo lado da receita, quanto no de Bill Clinton, pelo lado da despesa. No final dos anos 90, chegou-se a um período de superávit primário robusto.

Pós 11 de setembro (de 2021), a política fiscal oscilou, mas o desequilíbrio atual foi contratado mesmo, na visão do economista, na pandemia, quando enormes impulsos fiscais de apoio a empresas e famílias (e agora em política industrial) foram decididos sem se preocupar em neutralizá-los via aumento de impostos ou corte de outros gastos. Ou seja, o aumento de dívida bancou diretamente a gastança.

Volpon considera que uma eventual situação futura de recessão com juros altos - com o mercado recalcitrante em relação à absorção maciça de títulos do governo americano, ainda dolorido com as perdas em papéis de renda fixa com a alta de juro pós-pandemia, após período de juros baixíssimos, de quase zero - poderia talvez mudar o jogo político-fiscal nos Estados Unidos. Talvez, por necessidade econômica imperiosa, responsabilidade fiscal e orçamentos equilibrados voltassem à moda.

Mariam Dayoub, economista sênior da gestora Julius Baer Family Office (JBFO), aponta que o esforço fiscal para corrigir a trajetória da relação dívida/PIB norte-americana não é sobre-humano em termos puramente econômicos. Seria preciso levar o resultado primário, que em 2023 registrou déficit de 3,8% do PIB, para algo como 1,3%, e essa mudança não teria que ser feita de supetão.

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Tanto pelo lado da receita como da despesa já há diagnóstico. No primeiro caso, caberia uma agenda meio ao estilo de Haddad no Brasil, de reonerar e fechar brechas fiscais das empresas. Já na despesa, com o envelhecimento da população, não há muito como escapar de revisões na Previdência e no Medicare, programa de saúde voltado a idosos (o altíssimo custo da saúde nos Estados Unidos, comparativamente ao de outros países da OCDE, é uma dificuldade à parte).

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O problema, aponta Dayoub, está na política, com a sociedade e o sistema político muito polarizados e mais preocupados com outros assuntos fora da esfera econômica (imigração, crime etc.), como mostram pesquisas de opinião. No passado, ela diz, em momentos de reformas fiscais, a opinião pública mostrava-se mais ligada no problema orçamentário.

Já Bráulio Borges, economista da consultoria LCA e do FGV-IBRE, nota que as projeções do CBO apontando uma trajetória explosiva da dívida pública norte-americana não são algo novo, já ocorrendo há pelo menos dez anos.         A tendência resulta do já citado efeito do envelhecimento nas despesas de saúde e aposentadoria, combinado com uma significativa resistência a elevar a carga tributária na sociedade dos Estados Unidos.

Ele nota ainda que, inclusive por questões demográficas, o crescimento potencial tende a se reduzir no longo prazo. Isso coloca em xeque a situação benfazeja, aproveitada por muitas décadas pelo mundo rico, de "r-g" negativo, isto é, o custo de rolar a dívida era menor do que o crescimento do PIB. Borges inclusive pensa que o CBO "força a barra" nesse quesito, trabalhando nas suas projeções com um juro real neutro americano de 2%, enquanto estimativas de mercado põem a variável no intervalo de 0,5-1%. A hipótese de crescimento potencial de longo prazo dos Estados Unidos nas projeções do CBO é de 1,5%.

Borges menciona também que a demanda por ativos livres de risco no mundo (como os títulos do Tesouro americano) tende a aumentar com o envelhecimento demográfico global, que leva ao aumento da taxa de poupança agregada, seja pública ou privada.

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Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/2/2024, terça-feira.

Opinião por Fernando Dantas
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