Macaúba pode ser solução para combustível de aviação sustentável, diz presidente da refinaria Acelen

O CEO da empresa que opera a segunda maior refinaria do País, que está em negociações com a Petrobras, fala sobre projeto de R$ 12 bilhões para criar solução renovável baseada em planta nativa brasileira

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Por Carlos Eduardo Valim
Atualização:
Foto: Sérgio Zacchi/ Acelen
Entrevista comLuiz de MendonçaCEO da Acelen

Uma empresa de energia do fundo global de gestão de ativos baseado em Abu Dhabi Mubadala Capital, a Acelen opera no Brasil a única grande refinaria que não faz parte do sistema da Petrobras. Ao adquirir da estatal brasileira a Refinaria de Mataripe, a segunda maior do país e que era chamada de Landulpho Alves (Rlam), a empresa se tornou responsável por 15% do parque de refino no País.

Durante a COP-28, em Dubai, em dezembro, a Acelen aproveitou para divulgar internacionalmente a criação da Acelen Renováveis, empresa que deverá receber mais de US$ 2,5 bilhões (em torno de R$ 12 bilhões) de investimentos pela próxima década. Os recursos serão usados para a construção e operação de uma biorrefinaria a ser montada ao lado da unidade de Mataripe. O foco principal será produzir, a partir da macaúba, uma planta nativa brasileira com alto potencial energético, diesel renovável e combustíveis renováveis para aviação, conhecido pela sigla SAF (Combustível Sustentável de Aviação, em inglês). Em estudo encomendado pela empresa, a Fundação Getulio Vargas estimou que o projeto terá um efeito multiplicador, que vai movimentar mais de R$ 80 bilhões e criar mais 90 mil empregos diretos e indiretos

Luiz de Mendonça, CEO da Acelen, falou com o Estadão, no fim do ano, sobre como esse projeto multibilionário pode trazer benefícios para o avanço no uso de querosene de aviação mais sustentável. A entrevista aconteceu enquanto transcorriam conversas entre o Mubadala e a Petrobras, que avançaram durante a realização da COP-28, sobre o destino da Acelen.

Com a nova gestão da Petrobras priorizando o refino próprio e cancelando as vendas de operações do tipo, planejadas nos governos anteriores de Michel Temer e Jair Bolsonaro, havia a expectativa de que a estatal avaliaria recomprar a antiga Rlam.

No fim de novembro, o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates confirmou os rumores a afirmou que estava em negociações com o Mubadala, e, então, no dia 22 de dezembro, a estatal comunicou ao mercado que recebeu uma proposta do fundo árabe para a “formalização de discussões recentes sobre a formação de potencial parceria estratégica para o desenvolvimento do downstream no Brasil”. Dessa forma, a Petrobras “avaliará a aquisição de participação acionária” e investimentos futuros conjuntos na Refinaria de Mataripe e na Acelen Energia Renovável.

Sem poder comentar sobre as tratativas com a Petrobras, Mendonça falou sobre o projeto de renováveis da Acelen, que pode receber aportes financeiros da estatal. Leia a entrevista a seguir.

Luiz de Mendonça, CEO da Acelen Foto: Sérgio Zacchi/ Acelen

Como foi a decisão para investir em macaúba para buscar uma alternativa para um combustível de aviação mais sustentável?

A macaúba é uma árvore nativa brasileira que dá um fruto similar a uma noz. A gente consegue extrair tudo dela, como o óleo vegetal, que será a base para o diesel renovável e a querosene sustentável de aviação. Mas também é possível extrair outros químicos, que podem ser usados em várias aplicações, como cosméticos e detergentes. Dá para fazer um farelo, muito rico em proteína, que serve para alimentação humana e animal. E também a casca serve até como como fonte de energia para as próprias plantas de produção. O nosso projeto, que é bem grande, nasceu de uma provocação do acionista, desde o nascimento da Acelen, que é de transformar ela numa líder em energia de transição para um mundo sustentável.

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E como se chegou a essa planta em específico?

Existem pesquisas do potencial da macaúba há 30 anos, em organizações de ponta, como na Universidade Federal de Viscosa, na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), no Instituto Agronômico de Campinas, e há pesquisas em várias universidades estrangeiras. Quando começamos a avaliar as alternativas, decidimos construir uma biorrefinaria do lado da nossa refinaria. No desenho do projeto, pensamos em utilizar óleos vegetais mais tradicionais, como óleo de soja, mas descobrimos o potencial da macaúba, a partir do havia sido pesquisado. Para se ter uma ideia, ela produz de cinco a sete vezes mais óleo vegetal por hectare do que a soja. Ela tem um potencial gigantesco. Então, teremos um enorme projeto de combustível a partir de uma base renovável, integrando a agricultura e a indústria. E exatamente na região onde a macaúba tem uma ocorrência natural bastante forte, na Bahia e no Norte de Minas Gerais.

Como vocês vão trabalhar no plantio nessas regiões?

Vamos focar no impacto socioambiental em recuperar terras degradadas, para aproveitar crédito de carbono. O Brasil tem uma quantidade enorme de áreas assim. E, com isso, temos uma captura de carbono muito importante, com impactos ecológicos e sociais muito fortes nessas regiões.

A produção será toda feita em parceria com as universidades nacionais?

Elas farão parte, mas montamos uma rede de pesquisas com a elite do conhecimento mundial. Era muito importante trazer gente de fora, e vamos ter no projeto também o Instituto Fraunhofer, na Alemanha, a Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e a UC Davis, da Califórnia. A coisa mais importante é que nossa produção vai ser toda certificada, do frutinho até o combustível. Precisamos saber de onde saiu cada gota de combustível, justamente para termos a certificação máxima de crédito de carbono. Para acessarmos mercados muito interessantes, que possuem esses incentivos muito regulados, como os Estados Unidos e Europa, é preciso ter um processo muito forte e o projeto nasce com esta ambição.

