Governos não estão fazendo o suficiente e a COP não mudará isso, diz fundador do Pacto Global da ONU

Georg Kell afirma que não tem perspectivas tão positivas para essa COP, considerando o que tem sido feito efetivamente até agora

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Por Beatriz Capirazi
Atualização:
Foto: Divulgação/COP
Entrevista comGeorg Kellfundador do Pacto Global das Nações Unidas (ONU)

Governos e iniciativa privada veem na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-28), realizada de 30 de novembro a 12 de dezembro em Dubai, nos Emirados Árabes, uma oportunidade de avançar na discussão sobre as soluções de transição para uma economia de baixo carbono. Mas, para que mudanças efetivas ocorram, os líderes globais precisam agir e adotar medidas práticas. Essa é a conclusão do fundador do Pacto Global das Nações Unidas (ONU), Georg Kell.

O executivo, que atualmente é presidente da gestora de ativos anglo-alemã Arabesque Partners e esteve no Brasil recentemente para participar de um evento promovido pela startup Oxygea, destaca que a mobilização dos Estados Unidos e da China em colaborar com metas mais agressivas nas mudanças climáticas é algo positivo, mas não vê com tanto otimismo a COP como uma impulsionadora de mudanças efetivas nas empresas.

“Estou menos otimista em relação ao poder da COP-28 para induzir, por si só, um grande impulso sustentável em nível nacional, porque os governos não estão fazendo o suficiente, e a reunião não mudará isso”, afirma Kell. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

A COP vai começar e a expectativa do mercado é que, neste ano, ações concretas ocorram, em comparação com a COP-27. Essa é a expectativa do senhor também?

Atualmente, eu tenho preferido não dar previsões, mas parece que o lado positivo é que os Estados Unidos e a China concordaram novamente em colaborar na questão das mudanças climáticas, o que considero realmente importante para a comunidade internacional. Também acredito que haverá avanços no artigo 6 do Acordo de Paris para viabilizar um mercado de carbono. Por outro lado, estou menos otimista em relação ao poder da COP-28 para induzir, por si só, um grande impulso sustentável em nível nacional, porque os governos não estão fazendo o suficiente, e a reunião não mudará isso. Então, estou menos otimista em relação a alguns problemas. A questão mais destacada é o Fundo de Danos, que é uma espécie de compromisso para o desenvolvimento das soluções, mas o financiamento aplicado não é muito claro. Enquanto estiver assim, não acho que faça muito sentido celebrar algo, pois muitas promessas foram feitas no passado e não estão sendo cumpridas.

Um dos tópicos a serem abordados deve ser o Acordo de Paris, se os países cumpriram as ações previstas. Na sua opinião, os países avançaram neste ponto?

Sim e também não. O progresso está no aumento do número de países que está levando mais a sério agora as mudanças necessárias nos sistemas de energia, promovendo energias renováveis, atingindo novas regulações. A União Europeia, em particular, está mais à frente, mas não está sozinha e cada vez mais empresas globais estão considerando esses assuntos em nível executivo, indicando um progresso real. Por outro lado, os indicadores macro continuam a se deteriorar. Nós fizemos mais emissões do que no ano passado e os levantamentos mais recentes apontam que estamos a caminho de um aumento de temperaturas em 3°C. Além disso, a agenda climática está ligada, é claro, a muitos outros problemas ecológicos, como a água, acesso à água, chuvas e assim por diante. O meu medo é que a humanidade esteja muito devagar e não agindo rápido o suficiente.

Georg Kell afirma que não tem perspectivas tão positivas para essa COP, considerando o que tem sido feito efetivamente até agora Foto: Divulgação/Pacto Global

Alguns especialistas enxergam a possibilidade de o agronegócio ser colocado como um vilão por outros países e que o Brasil possa ser confrontado. Qual a sua opinião sobre esse ponto?

No setor agrícola, os problemas de sustentabilidade são comuns. Por outro lado, eu também sei que em muitas partes do mundo, e muitas grandes empresas de alimentos, por exemplo, estão se tornando mais intensas com a agricultura regenerativa, indicando que há um progresso real. As sociedades querem alimentos baratos e acessíveis e a comida é uma questão de direito humano e sobrevivência. Então, os retornos não são sempre muito fáceis e simples. Mas a agricultura, na minha opinião, é uma grande fonte, obviamente, de emissões de gases. Acho que cerca de um terço vem da agricultura, além da comida. Mas é também um setor que está em desenvolvimento rumo à sustentabilidade, assim como outros setores.

O Pacto Global é considerado uma das principais vozes em prol de uma economia sustentável, com valores atrelados ao ESG. O sr. enxerga que o mundo evoluiu na pauta da sustentabilidade nos últimos anos?

Sim. As corporações têm levado em consideração esse assunto. Em primeiro lugar, eu sei que os problemas de sustentabilidade estão agora sendo discutidos em nível executivo, com muito cuidado e os investidores dessas empresas estão prestando atenção também. Os riscos climáticos e as oportunidades são cada vez mais discutidos, mas as corporações não podem, sozinhas, mudar o sistema. Essa transformação depende da união de toda sociedade, incluindo reguladores, políticos, consumidores, corporações e investidores. O cenário para acelerar as práticas de sustentabilidade ainda não está suficientemente organizado, pois ainda estamos atrasados em uma tributação eficiente para o carbono, ainda utilizamos recursos naturais como se fossem ilimitados. Precisamos de um esforço muito mais concentrado e coletivo, que, além de tudo, requer que as políticas funcionem. As ações voluntárias de negócios são muito importantes e ajudam a trazer a agenda de sustentabilidade ao topo das discussões, contribuindo para uma base de mudanças regulatórias e políticas, mas não devem ser suficientes para trazer mudanças em toda a cadeia, que é o que precisamos agora. O que espero é que esse movimento inspire governos a serem menos tímidos.

