Casas Bahia atravessa turbulência na Bolsa e tenta escapar de endividamento com volta às origens

Valor das ações da empresa foram prejudicadas pela percepção do mercado sobre o endividamento e a capacidade da companhia de operar de forma financeiramente saudável

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Por Carlos Eduardo Valim, Talita Nascimento, Lucas Agrela e Wesley Gonsalves
Atualização:
4 min de leitura

O Grupo Casas Bahia negocia suas ações na Bolsa desde esta quarta-feira, 20, sob um novo ticker (código), o BHIA3. O objetivo é iniciar uma nova fase com a retomada do nome da rede varejista mais conhecida do grupo e um plano que pode trazer mais de R$ 3 bilhões de novas receitas, ampliação de caixa, venda de ativos e corte de custos.

Há dois anos, a Via Varejo (com ticker VVAR3) já havia sido renomeada como Via (VIIA3) para indicar que rumava para além do negócio de varejo. Agora, ela retorna às origens com a retomada do nome Casas Bahia. Isso significa a recuperação de slogans, posicionamento de mercado, identidade visual e até do antigo garoto-propaganda do grupo, que remontam a épocas mais prósperas.

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A alteração de rota acontece num momento de turbulência do valor das ações, prejudicadas pela percepção do mercado em relação ao endividamento da empresa e à sua capacidade de operar de forma financeiramente saudável. Ainda na época que se chamava Via Varejo, as ações da dona das redes Casas Bahia, Ponto Frio e Bartira chegaram a ser cotadas, em agosto de 2020, na pandemia, acima dos R$ 20,85.

Dívida bruta das Casas Bahia no fim do segundo trimestre deste ano era de R$ 3,7 bilhões Foto: Felipe Rau/Estadão

Nesta quarta, a BHIA3 era negociada em torno de R$ 0,75, transformando o papel, dos mais negociados da Bolsa, em uma penny stock — quando a ação é negociada na casa de centavos. A perda de mais de 96% queimou R$ 32 bilhões em valor de mercado da empresa em três anos - o equivalente a uma Cemig.

A queda se acentuou no último mês, quando as ações caíram cerca de 60%, sobretudo após um follow on (nova emissão de ações) mal-sucedido, realizado na quinta-feira, 14. A empresa buscava levantar R$ 1,1 bilhão, mas conseguiu apenas R$ 623 milhões, com um desconto de 28% no preço das ações em relação ao dia anterior.

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A companhia esperava mais, dado o valor das ações nos meses anteriores. No entanto, a pressão de baixa que o papel sofreu próximo ao follow on, prejudicou o valor final da operação. Ao fim do processo, o dinheiro levantado deve ser direcionado para reduzir alguns riscos de execução da companhia. Outra parte deve ser usada para a migração do financiamento de seu crediário.

Para piorar, a dívida da empresa foi rebaixada pela agência de rating S&P Global Ratings, o que levou ao temor de que os detentores de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) da empresa pedissem o vencimento antecipado dos títulos.

Nesse cenário, a atuação do CEO, Renato Franklin, que assumiu em abril deste ano, vindo da locadora de veículos Movida, agora se direciona a tranquilizar o mercado. Ele se esforça para assegurar que a dívida da empresa não é tão preocupante, mesmo num cenário de juros altos e crédito escasso, após o caso da Americanas, e também que a empresa não estaria rumando a uma recuperação judicial. “Há uma percepção equivocada de risco da companhia”, afirmou Franklin, a jornalistas. “O que vai mudar a percepção do investidor é uma entrega consistente.”

A dívida bruta da empresa, apontada no balanço do segundo trimestre deste ano, era de R$ 3,7 bilhões, com um adicional de R$ 1,5 bilhão de risco sacado, que são empréstimos bancários que antecipam recebíveis a serem pagos aos fornecedores da varejista. Além disso, a empresa registrou também, ao fim do segundo trimestre, empréstimos e financiamentos de R$ 8,7 bilhões.

Tais números podem parecer preocupantes frente a um caixa de R$ 2,7 bilhões e aos seguidos prejuízos das operações. No segundo trimestre do ano, o grupo amargou R$ 492 milhões de prejuízo.

No entanto, há alguns atenuantes a essa situação. Apenas cerca de R$ 1,8 bilhão do endividamento vence até o próximo ano, e R$ 1,2 bilhão já está em negociação avançada com os grandes bancos. A percepção no mercado é que as grandes instituições financeiras devem facilitar as negociações, uma vez que permanecem em conversas complicadas para buscar diminuir o rombo sofrido com os empréstimos para a Americanas, e não querem outro grande problema nas mãos.

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Além disso, o CEO, assim como ex-executivos da companhia e analistas do setor de varejo, fazem a distinção de que cerca de R$ 5 bilhões dos R$ 8,7 bilhões dos empréstimos estão assegurados em receita que a empresa deve ter no futuro.

Eles se referem a empréstimos feitos para bancar a operação de crediário que tradicionalmente a Casas Bahia oferece para seus clientes, desde a época da gestão do fundador da rede, Samuel Klein (1923-2014). “Para cada R$ 1 disso existe outro R$ 1 real quase garantido que a empresa tem a receber”, afirma uma pessoa próxima da operação, destacando que, historicamente, a inadimplência do crediário da Casas Bahia é muito baixa.

Segundo Franklin, o CEO, essa baixa inadimplência permanece mesmo num momento de aumento dos atrasos de pagamentos registrados por toda a economia, de juros altos e de consumo mais retraído. “A nossa perda líquida é de menos de 5%. A Casas Bahia sempre soube dar crédito”, disse.

Mesmo assim, para limpar o balanço, o grupo estrutura um fundo de investimentos em direitos creditórios (FIDC) voltado a repassar esses empréstimos de crediário para investidores. Na prática, ele transforma esses créditos recebíveis em um investimento que pode ser comprado no mercado financeiro.