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Economia e políticas públicas

Opinião|O teste de meio de mandato do Lula 3

Será que em num ambiente de economia mais fraca e contestação política virulenta pela direita e extrema-direita (cuja resiliência é demonstrada pela vitória de Milei na Argentina) Lula manterá a difícil sintonia fina entre racionalidade econômica e sensibilidade política?

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Atualização:

Com a desaceleração já contratada para a economia brasileira, o governo Lula entra em uma nova fase de testes. Qual será a reação do presidente a tempos mais adversos, que certamente terão algum impacto na trajetória da sua popularidade?

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Nesse contexto, a vitória, por maioria mais expressiva do que antecipado, de Javier Milei na Argentina acrescenta sombras ao cenário político-econômico que Lula enfrentará daqui para a frente. Fica claro que a vitória apertada de Lula sobre Bolsonaro no ano passado foi um evento mais ocasional do que tendencial, e que a onda de populismo de extrema-direita que assola a América Latina e outras regiões do mundo está longe de esgotada.

Uma das características da extrema-direita é a de lidar com a esquerda como com um inimigo mortal, atacando-a incessantemente com uma retórica feroz (enormemente potencializada pelo uso astuto das redes sociais), na qual críticas cabíveis se misturam, de forma indistinguível ao olho não treinado, a fake news e difamações, num rolo compressor muito difícil de neutralizar.

Em contraste, o embate bem mais civilizado com a centro-direita na América Latina sempre permitiu à esquerda incorporar doses variáveis de populismo que formatavam a disputa como uma competição entre a elite e os ricos, de um lado, e as massas populares e os pobres, do outro. Essa estratégia eleitoral vencedora, muito utilizada pelo PT desde a redemocratização, é posta em xeque pela virulência populista e contagiosa da extrema-direita.

É nesse caldo político explosivo e volátil, portanto, que Lula se encaminha para a parte do meio do seu mandato: cerca de dois anos durante os quais a sintonia fina entre medidas econômicas duras porém necessárias e gestão política e da popularidade presidencial que evite mergulhos sem retorno exige do governo o máximo de competência, tanto econômica quanto política.

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O último ano de mandato, como se sabe, é para os políticos um momento muito mais de colheita do que de plantio. Nessa hora, o que vale é economia crescendo e popularidade em alta, sendo provável que pelos menos algumas "bondades" de custo benefício duvidoso sejam implantadas para aumentar as chances do incumbente (tanto no caso de recandidatura como no de apoio a algum outro candidato).

Porém, para que se chegue ao ano eleitoral em condições de ter esse mix de economia forte, popularidade alta e espaço fiscal para bondades, o plantio do meio de mandato é fundamental. Nessa fase intermediária, a sintonia fina entre racionalidade econômica e sensibilidade política é fundamental.

Em instigante artigo publicado em 21/11 no Blog do IBRE, os economistas Alexandre Manoel e Lucas Barbosa, da gestora AZ Quest, argumentam que Lula e seu governo estão no caminho de fazer as escolhas certas dentro da sintonia fina mencionada acima. Não é, evidentemente, o que pensa boa parte dos colegas de mercado de Manoel e Barbosa.

De forma sintética, os dois argumentam que a virada à direita do Congresso e do ambiente político brasileiro de forma geral, junto com a transferência de poder orçamentário do Executivo para o Legislativo, está levando Lula, um político pragmático, a fazer um governo de continuidade tanto macro como microeconomicamente.

Continuidade, é bom explicar, em relação à tendência geral dos governos desde a redemocratização, que caminharam, com mais ou menos convicção, e mais ou menos desvios ocasionais, numa direção de moderado liberalismo e fortalecimento do arcabouço da economia de mercado. A grande exceção, de consequência desastrosa, segundo os dois economistas, foi o governo de Dilma Rousseff (com a possível inclusão de parte do segundo mandato de Lula), quando o apogeu de aprovação à esquerda expresso pelo eleitorado levou a uma política econômica muito mais intervencionista e que desmontou o superávit primário.

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O título do artigo de Manoel e Barbosa deixa claro o que pensam sobre o Lula 3: "Por que a previsão de que o novo governo seria igual a Lula 2 ou Dilma se provou errada?"

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Os dois analistas apontam ruídos que levaram os mercados a vaticinar - erroneamente, na opinião deles - caminhos bem piores para o Lula 3, como a gastança embutida na PEC da Transição e a comunicação presidencial muito mais focada no público de esquerda do que no conjunto do eleitorado.

Na prática, porém, medidas de consolidação e continuidade foram tomadas, como o arcabouço fiscal que ancorou o crescimento da despesa em nível bem inferior ao de boa parte da fase pós redemocratização, medidas de aumento de receita que legitimamente corrigem distorções, reforma tributária, manutenção e aperfeiçoamento da meta de inflação, além da nomeação de bons quadros para o BC.

Na agenda micro, eles apontam continuidade em setores como apostas esportivas, gás natural e ferrovias, com algumas tentativas de retrocessos (como a mudança da regra para o expediente no setor de comércio aos domingos e feriados) tendendo a ser barradas pelo Congresso com maioria de direita.

O argumento de Manoel e Barbosa é muito persuasivo, mas a coluna continua considerando que a pergunta feita no início deste artigo ainda permanece em aberto: Lula manterá o bom senso na política econômica se as condições da economia, da política e da popularidade se tornarem bem mais adversas do que aquelas com as quais ele lidou neste primeiro ano do seu mandato?

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Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/11/2023, terça-feira.

Opinião por Fernando Dantas
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