5G e carros: como a internet ultrarrápida poderá revolucionar o jeito que você dirige

Tecnologia vai possibilitar a interação entre veículos, comunicação com semáforos, placas e rodovias, ampliando a segurança; de acordo com os analistas, será como ‘pilotar um celular’

PUBLICIDADE

Foto do author Cleide Silva
Por Cleide Silva

Dirigir um automóvel será como “pilotar o celular”, com várias opções de serviços, mas com acessos muito mais rápidos e confiáveis com a chegada do 5G. A tecnologia de internet ultrarrápida, que já começou a chegar ao Brasil, vai desencadear uma revolução nos carros conectados com avanços em segurança, desempenho, eficiência e entretenimento, afirmam especialistas do setor.

A rede 5G permitirá uma grande transformação nos veículos e na forma de produzi-los. Seu avanço no País, contudo, vai depender da criação de infraestrutura e do apetite das montadoras em colocar novos sistemas nos seus produtos pois, como sempre ocorre, a introdução de novas tecnologias implica em custos maiores.

Os carros vão se deslocar com tanta tecnologia envolvida que será como um computador andante, com data center sobre rodas.”

Flavia Spadafora, sócia da KPMG no Brasil

É fato que o 5G deve acelerar o desenvolvimento de carros elétricos e autônomos, mas, até lá, modelos atuais a combustão já vão usufruir da nova forma de conectividade, afirma Flavia Spadafora, sócia-diretora do segmento automotivo da consultoria KPMG no Brasil.

Importado pela BMW do Brasil, o iX dispõe de tecnologia 5G em seu painel de instrumentos, mas não está habilitado no País  Foto: BMW/Divulgação

PUBLICIDADE

Há duas semanas, em viagem aos Estados Unidos, a executiva testou várias dos sistemas introduzidos ou em fase de testes em veículos com a rede 5G, que já cobre praticamente todo o País. Muitos deles, em sua opinião, podem chegar ao mercado brasileiro em breve, inicialmente em modelos importados da faixa premium.

“Os carros vão se deslocar com tanta tecnologia envolvida que será como um computador andante, com ‘data center’ sobre rodas”, diz Flavia. “Eles vão se comunicar com outros carros, outras máquinas, com as estradas e as cidades.”

Atualização remota de sistemas

Entre as funções que poderão ser agregadas aos sistemas automotivos está a atualização remota de softwares, como se faz hoje com os celulares. Esse serviço já é oferecido com o 4G por algumas empresas, como a Tesla, mas será bem mais rápido e mais eficiente.

Visitas às concessionárias serão mais escassas e, quando elas forem necessárias, o próprio sistema do carro vai informar o defeito e emitir um aviso – a revenda separa a peça e informa as opções de datas para agendamento. Dependendo do problema, vários recalls também serão feitos remotamente.

Publicidade

Mauro Myiashiro, mentor em conectividade da SAE Brasil, acrescenta que qualquer download será feito em segundos. Em sua opinião, contudo, o 5G vai demorar a ser um produto de massa devido ao custo e também ao cronograma de implantação da rede em todo o Brasil, prevista até julho de 2028. Ele destaca a necessidade urgente de formação de mão de obra para lidar com as novas tecnologias.

Muita diferença para a segurança

Os automóveis passarão a ser semiautônomos, com conexão a semáforos, placas de trânsito, faixas nas estradas e com outros veículos. Se um carro é freado bruscamente por algum motivo, imediatamente os demais que estão atrás serão informados e terão as velocidades reduzidas automaticamente.

O mesmo vai ocorrer se tiver acidentes nas pistas. A troca de informação entre os veículos dará a chance, por exemplo, de o condutor alterar seu trajeto e evitar congestionamentos. “O 5G é cem vezes mais rápido que o 4G, permite mais tráfego de dados e menos interrupções nas transmissões”, afirma Marcus Vinicius Aguiar, vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).

Teste de monitoramento de trânsito com rede 5G no Chile: mais segurança no trânsito Foto: IVAN ALVARADO

Os carros vão ter vários aplicativos e serão conectados a um ecossistema que envolve fábricas, concessionárias, seguradoras e prestadoras de serviços, diz Fabio Rabelo, responsável pela área de digitalização da Volkswagen América do Sul. Se o motorista sofre um acidente, o próprio sistema do carro comunica ao pronto-socorro mais próximo e à seguradora.

