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Bolsonaro demite Silva e Luna da Petrobras e indica Adriano Pires para presidência da estatal

Para a presidência do conselho de administração da estatal, o governo Bolsonaro indicou Rodolfo Landim, que também é presidente do Flamengo; os nomes precisam do aval da assembleia de acionistas, que está marcada para 13 de abril

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Por Adriana Fernandes

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro decidiu demitir Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras. Sob fritura há semanas desde a explosão de preços dos combustíveis com a guerra na Ucrânia, o general da reserva do Exército, estava há apenas um ano no cargo. Será substituídopelo diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

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A escolha de Pires foi interpretada com uma sinalização pró-mercado financeiro, cujos investidores cobram a manutenção da política de reajuste de preços da Petrobras, que segue a tendência dos preços do mercado internacional.

O nome foi costurado pelo próprio ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que trabalha pela adoção de um subsídio temporário do governo para diminuir a alta de preços dos combustíveis, considerada o "calcanhar de Aquiles" do presidente Jair Bolsonaro nas eleições deste ano. Com a entrada de Pires, a proposta de subsídio, que é rejeitada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, deve ganhar fôlego.

O presidente Bolsonaro tem sido apontado como culpado pela população pelos altos preços e gasolina e ensaiou um movimento, após a disparada de preços do petróleo, de intervenção de preços da Petrobras. Por isso, ainda há desconfiança de que Bolsonaro vá continuar pressionando.

Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) Foto: CBIE

Segundo apurou o Estadão, a diretoria atual da empresa gosta das posições de Pires. A transição deve ser suave. Nesse primeiro momento, a expectativa é que não haja tantas mudanças como ocorreu, no ano passado, na troca de Roberto Castello Branco por Silva e Luna. A leitura inicial é de que ele vai continuar com a política de preços de paridade internacional e que o presidente com a troca “fez mais um showzinho para o eleitorado” com os ataques à ação da estatal de olho nas eleições.

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, que foi indicado para a presidência do conselho administrativo da empresa, era também cotado, mas foi preterido por resistências ao seu nome. Landim era visto por integrantes da empresa da indústria de óleo e gás como alguém que estaria disposto a “fazer tudo”, inclusive aceitar uma intervenção do governo nos preços, como defende integrantes do governo nos bastidores. 

Pires, que também é articulista do Estadão, tem defendido o subsídio e se manifestado contrário ao projeto 1474, que trata de preços de combustíveis e prevê fundo de amortização dos preços, já votado no Senado e em tramitação agora na Câmara. Mas permanece certo ceticismo de que ele conseguirá segurar a pressão do presidente para intervir nos preços em ano eleitoral .

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A confirmação da saída de Silva e Luna, que já era dada como certa há pelo menos 10 dias em Brasília, como mostrou o Estadão no dia 17 de março, coincidiu com a decisão tomada no mesmo dia em que o ministro da Educação, Milton Ribeiro, entregou o cargo ao presidente.

Ribeiro é investigado por suspeita de envolvimento com pastores que cobravam propina para intermediar recursos para escolas, como revelou o Estadão. Essa tentativa de tirar o foco de uma notícia negativa é uma estratégia já usada pelo presidente Bolsonaro em outros momentos de pressão ao longo dos mais de três anos de mandato na Presidência.

General Joaquim Silva e Luna, presidente da Petrobras; Bolsonaro tem criticado a estatal Foto: André Dusek/Estadão

Os nomes de Pires e Landim precisam ser aprovados pela assembleia de acionistas no dia 13 de abril. O mandato do atual presidente da Petrobras vai até março de 2023, mas isso não impede a substituição. Com a queda, Luna e Silva deve deixar de ganhar um salário anual em torno de R$ 2,9 milhões (R$ 223 mil por mês), segundo dados do Ministério da Economia. De acordo com as regras atuais, o presidente da estatal pode receber até 13 salários de bônus caso todas as metas sejam atingidas.

O desconforto do presidente com a alta de preços e a falta de ação atribuída à Petrobras pavimentou a queda de Silva Luna. O general da reserva do Exército foi alçado à presidência da Petrobras em abril do ano passado no lugar de Roberto Castello Branco com a expectativa de aliados de que faria mudanças na política de preços.

