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Economia e políticas públicas

Opinião|O PIB e os recursos naturais

Resultados do PIB do terceiro trimestre reafirmam protagonismo de renda derivada de recursos naturais, que impulsionou economia brasileira nos últimos anos. Mas Bráulio Borges, do IBRE e LCA, que detalhou o fenômeno, acha que o vento pode virar em 2024.

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Atualização:

Os resultados do PIB do terceiro trimestre divulgados em 5/12 repetem um fator que, de acordo com análise divulgada ontem pela consultoria LCA, contribuiu para que a recuperação da recessão da pandemia, em 2020, fosse muito mais rápida do que a observada após a crise 2014-16 e mais próxima da mediana das recessões desde 1980. Esse fator, que vem sendo ressaltado pelo economista Bráulio Borges, da LCA e do IBRE-FGV, é a exploração de recursos naturais renováveis e não renováveis.

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Junto com o conjunto de estímulos monetários, fiscais e parafiscais a partir da pandemia, a renda das commodities tem sido um dos motores da economia brasileira.

Pelos números da LCA, a renda gerada pelo setor agropecuário brasileiro atingiu R$ 676 bilhões nos quatro trimestres até o terceiro de 2023, a preços do 3º tri/2023.

Nessa mesma base de preços, é o nível mais alto desde pelos menos o quarto trimestre de 1996 (quando se iniciam os números disponibilizados pela consultoria; todos os números a seguir são acumulados em quatro trimestres), com exceção do segundo trimestre de 2021, quando atingiu R$ 683,9 bilhões. Segundo Borges, a variável é o valor agropecuário adicionado a preços básicos, deflacionado pelo deflator total do PIB.

Já a renda gerada pelo setor extrativo mineral no terceiro trimestre de 2023 (quatro trimestres acumulados), sempre a preços do próprio 3º tri/2023, foi de R$ 403,5 bilhões, uma queda em relação aos R$ 442,9 bilhões do segundo trimestre; e ante o pico de R$ 503,3 bilhões no segundo trimestre de 2022. No caso, trata-se do valor adicionado a preços básicos do setor extrativo-mineral, deflacionado pelo deflator total do PIB.

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Somando-se o agro à extrativa, tem-se o que a LCA chama de "renda gerada pelos setores ligados a recursos naturais (renováveis e não renováveis)". No segundo trimestre deste ano, chegou-se a R$ 1,08 trilhão, com recuo ante o R$ 1,11 trilhão do segundo trimestre de 2023 e ante o pico de R$ 1,13 trilhão do primeiro trimestre deste ano.

O que chama atenção nos números da LCA é que, mesmo com algum recuo da renda gerada pelo setor extrativo-mineral (refletindo-se na renda total ligada a recursos naturais), o Brasil se mantém para padrões históricos num patamar muito elevado nessa fonte de renda.

No caso da renda agropecuária, a partir de um nível oscilando em torno de R$ 400-450 bilhões por ano entre 2013 e 2020, houve uma aceleração muito forte ao longo dos três últimos anos, para mais de R$ 650 bilhões.

Já no caso da renda do setor extrativo-mineral, vê-se um progressivo aumento desde 1996, saindo de menos de R$ 50 bilhões para um pico de R$ 401,7 bilhões no terceiro trimestre de 2012.

Como qualquer um que tenha acompanhado a história econômica recente do Brasil sabe, foi exatamente naquele momento que a "mágica" da bonança econômica engendrada pelo governo Lula - e ainda desfrutada no início do primeiro mandato de Dilma - começa a desandar, com o fim do grande boom de commodities. A renda extrativa cai até um mínimo recente de R$ 85,2 bilhões no quarto trimestre de 2016. Mas, a partir daí, ela volta a subir até o píncaro de R$ 1,13 trilhão no primeiro trimestre de 2023. Dessa forma, mesmo tendo caído, a renda extrativa-mineral do terceiro trimestre ainda está bem acima dos níveis máximos do boom do início do século.

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Em recente Carta do IBRE (julho/2023), documento mensal de análise econômica redigido por Luiz Guilherme Schymura, diretor do think-tank, com base em pesquisas de seus colegas, é apresentado um exercício econométrico contrafactual de Borges, abordando justamente o tema desta coluna.

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Segundo o economista da LCA, o "choque favorável de renda de commodities em 2020-22, nos setores agropecuário e extrativo, elevou o  PIB brasileiro em cerca de 8% ao longo desse período". Para ele, esse fator ajuda a explicar as recentes surpresas positiva do PIB (Borges é cético quanto à ideia de que reformas microeconômicas desde o governo Temer possam ter acelerado os ganhos de produtividade).

Mas o analista prevê que esse efeito vai ser reverter em 2024, levando em conta a desaceleração dos setores de recursos naturais e movimentos de preços menos favoráveis. Para Borges, esse pode ser um choque negativo na economia que justificaria um ciclo de afrouxamento monetário mais rápido, mas ele tem dúvidas se essa "ficha" já caiu de forma clara para o mercado e o Banco Central.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/12/2023, quarta-feira.

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Opinião por Fernando Dantas
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