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Haddad indica Galípolo, número dois da Fazenda, para diretoria de Política Monetária do BC

Para a diretoria de Fiscalização foi indicado Ailton Aquino; segundo analistas, mudanças indicam que o Banco Central terá, mais à frente, uma posição mais à esquerda, com queda mais forte nos juros

Foto do author Thaís Barcellos
Foto do author Francisco Carlos de Assis
Por Thaís Barcellos (Broadcast) e Francisco Carlos de Assis (Broadcast)
Atualização:

BRASÍLIA E SÃO PAULO - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou nesta segunda-feira, 8, a indicação de Gabriel Galípolo, atualmente seu secretário executivo, para a diretoria de Política Monetária do Banco Central. Para a outra diretoria vaga do BC, a de Fiscalização, a escolha do governo foi Ailton Aquino, atual chefe do Departamento de Contabilidade, Orçamento e Execução Financeira, ligado à diretoria de Administração do BC.

Os nomes, que ainda têm de ser confirmados no Senado, já estavam circulando para assumir cargos na autoridade monetária. Como mostrou o Estadão/Broadcast, a ida de Galípolo para o BC faz parte de uma intenção do governo de ir mudando a autarquia por dentro, diante das divergências com a atual liderança de Roberto Campos Neto. Aquino, que já foi auditor chefe do órgão, é bem avaliado, conhecido por posições técnicas, internamente. Caso confirmado pelo Senado, Aquino será o primeiro diretor negro do BC.

Gabriel Galípolo foi presidente do Banco Fator Foto: Washington Costa/Ministério da Fazenda

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Para o cargo de Galípolo na secretaria executiva da Fazenda, Haddad escolheu Dario Durigan, que já trabalhou com ele como assessor especial na Prefeitura de São Paulo e atualmente é chefe de políticas públicas do Whatsapp no Brasil. Segundo Haddad, Galípolo vai continuar despachando da Fazenda até a deliberação do seu nome pelo Senado. O ministro rechaçou que a escolha de seu número dois para a diretoria do BC seja política, com a intenção de formar bancada na autoridade monetária a favor do governo.

De acordo com o ministro da Fazenda, a primeira vez que ouviu o nome do secretário-executivo Gabriel Galípolo como possibilidade de indicação para o Banco Central foi do próprio atual presidente do BC, Roberto Campos Neto. “Eu estava no G20, na Índia, fomos almoçar juntos (Haddad e Campos Neto), e foi a primeira pessoa que mencionou a possibilidade de o Galípolo ir para o BC, no sentido de entrosar as equipes do BC e Fazenda”, afirmou o ministro, ao ser questionado sobre a reação do mercado à indicação de Galípolo para a diretoria de Política Monetária do BC.

Haddad lembrou que Galípolo já foi presidente de banco - o secretario presidiu o Banco Fator - e é um nome conhecido dos economistas. Disse ainda que Galípolo tem bom trânsito no Congresso e que tem feito negociações com o Parlamento, sendo co-autor de todas as políticas públicas endereçadas ao Congresso.

BC mais à esquerda

Na avaliação de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a indicação de Gabriel Galípolo para o BC deixa evidente que há uma sinalização de qual será o viés das próximas trocas no organograma da autoridade monetária. “A indicação dá uma sinalização muito clara para as próximas trocas, e para a própria troca de presidente no ano que vem, que está se caminhando para um BC mais à esquerda, pensando em quedas mais fortes de juros à frente”, afirma.

O governo terá mais duas trocas para fazer até 31 de dezembro deste ano, para os cargos de Fernanda Guardado, diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos, e de Mauricio Moura, diretor de Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta. Além disso, no próximo ano, em conjunto com a escolha do novo presidente que irá suceder Roberto Campos Neto, há outras duas trocas a serem feitas nas diretorias da autoridade. Vale disse esperar que os nomes a serem anunciados trabalhem sob o ponto de vista técnico, e não político.

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Para o sócio-fundador da Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall, a repercussão da indicação de Galípolo dependerá das próximas declarações dele sobre a economia e a condução da política monetária no País. “Vai ser importante ouvir o que ele tem a dizer na sabatina do Senado e, em particular, qual é a posição dele sobre a execução da política monetária, se ele vai professar ou não as teses da MMT (Teoria Monetária Moderna, na sigla em inglês), que tem gerado mais nervosismo no mercado”, diz Kawall.

As preocupações em torno da associação de Galípolo à MMT - uma teoria econômica heterodoxa que defende que países que emitem sua própria moeda sempre poderão imprimir mais dinheiro para pagar sua dívida - decorrem do histórico acadêmico do economista. No ano passado, o nome dele apareceu no texto “Diretrizes de Políticas Públicas para 2023″, do Cebri, junto ao do economista André Lara Resende, tido como um dos expoentes da MMT no País.

Já para Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, a indicação do secretário-executivo da Fazenda para o BC confirma os temores de que o governo age para ocupar o Comitê de Política Monetária (Copom) com aliados. “Está claro que ele vai para lá com uma missão: tentar interferir na política monetária hoje e, lá na frente, talvez virar presidente do BC quando Roberto Campos Neto sair”, diz. “Isso vai ser lido como sinal de que o BC pode se tornar muito mais leniente com inflação - não agora, mas em algum momento dos próximos anos.”

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