O 5G é cem vezes mais rápido que o 4G, permite mais tráfego de dados e menos interrupções nas transmissões.”

Marcus Vinicius Aguiar, vice-presidente da AEA

PUBLICIDADE

Outro exemplo é uma “cerca virtual”, que vai avisar se o carro sair de uma área predeterminada, por exemplo se for roubado ou se o pai emprestá-lo para o filho e quiser rastrear onde ele está. Na Alemanha, alguns modelos da marca já estão conectados às estradas.

Aguiar explica que o sistema de informação e entretenimento (infotainment) da marca, chamado de VW Play, vai estar conectado ao celular para usar todos os seus serviços e, em um estágio futuro, ao 5G.

Pelo menos um carro que já circula no País, o BMW iX, tem 5G, mas não está habilitado porque a rede local, por enquanto, só funciona em algumas capitais . A empresa informa estar estudando como fazer isso e quais funções de conectividade serão agregadas, mas não tem previsão de prazos.

Publicidade

Oferta de serviços diversos também serão facilitados e o motorista poderá habilitar os que mais lhe interessam. “Imagina você passando pela Av. Faria Lima (em São Paulo) e receber informações de horários disponíveis no cabeleireiro mais próximo, ofertas no supermercado etc”, diz Aguiar, da SAE.

Testes de sistema de auxílio ao motorista com uso da tecnologia 5G em centro de testes de mobilidade da Vodafone em Aldenhoven, na Alemanha Foto: THILO SCHMUELGEN

O presidente da Renault do Brasil, Ricardo Gondo, ressalta que a conectividade mais rápida e mais segura vai permitir novos sistemas de segurança e conectividade sem atrasos, como ocorre com a tecnologia atual. Em termos de fábrica, o complexo do grupo no Paraná, considerado como referência na Indústria 4.0 pelo Word Economic Forum, deve melhorar ainda mais quando receber o 5G, embora a data não esteja definida.

A Honda informa que, a partir de outubro, com a chegada ao mercado das versões topo de linha do New HR-V, a marca passará a disponibilizar o myHonda Connect, plataforma que estabelece a conexão entre o veículo e o smartphone do cliente por meio do 4G. “Com a recente chegada do 5G, estudamos a possibilidade de adoção da nova tecnologia.”

Influência nas fábricas

Várias fábricas no Brasil já operam com a chamada Indústria 4.0, com maior digitalização e robotização dos processos. Com o 5G, o processo será ainda mais eficiente. A Stellantis – dona das marcas Fiat, Jeep, Citroën e Peugeot – está testando, em parceira com a TIM e a consultoria Accenture, projeto piloto com a tecnologia 5G por meio de uma rede privada que utiliza inteligência artificial e computação na nuvem.

A primeira aplicação do sistema foi feita na fábrica da Jeep em Goiana (PE), na área de identificação dos veículos, de acordo com suas versões e acessórios. A identificação das mais de cem versões dos quatro veículos produzidos na planta é monitorada por vídeo automatizado, que é transmitido via internet 5G para uma central de processamento de dados.

Fábrica da Jeep em Goiana (PE): primeiros testes com o 5G Foto: Jeep

A Ford, que recentemente anunciou que oferecerá seu Centro de Desenvolvimento e de Tecnologia de Tatuí (SP) para testes de carros autônomos instalou antena 5G e sensoriamento nas pistas para comunicação com os sistemas de direção autônoma. “Vamos começar a fazer os testes com a cobertura do 5G em 2023″, informa o vice-presidente da Ford América do Sul, Rogelio Golfarb.

Para isso, explica ele, é preciso uma velocidade de rede muito acima do que tem hoje, e o 5G é pelo menos 50 vezes mais rápido que o 4G e pode chegar a 100 vezes mais, além de ser estável.

Publicidade

A Mercedes-Benz também instalou uma antena 5G na fábrica de São Bernardo do Campo (SP), em parceria com a Nokia, para validar a usabilidade dessa tecnologia que, segundo a montadora, trará impacto positivo na integração, conectividade dos processos industriais e eficiência da produção.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.