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Relatórios de sustentabilidade avançam para seguir modelo similar ao dos balanços financeiros

Especialistas afirmam que tendência deve acontecer nos próximos anos para facilitar a análise de investidores

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Por Beatriz Capirazi
Atualização:

Cada vez mais comuns entre as empresas, os relatórios de sustentabilidade, antigamente usados para mensurar apenas métricas atreladas ao meio ambiente, são, atualmente, um importante balizador das práticas de ESG (sigla em inglês para meio ambiente, social e governança) nas corporações.

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Empresas de todos os portes passaram a fazer a divulgação dessas práticas ao menos uma vez no ano, mostrando engajamento com a agenda sustentável. Para especialistas, no entanto, a ausência de um padrão global ainda é um problema.

O sócio da PwC Brasil, Mauricio Colombari, destaca que a prática tem crescido, de fato, no Brasil, mas de forma voluntária. “Um número maior de empresas passaram a adotar o relatório como um meio de comunicação com os seus stakeholders.”

Especialistas ouvidos pelo ‘Estadão’ afirmam que tendência deve acontecer nos próximos anos para facilitar a análise de investidores Foto: Herton Escobar/Estadão

Para ele, a expectativa é que os relatórios passem a ser obrigatórios usando um padrão específico, assim como acontece com os balanços divulgados pelas empresas de capital aberto. Colombari destaca que uma iniciativa de criar regras do International Sustainability Standards Board é uma tentativa de criação de uma padronização global.

“O objetivo é que sejam informações completas, consistentes e comparáveis da mesma forma que os balanços financeiros”, explica, afirmando que, desta forma, a análise dos dados apresentados pela empresa será mais fácil não só para os investidores, mas também para a própria sociedade civil.

“A flexibilidade de uso fez com que houvesse muita confusão. Um padrão, já impulsionado no mercado internacional, facilitará a vida do investidor, que pode fazer comparações entre companhias de um mesmo setor”, afirma o gerente de relações institucionais do Instituto Brasileiro Governança Corporativa (IBGC), Danilo Gregório.

Jansen Moreira, CEO e fundador da startup Incentive.me, é da mesma opinião, mas destaca que métricas já estão sendo criadas para ajudar na criação dos relatórios, como o Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD), já adotado por algumas empresas.

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“O grande diferencial deste modelo frente aos outros é o peso que ele dá para a governança corporativa, evitando que o relatório se torne uma propaganda das práticas da empresa, como acontece hoje em dia”, afirma.

Moreira destaca que a tendência é mais sólida na Europa, que já se preocupa com o uso de relatórios com métricas únicas. Além disso, o continente já tem como prática difundida a associação da remuneração dos C-Levels a métricas ESG, impulsionado o desenvolvimento prático delas nas empresas.

Jansen Jansen Moreira, CEO e fundador da startup Incentive.me Foto: Divulgação/Incentive.me

Para Gregório, do IBGC, no entanto, o que fará com que o Brasil realmente avance na pauta, definitivamente, é a divulgação recente das duas normativas sustentáveis do International Financial Reporting Standards (IFRS), responsável pelo padrão contábil internacional no Brasil.

Ele destaca que, embora as duas temáticas nem sempre sejam associadas, o mais comum é que as métricas ambientais passem a ser inseridas nas informações financeiras das empresas como um ponto de valor agregado, atrelando a pauta ambiental aos negócios cada vez mais.

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“Apenas os números já não são mais suficientes para medir risco. A informação que agrega valor é importante para um stakeholder tomar uma decisão e para que ela seja mensurável é preciso que seja auditável. O IFRS é útil para que essa informação de sustentabilidade seja integrada com a informação contábil”, explica a vice-coordenadora de Relações Internacionais do CBPS (Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade), Vania Borgerth.

Ela explica que a tendência é que as métricas sigam um caminho similar ao do que aconteceu com a contabilidade. ”Anos atrás, as métricas diversas causavam confusão porque algumas empresas davam lucro pela regra de um país e prejuízo pela regra de outro, o que acabava dificultando a realização de acordos internacionais e forçando o surgimento de uma linguagem global.”

Concessão de crédito

Colombari afirma ainda acreditar que as métricas, inclusive, devem ser cada vez mais fortalecidas, considerando que já são usadas hoje na concessão de crédito. “Atualmente, um banco consegue fazer um mapeamento para entender o segmento da empresa, se é poluente, quais os seus recursos e se a companhia tem algum tipo de compromisso em zerar as emissões.”

Para ele, todas as empresas que pedem um empréstimo devem estar preparadas para fornecer este tipo de informação através de métricas factíveis. No entanto, Colombari destaca que mesmo as empresas que queiram adotar os relatórios devem ser cautelosas.

Mauricio Colombari, sócio da PwC Brasil. Foto: Divulgação/ PwC

“Simplesmente criar um relatório é pegar um atalho perigoso, principalmente porque eles são terceirizados na maioria das vezes. Ao criar uma história sustentável, muitas empresas acham que está criando uma vantagem competitiva, mas, se não é verdadeiro, acaba sendo um enorme risco”, explica, destacando ser preciso, em primeiro lugar, implementar essas métricas.

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