‘A China é muito forte em loja online, mas estamos na frente em bancos digitais’, diz CEO do Inter

João Vitor Menin afirma que o Brasil é o país mais desenvolvido do mundo em bancos online; Inter acaba de superar os 30 milhões de clientes

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Por Carlos Eduardo Valim
Foto: Marcus Desimoni / NITRO
Entrevista comJoão Vitor MeninCEO do Inter&Co

Em janeiro deste ano, cerca de seis meses após abrir o seu capital na Nasdaq, o banco Inter anunciou que trabalharia com a meta de atingir 60 milhões de clientes em 2027. Naquele momento, a conta estava em 24 milhões de pessoas. Agora, a fintech anuncia que chegou na metade do caminho, tendo alcançado os 30 milhões de usuários de seus produtos financeiros.

Em conversa com o Estadão, o empresário mineiro João Vitor Menin, CEO da Inter&Co, que controla o Inter, fala como pretende aproveitar essa base, para atingir também os objetivos financeiros estipulados, que envolve 30% de retorno sobre o patrimônio líquido e um lucro líquido de R$ 5 bilhões. Os clientes estão sendo estimulados a utilizar cada vez mais serviços do superaplicativo da instituição, que integra banco digital com compras online, oferta de crédito, seguros e investimentos, além de um recém-lançado programa de fidelidade.

Segundo ele, vai ajudar nessa estratégia o avanço da agenda de open finance, conceito que traz a possibilidade de compartilhamento de informações entre diferentes instituições de dados que podem ser acessados pelos clientes de produtos financeiros, incentivado pelo Banco Central.

Essa evolução acelera a evolução do mercado financeiro digital do Brasil, que, segundo o empresário, já é o mais avançado em bancos digitais do mundo. Além disso, Menin, integrante da família controladora de outras grandes empresas, como a construtora MRV, espera uma melhora das condições macroeconômicas do País e do mundo, para 2024.

SAO PAULO ECONOMIA NEGOCIOS LINK PME 24-05-2021 BANCO INTER Sede do Banco Inter em São Paulo. FOTO INTER  

Como vai o ritmo para cumprir as metas de crescimento da empresa?

O nosso plano envolve atingir 60 milhões de clientes. Chegamos agora a 30 milhões, a metade da meta. Cinco anos atrás, a gente adicionava cerca de 1,5 milhão de clientes por ano. Agora, nos últimos anos, a gente consegue acrescentar 8 milhões. Foi uma mudança de patamar. A maioria desses clientes veio pelo boca a boca. A proposta de valor faz as pessoas irem indicando para as pessoas próximas. E precisamos entregar qualidade para cumprir as expectativas.

O momento é de grande transformação do setor. Como vocês estão acompanhando isso?

O momento é de digitalização. Continuamos na frente do mercado por termos lançado o nosso superaplicativo. Fomos o primeiro banco digital a ter um shopping dentro da plataforma de conta corrente. Observando todas as verticais de negócios do nosso superapp financeiro, é algo que não existe não só no Brasil, como no mundo ocidental. Então, estamos criando uma tendência de negócios.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, jogou muita luz na importância que os superapps vão ganhar, ao dizer que o open finance vai acabar com os aplicativos tradicionais dos bancos em cerca de dois anos. O Inter está posicionado para esse futuro?

Quando se considera toda essa parte de shopping de produtos e serviços, a estratégica casa com o que o regulador está falando, na figura do Roberto Campos Neto. Não adianta só ter um aplicativo para conta corrente. A visão é ter disponível tudo ali dentro, podendo pagar tudo com PIX. Tudo isso faz parte do conceito de invisible banking (banco invisível). É como respirar. Você não diz que vai usar o banco hoje. Mas vai fazendo isso, à medida que pede um Uber ou compra uma passagem aérea. Esse conceito conversa muito com o nosso superaplicativo, que tem verticais como oferta de crédito, plataforma de investimentos, câmbio, seguro e comércio, orbitando em torno da conta digital.

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Como o open finance ajuda a integrar tudo isso?

