IPCA registra alta de 0,59% em outubro após três meses de deflação; preços subiram 6,47% em 12 meses

Setor de alimentação e bebidas foi o que teve maior impacto no resultado; alta de outubro acontece após quedas de 0,29% em setembro, 0,36% em agosto e 0,68% em julho

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Por Daniela Amorim (Broadcast)
Atualização:

RIO - Passado o efeito do corte de impostos e redução de preços de combustíveis pela Petrobras, os preços na economia brasileira subiram 0,59% em outubro, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta quinta-feira, 10, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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A alta, que sucede três meses de deflação, superou as previsões mais pessimistas dos analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Estadão/Broadcast, que previam um avanço entre 0,25% e 0,54%, com mediana positiva de 0,49%. A taxa acumulada em 12 meses desacelerou a 6,47%, ante uma meta de inflação de 3,5% perseguida pelo Banco Central para este ano, que tem teto de tolerância de 5%.

“Essa volta da inflação ao terreno positivo mostra que os efeitos da redução do ICMS sobre combustíveis, energia e telecomunicações começaram a ficar para trás”, lembrou Claudia Moreno, economista do C6 Bank, em nota.

O economista Leonardo Costa, da gestora de recursos ASA Investments, elevou sua projeção para o IPCA em 2022, de 5,7% para 6,0%, e em 2023, de 4,9% para 5,0%, após a divulgação da inflação em outubro. A mudança foi motivada pelo comportamento de itens voláteis, como a aceleração nos preços dos alimentos in natura.

“Os in natura têm a questão da sazonalidade e são itens mais voláteis mesmo”, justificou Costa, que prevê um IPCA de 0,50% em novembro, estimativa que já inclui uma expectativa de reduções de preços de produtos na campanha de promoções da Black Friday.

Cliente faz compra em supermercado; IPCA em outubro foi de 0,59%, segundo o IBGE Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, oito tiveram aumentos em outubro. Os gastos maiores com Alimentação e bebidas, Saúde e Transportes foram os que mais pesaram no bolso do consumidor, responsáveis juntos por quase 73% da inflação do mês. O índice de difusão do IPCA, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, subiu de 62% em setembro para 68% em outubro.

O grupo Alimentação e bebidas saiu de um recuo de 0,51% em setembro para um aumento de 0,72% em outubro. A alimentação no domicílio encareceu 0,80%, puxada por aumentos na batata-inglesa (23,36%), tomate (17,63%), cebola (9,31%) e frutas (3,56%). Na direção oposta, ficaram mais baratos o leite longa vida (-6,32%) e o óleo de soja (-2,85%).

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Os preços do grupo Alimentação acumulam uma alta de 11,21% em 12 meses..

“O único mês que a gente teve queda (no preço de alimentos) foi em setembro. Os preços subiram nesse período todo”, lembrou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE.

Kislanov frisa que houve alta forte no custo da alimentação no início do ano, por questões climáticas no Brasil e por reflexos da guerra na Ucrânia.

“Essa percepção (de alimentos mais caros) está relacionada à alta forte que a gente teve no início do ano. A queda que a gente teve no último mês (setembro) não foi suficiente para anular. Ainda está em patamar alto”, contou Kislanov.

No mês de outubro, os alimentos com maior impacto sobre a inflação tiveram problemas de oferta por conta de questões na colheita no campo, como a batata-inglesa e o tomate.

Nos Transportes, os combustíveis caíram menos em outubro, com a dissipação dos efeitos de cortes de impostos e das reduções de preços pela Petrobras nas refinarias, ao mesmo tempo em que houve aumento expressivo nas passagens aéreas, 27,38%, item de maior pressão no IPCA , 0,16 ponto porcentual. Em Saúde, as famílias gastaram mais com itens de higiene pessoal (2,28%) e planos de saúde (1,43%).

Demanda também pressiona preços

A inflação de serviços – usada como termômetro de pressões de demanda sobre os preços – acelerou de uma elevação de 0,40% em setembro para uma alta de 0,67% em outubro. Segundo Pedro Kislanov, a satisfação de uma demanda reprimida por serviços, em função do período de isolamento social na pandemia, tem contribuído para os aumentos de preços dos serviços nos últimos meses, embora haja contribuição também da alta de custos.

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“Tem fator custo, claro, mas, na parte de serviços, a gente pode ver que tem demanda também. A parte de passagens aéreas, outros serviços relacionados ao turismo, a parte de cabeleireiro, manicure”, enumerou Pedro Kislanov. “Passagem aérea tem retomada da demanda nesse cenário de melhora da pandemia e também a questão de custos do setor, especialmente combustível aéreo”, acrescentou.

Assim como os serviços, o aumento de custos e de demanda explica também a elevação de preços de itens de vestuário. O grupo tem uma alta acumulada de 18,48% em 12 meses, a maior entre os que integram o IPCA.

“Vestuário, assim como a parte de serviços, também está relacionado à demanda, melhora da pandemia”, disse Kislanov.

Em outubro, os itens de maior pressão no IPCA foram passagem aérea (0,16 p.p.), higiene pessoal (0,09 p.p.), plano de saúde (0,05 p.p.), batata-inglesa (0,04 p.p.) e emplacamento (0,04 p.p.).

Na direção oposta, os itens que mais ajudaram a frear a inflação foram gasolina (-0,07 p.p.), leite longa vida (-0,06 p.p.), plano de telefonia móvel (-0,03 p.p.), TV, som e informática (-0,01 p.p.) e gás de botijão (-0,01 p.p.).

Kislanov lembrou ainda que a coleta do IPCA de outubro se estendeu até o dia 27 do mês, antes, porém, dos bloqueios em estradas conduzidos por manifestantes em atos antidemocráticos após o segundo turno das eleições. / (Colaborou Marianna Gualter)

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