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Grandes empresas de setores diversos passaram a afirmar que a sustentabilidade se tornou um valor agregado nos seus negócios nos últimos anos. Isso já é realidade?

Sim e não. O mundo corporativo é um universo enorme de milhões de empresas, e quando você fala de grandes corporações, todas elas entendem, pelo menos em princípio, que existem riscos verdadeiros ligados à sustentabilidade e que têm grandes implicações financeiras. Porém, o quanto essa compreensão já se transformou em mudanças no dia a dia operacional dessas empresas é outra questão. Algumas empresas estão muito avançadas, outras estão ficando para trás. Enxergar a sustentabilidade como agregador de valor se trata de uma precondição necessária para o sucesso a longo prazo e isso já é entendido pelas empresas. Então, isso vai muito além da filantropia.

Se você é uma nova empresa que deseja estar na bolsa brasileira, de Nova Iorque ou qualquer outra, e você pode demonstrar que tem uma estratégia e um conceito de sustentabilidade saudável, sua avaliação será significativamente melhor do que se não tiver nenhuma. Isso é apenas uma evidência de como a sustentabilidade é cada vez mais considerada relevante pelos investidores. Também, no lado dos riscos, há um enorme progresso agora em como as empresas de segurança estão descobrindo o preço do futuro.

Frente ao lucro, que é o foco final de qualquer negócio, qual o peso que a sustentabilidade tem atualmente?

A relevância financeira da sustentabilidade é cada vez mais reconhecida pelos investidores ao calcular o valuation de suas empresas e analisar os riscos e oportunidades. Então a sustentabilidade já é um fator importante. Mas no geral, esse entendimento ainda não está suficientemente ajustado para que promova incentivos que acelerem a tendência. Um terço dos assentos globais sob a gestão profissional já usam algum tipo de framework de sustentabilidade para avaliar riscos e oportunidades e essa é uma tendência em crescimento. Quase todos os grandes empresários já têm uma avaliação estratégica para o futuro que integra a sustentabilidade em sua tomada de decisão. Então, com certeza, ela está encontrando seu caminho para os mercados. Mas essa descoberta não é uniforme e está se transformando em diferentes velocidades.

O montante financeiro destinado pelas grandes corporações para essa pauta hoje já é suficiente para fomentar uma bioeconomia consolidada?

Eu acho que o mundo tem travado enormes lutas em prol do investimento em sustentabilidade. Como exemplo, existem alguns setores que eu tenho mais contato: Um é o de geração de eletricidade limpa, distribuição e armazenamento. Se você ler o jornal de Wall Street de hoje, por exemplo, ou qualquer outro, você ouve sobre os próximos avanços na produção de baterias, que é uma frente de desenvolvimento para eletricidade limpa. Já na indústria petroquímica, vemos uma busca por soluções alternativas para o plástico, soluções bio-based. Na agricultura, temos a abordagem regenerativa. Há muitos desenvolvimentos positivos para citar.

E no Brasil?

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O Brasil, em particular, está na frente de muitas dessas mudanças e eu acho que está voltando a dedicar sua força total nessas políticas, esse é o meu sentimento. Muitas das ideias que usei para construir o Pacto Global da ONU, a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo, vieram, na verdade, do Brasil. Eles foram criados aqui. E não se esqueça, a mãe de todos os esforços de desenvolvimento ambiental foi a Rio 92, que deu ao mundo, a UNFCCC, a biodiversidade, a desertificação, entre outros. Então, o Brasil é a mãe do movimento de sustentabilidade. E eu acredito que agora, com a crescente urgência de tomar mais ação, o Brasil está extremamente bem posicionado para tornar a sustentabilidade um fator diferenciador para a competitividade internacional e também produzir mais valor adicionado a materiais rurais em particular.

O que falta para essa agenda crescer dentro do Brasil?

Eventos que reúnam startups e empresas de venture capital são o que é necessário para acelerar a agenda de inovação. É um fator-chave para usar a tecnologia de forma mais proativa e isso é muito relevante. Eu acho que, do lado político, obviamente, há sempre mais espaço para melhoria, principalmente para criar mecanismos que recompensem a inovação. Não só no Brasil, mas em todos os lugares, eu acredito - com o pouco que sei - que os políticos precisam entender o poder dos mercados de moldar comportamentos e trazer inovações para o cenário. Mais reconhecimento e suporte seriam muito importantes.

No cenário mundial, o sr. enxerga algum país que se destaque no investimento em sustentabilidade?

Sim. Eu sou nascido na Alemanha e me sinto um pouco envergonhado de dizer que meu pais não está entre meus favoritos neste quesito. Mas ao lado dele está a pequena Finlândia e também a Suécia. Os países nórdicos estão muito sóbrios em relação à sustentabilidade. Eles olham de verdade para o caso de negócios. Eu estarei em Estocolmo na próxima semana e vou conhecer o CEO da H2 Green Steel, a primeira empresa de aço verde no mundo. E eles estão fazendo entradas com aço verde como a primeira produção de aço verde no mundo. A Finlândia deve atingir a neutralidade de carbono em 2035. E eles têm os maiores padrões de vida no mundo, exceto por alguns pequenos países ricos em recursos financeiros. Eles também têm o maior nível de educação, o que mostra por que toda a sociedade está envolvida nisso. Porque eles já ensinaram seus filhos, as pessoas jovens, e eles explicaram em termos claros que a mudança é inevitável e é uma coisa boa./COLABOROU ARTUR LOPES.

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