Nós temos 8% do volume de PIX no Brasil, mas não temos 8% do portfólio de crédito do País, nem das plataformas de investimentos. Então, quando se traz o open finance, que é o segundo momento do conceito de open banking, a gente pode aproveitar os nossos 30 milhões de clientes, para capturar a mesma participação de mercado que temos no PIX para os outros produtos também. Nesse aspecto, o open finance tende a ser muito bom, ao dar mais informações de produtos aos quais os clientes podem aderir. Também esperamos crescer com o programa de fidelidade lançado recentemente.

Depois de listar as ações na Nasdaq em junho de 2022, o valor do Inter caiu bastante até fevereiro deste ano e depois passou a se recuperar. Em 12 meses, o preço das ações dobrou. O mercado tem avaliado corretamente o valor da empresa?

A precificação de empresas é a coisa mais complexa do mundo. Tem momentos em que ela está certa. Tem momentos em que está errada. Aqui a gente é muito focado em geração de valor para os acionistas independentemente do preço da nossa ação, ou se o analista está mandando comprar ou vender a ação. É uma visão mais de médio e longo prazo. Falo que somos acionistas da empresa, não investidores. O investidor tem, muitas vezes, a visão de curto prazo. Construindo uma plataforma bacana, com escala, rentável e única, criamos algo de um valor muito grande. Assim, as coisas convergem, de forma independente, até do que acontece no cenário macroeconômico. Agora, mesmo os investidores de curto prazo estão vendo valor na empresa.

Ao escolher a Nasdaq como a bolsa do Inter, ele se colocou numa posição global. A escolha foi acertada?

Somos globais. O Brasil é o país mais desenvolvido do mundo em banco digital. Não tem discussão. Temos no Brasil algo para se orgulhar muito. A China é muito forte em loja online, mas estamos na frente em bancos digitais.

Uma grande discussão tem acontecido entre os bancos e as empresas de maquininhas sobre o crédito rotativo do cartão de crédito. Como o Inter se posiciona nesse cenário já que não é um banco tradicional? Vocês e o Nubank parecem mais neutros.

A gente participa ativamente da Febraban, que fala muito como associação de classe. Eu tenho uma visão muito particular, que é uma visão minha e do Inter, sobre o rotativo. Eu acredito cada vez mais numa combinação do comércio com o banco, que é como opera o nosso Inter Shop. A gente vê a discussão de que o parcelado sem juros é uma jabuticaba que só existe no Brasil, o que é uma verdade, que ele não remunera corretamente. Então, o que temos de fazer é trazer o consumidor para utilizar o parcelado sem juros dentro do meu ecossistema. Eu não delego para outros o parcelamento daquela compra. O financiamento ao consumidor, que chamamos de consumer finance 2.0, é como funciona o Inter Shop. Isso significa trazer produtos e serviços para dentro do aplicativo bancário. Com isso, eu melhoro a avaliação de risco do cliente, faço a desintermediação das bandeiras, dos adquirentes, e saio de toda essa briga que estamos vendo aí. Tendo dito isso, estamos bem posicionados qualquer que seja a decisão regulatória ou legislativa sobre o rotativo do cartão.

Ao conhecer o cliente melhor, o banco pode praticar a transação de forma menos custosa?

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Nós conhecemos o cliente melhor e “desintermediamos” a transação. Assim, ela deixa de ter o custo da bandeira, do adquirente e da empresa que faz a análise antifraude. Conseguimos, dessa forma, ter mais retorno sobre o risco das parcelas e uma operação mais rentável.

Como vê o momento econômico, com previsões de baixa de juros pelo mundo?

Estou otimista. Problemas sempre existem. Já passamos pelo pior do ciclo econômico, não só brasileiro, mas também mundial. Quando pensamos, atravessamos uma coisa muito maluca, com essa pandemia, era natural termos uma inflação. Passamos de um mundo em que os processos eram “just in time” (em tempo real) e, de repente, eles deixaram de ser. Os processos precisaram ser reescritos e repensados. Isso é inflacionário demais. Houve inflação no mundo todo, o que obviamente causa impacto no emprego, na taxa de juros, e leva a menos investimentos. Quando rearranjamos de volta o mundo como ele é, as coisas começam a se acomodar, a inflação se ajusta, os juros começam a cair e a confiança volta. Então, entramos num momento bom não só lá fora, como no Brasil. Estou otimista com 2024. Economia é sobre confiança e perspectiva. Quando se volta a confiança, as coisas caminham bem.

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