Quando o resultado desse projeto começará a aparecer?

Temos dois frentes muito claras. Um mais tradicional é de implementar a biorrefinaria. Entramos na fase final de engenharia, de detalhamento da engenharia, para que, em seis meses, podermos tomar a decisão de construção da fábrica. Ela pode ficar pronta em 24 meses a partir dali. A fábrica começa a operar na segunda metade de 2026 sendo alimentada por óleos vegetais tradicionais, o óleo de soja, que vai ser comprada do Sul do Brasil e da Argentina. Na segunda frente, mais desafiadora, com investimento muito grande em inovação e tecnologia, haverá toda essa questão agrícola. Primeiramente, com a domesticação da macaúba, com a produção de sementes e mudas de alta qualidade. Já iniciamos a implementação de um centro de inovação em Montes Claros, em Minas Gerais. Já compramos a propriedade. Teremos um viveiro de sementes e mudas, e vamos transportar isso para fazendas em quatro ou cinco hubs, em regiões de terras degradadas na Bahia e potencialmente no Norte de Minas Gerais. A macaúba demora uns quatro anos para permitir produção, e com isso vamos gradualmente alimentando a biorrefinaria. Já fizemos testes com a planta, sem ter nenhum problema.

Então, não há preocupação quanto ao risco da produção?

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Não. A partir de um momento, a macaúba terá uma competitividade absurda. Vamos conseguir fazer diesel renovável por um custo supercompetitivo em relação ao próprio diesel fóssil. O preço vai depender da oferta e da procura, e boa parte desse preço hoje é dado por incentivos que podemos capturar com a redução de carbono. Mas o nosso objetivo é produzir um diesel que custe a metade do preço do diesel tradicional, quando chegarmos a 100% de produção por meio da macaúba. Isso vai demorar alguns anos. Precisamos, antes, aumentar a produção de macaúba. Além disso, vamos pemitir uma redução de 80% das emissões de gás carbônico, comparando com o diesel tradicional.

E como será o impacto social?

Cerca de 30% da produção de macaúba deve vir de parcerias e de pequenos produtores, o que vai trazer um impacto social muito grande, e permitir uma renda substancial para essas comunidades. Para termos uma medida do impacto socioambiental do projeto, chamamos a Fundação Getulio Vargas. E o estudo deles estimou um efeito multilplicador enorme, movimentando mais de R$ 80 bilhões em torno do projeto e a criação de mais 90 mil empregos diretos e indiretos. É um projeto pragmático muito bem sustentado, que vai decolar rapidamente.

Como a indústria aérea está recebendo o projeto?

Vamos produzir 1 milhão de litros de querosene sustentável por ano, mas há um interesse muito maior do que isso, de grandes companhias aéreas e da (fabricante de aviões) Airbus. muita gente acordou para a questão da sustentabilidade e está acompanhando com muito interesse o nosso projeto. O ponto importante é como avançar na questão de custo. Não vamos ter uma solução sustentável de aviação de longo curso a não ser quando acharmos um novo combustível. Não temos hoje a solução de eletrificação de avião ou de uso de hidrogenio, que podem levar algumas décadas. A solução é um combustivel que, talvez no começo tenha um custo maior, mas com o ganho de escala pode ficar mais competitivo. Estamos começando, mas vemos potencial de melhorar o rendimento da produção e ir melhorando as sementes, para irmos avançando. Não me preocupo muito pelo lado da demanda. O mundo precisa resolver a questão da matéria-prima e pode ser pela macaúba.

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A transição energética, no entanto, pode demorar, e a Acelen continuará atuando com combustíveis fósseis. Como se espera que essas duas fontes vão conviver pelas próximas décadas?

Quando inventaram o primeiro automóvel, não desapareceram automaticamente os cavalos das ruas. Foi preciso chegar um automóvel barato, de alta escala e competitivo para realmente essa indústria decolar. Na transição energética, deve acontecer um pouco disso. Temos combustíveis mais sujos e que são baratos. E quero ir para uma energia superlimpa, mas que vai ser cara. Se você faz isso de forma desorganizada, alguém vai ficar sem energia no meio do caminho. A beleza do nosso projeto é que tem potencial de ser supercompetitivo e que pode ser escalado rapidamente, além de trazer uma solução nova para a fonte de energia, aproveitando um dos grandes potenciais do Brasil, ao integrar o agronegócio brasileiro à indústria.

Durante a COP-28, a indústria do petróleo foi vista como resistente para um acordo mais amplo para o fim dos combustíveis fósseis. Como vê essa questão?

Num evento como a COP, cada um tem a sua expectativa. Quanto ao texto final, ouvi críticas, mas também muitos elogios. Pela primeira vez, foi mencionada a transição para além dos combustíveis fósseis. É uma conquista. Todo mundo estava preocupado com a questão da transição energética e com a redução da emissão de gases na pegada de carbono. Não gosto muito quando todo mundo vem com um objetivo meio vago, por exemplo, de ter emissões líquidas zero num período de não sei quanto tempo. Precisa haver ações pragmáticas. A COP debateu as questões essenciais. Não se pode aceitar um aumento além de 1,5 grau de aumento da temperatura. Precisamos manter os nossos compromissos. O texto final era o compromisso possível, mas ele cita claramente pela primeira vez a necessidade de uma transição. Podemos criticar que não houve metas precisas, mas isso virá.

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