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Bolsonaro se irritou com com Silva e Luna pelo 'timing' no anúncio do mega-aumento dos combustíveis neste mês. A Petrobras pratica a chamada paridade de preços, ou seja, paga pelo produto o preço cobrado no mercado internacional e, por isso, repassa eventuais altas para refinarias, o que leva ao aumento de preços para o consumidor final.

Na quinta-feira, 10, diante do aumento na cotação do petróleo no mercado internacional, reflexo da guerra na Ucrânia, a Petrobras anunciou reajuste de 18,8% para a gasolina e de 24,9% para o diesel.

No dia seguinte, o Congresso aprovou e Bolsonaro sancionou um projeto que faz alterações na tributação sobre os combustíveis para tentar aliviar a alta de preços. Para Bolsonaro, o impacto da aprovação do projeto foi "mitigado" porque a Petrobras fez o anúncio do mega-aumento antes.

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"Olha só, eu tenho uma política de não interferir. Sabemos das obrigações legais da Petrobras e, para mim, particularmente falando, é um lucro absurdo que a Petrobras tem num momento atípico no mundo. Então, não é uma questão apenas interna nossa", disse Bolsonaro, no sábado. "Então, falar que eu estou satisfeito com o reajuste? Não estou satisfeito com o reajuste, mas não vou interferir no mercado", completou o presidente.

Se confirmada pelo conselho, esta será a segunda vez que Bolsonaro muda o comando da Petrobras. Em fevereiro do ano passado, o presidente demitiu Roberto Castello Branco, também em um momento em que o preço dos combustíveis impactava sua popularidade.

Cronologia

  • 8 de janeiro - Em entrevista ao Estadão, Silva e Luna disse que os preços dos combustíveis não podem ser gerenciados pelo governo. “O que regula o preço é o mercado”, afirmou. “Ainda há pessoas que consideram, por desinformação ou outro motivo, que a Petrobras deva ser responsável pela redução de preço. Ela não tem condições de fazer isso.”
  • 3 de fevereiro - Em evento da a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom), Silva e Luna afirmou que a estatal precisava praticar preços de mercado e se comportar como uma empresa privada, até porque não conseguia atender todo o mercado brasileiro de combustíveis com suas refinarias, que operam com ociosidade de cerca de 20%.
  • 7 de março - Com os preços do combustíveis já defasados no mercado interno, Bolsonaro defendeu rever política de preços da Petrobra. "Se repassar tudo, aumento será de 50%", disse afirmou o presidente em entrevista à Rádio Folha de Roraima. Ações da estatal caem 7% no mesmo dia.
  • 10 de março - A Petrobras anuncia um aumento no preço da gasolina em 18,8% e do gás de cozinha em 16,1%; diesel sobe 24,9%, o que aumenta ainda mais o desgaste de Luna e Silva.
  • 15 de março - Descontente, Bolsonaro era aconselhado pelos principais ministros a manter Silva e Luna à frente da Petrobras para não fazer uma troca "sem efeito algum". Dias antes, o vice-presidente, Hamilton Mourão, com quem Bolsonaro mantém hoje uma relação distante, disse que Silva e Luna "aguentaria a pressão" e ficaria no cargo.
  • 16 de março -  Bolsonaro diz que soube com antecedência de megarreajuste de preços, o que contraria as diretrizes da empresa e sua relação com o mercado.
  • 17 de março -  O presidente começa a procurar nomes para substituir Silva e Luna, mas trata de despistar. “Não posso nem vou interferir na Petrobras. No governo do PT, muita coisa errada foi feita na Petrobras”, afirmou o presidente durante o lançamento do Programa Renda e Oportunidade.
  • 21 de março - Em entrevista à Jovem Pan, presidente negou interferência na Petrobras. No mesmo dia,Bolsonaro abandonou uma entrevista coletiva improvisada em frente ao Palácio da Alvorada ao ser questionado se pretende trocar o comando da empresa.
  • 28 de março - Bolsonaro decide demitir Silva e Luna.

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