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Economia e políticas públicas

Opinião|A estranha aposta de Ciro Gomes

É difícil entender aonde o candidato pedetista quer chegar na atual campanha, não por causa do combate ao voto útil e das críticas a Lula, mas sim por forma, tom, grau e timing desses ataques.

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Atualização:

Não é fácil entender aonde Ciro quer chegar politicamente com a atual estratégia da sua candidatura.

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A questão intrigante, evidentemente, não é a de por que ele se defende contra a campanha pelo voto útil por parte de Lula e seus defensores. Simone Tebet faz o mesmo, e é inteiramente natural e esperável que candidatos praticamente sem chances no primeiro turno tentem manter seus votos, que são parte importante do capital político para voos futuros.

O que causa estranheza é a extrema virulência de Ciro contra Lula que, bem ou mal, está no campo político - a esquerda - no qual o cearense, ex-tucano centrista, resolveu reconstruir sua identidade política a partir de certo ponto da carreira.

Quem acompanha este espaço sabe que está longe de o colunista considerar que Lula está acima de críticas. Apesar de suas condenações terem caído na Justiça por irregularidades nos processos, não faltam indícios e evidências (inclusive dinheiro devolvido ao Estado por corruptos) de corrupção no governo de Lula.

Em termos econômicos, o ex-presidente implementou a virada heterodoxa da política econômica, que desaguou nos grandes erros da nova matriz econômica.

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O problema de Ciro, porém, é a forma, o tom, o grau e o timing da sua campanha de ataques a Lula.

Quanto à corrupção, é bem sabido que ela permeia todo o sistema político brasileiro, incluindo incontáveis aliados de Ciro ao longo de sua longa carreira política. Mas o candidato pedetista adotou um tom - semelhante ao da direita bolsonarista - em que derrotar Lula e o PT parece ser quase o cerne do combate à corrupção no Brasil. Como se o problema fosse bem mais fácil de resolver no restante do sistema político.

Já a crítica econômica desta coluna a Lula é exatamente o contrário do que Ciro pensa e defende. O pedetista já deixou claro que quer acabar com o sistema de metas de inflação tal como ele funciona atualmente; que os juros da dívida pública, tal como são determinados e pagos hoje em dia, são um dos males a serem combatidos no País; e que é preciso retomar um Estado nacional-desenvolvimentista com política industrial pesada.

Simplificando, Ciro defende várias das principais facetas da nova matriz econômica.

Aliás, uma das frentes da metralhadora cirista contra Lula é que o candidato petista faz acenos ao centro em termos de política econômica. Ciro considera, por exemplo, absurdo que Lula não diga, como ele, que é prioridade se livrar da atual diretoria do Banco Central.

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A lacuna lógica de Ciro na questão econômica, no contexto da atual eleição, pode ser resumida de forma simples.

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Ok, Lula, ainda que tenha vários conselheiros de visão heterodoxa - com intepretação muito mais matizada dos resultados da política econômica dos governos petistas do que os liberais-ortodoxos -, está dando sinais de que não vai abraçar de corpo e alma o ideário nacional-desenvolvimentista ao estilo varguista e geiselista que Ciro defende.

Mas o que dizer de Bolsonaro, cujo ministro da Economia é o superliberal Paulo Guedes, que gostaria - caso tivesse competência e poder para isso - de privatizar quase todas as estatais e imprimir uma política econômica bem mais liberalizante do que a atual?

Quem está mais distante do modelo defendido por Ciro?

No mundo da política, compromissos são ao menos tão importantes quanto princípios. O pedetista está diante de dois candidatos protagonistas igualmente enlameados por denúncias de corrupção, mas um deles, Lula, está bem menos distante das ideias ciristas em termos de economia e também - ao menos se pensarmos no Ciro que conhecíamos até poucos meses atrás - de política social, valores, costumes etc.

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Uma coisa, compreensível e costumeira, é um candidato sem chances não admitir esse fato publicamente. Outra é não construir caminhos sensatos no caso da provável derrota.

A lógica política indicaria, mesmo com um crivo ético rigoroso, que Ciro deveria estar se preparando para dar um apoio crítico a Lula no segundo turno.

Não haveria nada de politicamente pecaminoso em apoiar o petista contra Bolsonaro no segundo turno, mesmo cobrando de Lula autocrítica e mudança de comportamento em termos de corrupção, e tentando influenciar o candidato do PT a dar mais espaço aos heterodoxos e intervencionistas na política econômica - estes, aliás, ficariam gratos.

Que fique claro que a coluna considera desastroso esse caminho de volta a algo parecido à nova matriz econômica. Porém, numa democracia os atores políticos têm o direito de propor o que veem como mais acertado (e que não necessariamente vai coincidir com a visão do colunista).

No entanto, apesar de a lógica política, sem ferir a ética, indicar que Ciro deveria - de forma sutil, claro - estar pavimentando alguma saída na direção de um apoio, ainda que crítico, a Lula no segundo turno, o pedetista dedica-se com furor crescente a explodir todas as pontes.

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É claro que o candidato do PDT sempre terá a opção de dar um cavalo de pau pró-Lula no segundo turno, de dizer que os ataques foram de mentirinha, mas aí a questão seria sobre o ganho de Ciro ao desmoralizar de forma tão grotesca a sua pregação política.

Uma possível explicação para o comportamento do pedetista seria a ambição quixotesca de liderar a oposição a Lula em caso de fracasso do eventual retorno do petista ao poder. Nesse caso, Ciro usaria uma combinação ideológica meio esdrúxula de críticas econômicas pela esquerda e ataques pela direita em alguns temas de valores e costumes.

Parece mais uma egotrip megalomaníaca do que um projeto político respeitável.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/9/2022, quinta-feira.

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Opinião por Fernando Dantas
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