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Economia e políticas públicas

Opinião|Brasil, China e estatísticas

Pochmann, presidente do IBGE, menciona China como exemplo positivo de estatísticas nacionais. É verdade que o país asiático melhorou nesse quesito nos últimos 20 anos, mas estatísticas nacionais do Brasil ainda são bem melhores.

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Foram recebidas com desconfiança declarações recentes de Marcio Pochmann, presidente do IBGE, em que a China é citada como um exemplo positivo de estatísticas nacionais, comparada a países do Ocidente.

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Quando assumiu em agosto, por nomeação de Lula, a chefia do órgão oficial de estatística brasileiro, Pochmann sofreu muitas críticas pelos que o veem como um militante com forte viés ideológico, o que não caberia a um cargo técnico como a presidência do IBGE.

Chegou-se a falar em temor de manipulação de dados, mas sem qualquer base factual, o que provocou uma reação legítima dos admiradores de Pochmann, de que o economista estava sendo crucificado injustamente.

Nesse sentido, não ajudam muito os comentários algo "viajantes" do presidente do IBGE sobre mudanças do "centro dinâmico" do mundo entre o pré-1500 e a atualidade e a relação que isso possa ter com o segmento das estatísticas nacionais. E também é complicado mencionar a China como parâmetro de práticas estatísticas quando se sabe que o país interrompeu em agosto, sem nenhuma explicação, a divulgação da série de desemprego entre os jovens, depois que os últimos dados divulgados (relativos a maio) apontaram a taxa recorde de 20,8%.

Mas qual o nível real de qualidade das estatísticas nacionais chinesas? Há algumas décadas nutre-se uma suspeição em relação a possíveis limitações técnicas, ou manipulação, ou uma combinação dos dois. O economista Livio Ribeiro, da consultoria BRCG e do IBRE-FGV, especialista em China, considera que existe um excesso de má vontade em relação às estatísticas chinesas.

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Ele não nega que haja problemas, como a mencionada interrupção abrupta e inexplicada da divulgação da taxa de desemprego dos jovens, ou o nível estranhamente baixo de sazonalidade na série do PIB (mas após a pandemia a volatilidade da atividade econômica chinesa nas estatísticas nacionais aumentou para um nível mais verossímil).

Dito isso, Ribeiro aponta que houve uma evolução muito forte das estatísticas nacionais chinesas nos últimos 15 a 20 anos. Desde 1992, o Sistema de Contas Nacionais, SNA na sigla em inglês - o padrão internacional de Contas Nacionais da Comissão de Estatística das Nações Unidas -, substituiu totalmente o "Sistema do Produto Nacional", a metodologia própria anteriormente empregada pela China. Ribeiro acrescenta que a China participa de uma missão contínua de aprimoramento estatístico junto ao FMI.

Segundo o especialista, nos rankings globais de qualidade de estatísticas nacionais, elaborados por instituições multilaterais, a China teve grandes avanços de posição nas últimas duas décadas.

"Hoje a China está na ponta de cima de qualidade de estatísticas nacionais comparadas a seus pares, isto é, outros países emergentes, enquanto há 15 ou 20 anos ela estava na ponta de baixo", ele diz.

No "Indicador de Performance Estatística", do Banco Mundial, a China saiu de 53,6 em 2016 para 58,2 em 2019 (último dado, não há o indicador para o período anterior a 2016). Como parâmetro de nota dos países no topo da qualidade, a Noruega registrou 90,1 em 2019.

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Mas a segunda parte da história, continua Ribeiro, é que, apesar dos avanços, a qualidade das estatísticas nacionais da China ainda é claramente inferior a de alguns outros emergentes (e participantes dos BRICS), como Brasil e África do Sul. A nota do Brasil no indicador do Banco Mundial em 2019 era de 76,8, muito superior à chinesa.

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Dessa forma, se não é verdade que as estatísticas oficiais chinesas são totalmente não confiáveis, como alegam alguns críticos mais ferrenhos do país asiático, tampouco se pode dizer que o Brasil deva olhar para a China como exemplo de boas práticas nessa área.

O desempenho econômico da China nas últimas quatro décadas foi incomparavelmente superior ao brasileiro, suscitando muitas discussões legítimas sobre aspectos do modelo chinês que o Brasil poderia (ou não poderia) adotar. Alguns aspectos que regularmente vêm à tona são política industrial e qualidade da educação básica. São possíveis aprendizados para os quais vale a pena prestar atenção. Mas sistema nacional de estatísticas definitivamente não é uma área em que a China tenha lições relevantes para dar ao Brasil.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/11/2023, sexta-feira.

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Opinião por Fernando Dantas
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