Mercadante diz que Brasil é forçado a fazer política de proteção comercial para preservar indústria

Presidente do BNDES afirma ainda que o banco responde por apenas 1,3% do crédito nacional e, por isso, não teria tamanho para interferir na política monetária: ‘Em economia, o rabo não abana o cachorro’

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Por Gabriel Vasconcelos

RIO - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, defendeu nesta segunda-feira, 29, as políticas de proteção comercial e expansão do crédito público por países do Sul Global em reunião do grupo empresarial B20, no Rio de Janeiro. O B20 é atrelado ao G-20, cuja presidência é ocupada pelo Brasil até o fim de 2024.

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Em provocação anunciada a empresários e representantes das chamadas economias desenvolvidas, Mercadante disse que os governos desses Países têm adotado políticas protecionistas, entre as quais crédito subsidiado para a indústria. Ele citou Estados Unidos, Europa e China.

Nesse contexto, disse, os países em desenvolvimento, reunidos na dimensão geopolítica do Sul Global, têm sido quase que obrigados a chegar no seu limite para fazer frente às investidas dos mais ricos e proteger seus setores produtivos.

“Depois da crise do covid-19, 71% das medidas de comércio exterior no mundo agridem o comércio multilateral. O Brasil tinha uma indústria maior que a de China e Coreia juntas nos anos 1980. Ela representava 30% do PIB, e hoje tem apenas 15%. Aderir a regras de livre comércio, retirada de subsídio, Estado mínimo e consenso de Washington, isso nos tirou industrialização”, disse Mercadante ao defender a reversão desse receituário.

Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, defendeu proteção à indústria brasileira Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Ele destacou que, no primeiro ano do governo Lula, o crédito concedido pelo BNDES cresceu 32% e deve seguir em alta nos próximos anos. O banco vai responder por R$ 250 bilhões dos R$ 300 bilhões que servirão ao fomento da indústria nacional até 2026, conforme plano do governo federal anunciado na semana passada.

“Estamos compelidos a fazer política de proteção comercial. Somos empurrados à força, para chegarmos no nosso limite, se não vamos continuar assistindo à desindustrialização do Sul Global”, continuou.

O presidente do BNDES deu como exemplo bem-sucedido do aumento de crédito o caso do agronegócio. “O agro tem o Plano Safra, subsidiando mais de R$ 360 bilhões por ano. Disso, 30% é distribuído pelo BNDES, conhecemos por dentro. É também isso que faz (o agronegócio) ser competitivo, além de sermos estruturalmente competitivos, pelo tamanho (do País)”, disse, ao defender o mesmo empenho pela indústria nacional.

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Questionado sobre eletromobilidade, Mercadante disse que o foco do banco nessa área serão ônibus urbanos, inclusive com auxílio para a estruturação de empresas de leasing de ônibus, em função do alto custo do bem para governos municipais.

Ele também defendeu o uso do Fundo de Marinha Mercante, administrado pelo BNDES, para a indústria naval, e disse que a estimativa para 2024 é de créditos na ordem de R$ 2 bilhões para esse fim.

Política monetária

O presidente do BNDES afirmou também que o banco responde por apenas 1,3% do crédito nacional e, por isso, não teria tamanho para interferir nos rumos da política monetária. “Em economia, o rabo não abana o cachorro”, disse.

O comentário foi feito em resposta às críticas de analistas, para os quais o aumento do crédito pretendido pelo banco poderia frear a trajetória de queda da taxa básica de juros (Selic) à frente. Ele observou que essa leitura tanto não teria procedência, que os juros da economia vêm caindo e poderiam ter começado a cair mais cedo em sua visão.

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Ele aproveitou para voltar à carga contra a condução do Banco Central e disse esperar que a taxa básica de juros seja reduzida em 0,5 ponto porcentual ao fim da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta quarta-feira, 31.

“Espero que a taxa de juros caia mais meio ponto porcentual na quarta-feira. E dava para ter caído mais cedo”, disse.

Questionado sobre a volta de subsídios e crédito direcionado, o presidente do BNDES minimizou. Disse que o volume de crédito subsidiado no universo de financiamentos do banco é “muito pequeno”. Segundo ele, a taxa TR (taxa referencial) para inovação vai representar somente R$ 5 bilhões ao ano. As taxas subsidiadas, apontou Mercadante, representam apenas 19% das operações atuais do BNDES.

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