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Consumo das famílias e investimentos puxam alta de 0,6% no PIB do terceiro trimestre

Setor externo e consumo do governo tiveram contribuição negativa para o resultado da atividade econômica, aponta o IBGE

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Por Daniela Amorim (Broadcast), e Vinicius Neder
Atualização:

RIO - A economia brasileira seguiu seu caminho de recuperação, ainda que lenta, no terceiro trimestre do ano, quando o Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos em determinado período) avançou 0,6% em relação ao segundo trimestre do ano, informou nesta terça-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio dentro do intervalo das estimativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast (de 0,30% a 0,70%), mas acima da mediana, de 0,40%.

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O avanço de 0,6% no terceiro trimestre ante o segundo trimestre do ano foi a maior variação nessa base de comparação desde o primeiro trimestre de 2018, quando a alta foi de 0,7% ante o quarto trimestre de 2017.

Na comparação com o mesmo período de 2018, a alta foi de 1,2%. O resultado ficou acima da expectativa inicial dos analistas, que elevaram suas previsões para o fechamento do ano. A estimativa passou de 1% para 1,2%.

Esse número corresponde à mediana de projeções de um universo de 24 instituições financeiras consultadas pelo Projeções Broadcast. As estimativas vão de um piso de 1% até a máxima de 1,3%. Não houve, porém, mudança para o cenário de 2020. O mercado manteve a aposta de uma variação de 2,3% (considerando a mediana) para o PIB no próximo ano.

Em janeiro, os analistas chegaram a estimar um avanço de até 2,6% para o PIB neste ano, embalados pela expectativa de que o governo pudesse, entre outras medidas, negociar no Congresso a aprovação de reformas consideradas necessárias – o que aconteceu apenas no caso da Previdência. Coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, classificou a recuperação da economia como “uma melhora mais ou menos contínua, mas não muito acelerada”. 

O crescimento foi puxado, sob a ótica da demanda, pelo consumo das famílias e pelos investimentos, enquanto o setor externo e o consumo do governo tiveram contribuição negativa para a atividade econômica, afirmou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

A pesquisadora lembrou que o consumo das famílias responde por 65% do PIB e, por isso, as altas de 0,8% ante o segundo trimestre deste ano e de 1,9% sobre o terceiro trimestre de 2018 sustentam o crescimento do PIB. O consumo das famílias foi impulsionado pela recuperação gradual do mercado de trabalho - que, mesmo sustentada pela informalidade, permitiu o crescimento real da massa salarial real -, pela inflação comportada, pela expansão do crédito para as famílias e pelo nível mais baixo dos juros.

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"Realmente, vimos um crescimento bastante grande do crédito voltado para as famílias", afirmou Rebeca, citando o crescimento nominal de 15,5% no saldo das operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas, conforme os dados do Banco Central.

Além disso, o crescimento do consumo das famílias teve a contribuição da liberação de saques do FGTS, que começou em setembro. Para a pesquisadora do IBGE, como ocorreu apenas em um mês do trimestre, esse efeito pontual foi menor do que os demais fatores.

Segundo economistas, o consumo privado deverá seguir puxando a economia até o fim do ano, deixando para trás as estimativas mais pessimistas para o PIB de 2019. Desde julho, as projeções de mercado para o crescimento econômico deste ano vêm sendo revistas para cima – após passarem de 2,57%, em janeiro, para 0,81%, conforme o Boletim Focus, do Banco Central (BC) – e, hoje, estão em torno de 1,0%

Impulso para o consumo

A lenta recuperação do mercado de trabalho – que, mesmo com a geração de vagas puxada pelo setor informal e com o crescimento tímido da renda, garante alguma elevação no dinheiro total disponível para gastar –, a inflação comportada e os juros nas mínimas históricas dão suporte para o avanço no consumo, que recebeu ainda um anabolizante: a liberação de saques do FGTS.

Autorizados a partir de setembro, ou seja, ainda no terceiro trimestre, os saques de R$ 500 por conta do FGTS foram permitidos para todos os trabalhadores. Inicialmente, o cronograma proposto pelo governo federal distribuiria os saques entre o fim de 2019 e o início de 2020, mas a Caixa antecipou as datas, ampliando o valor total a ser liberado ainda este ano.

Em outubro, o Ministério da Economia estimava que a antecipação liberaria R$ 12 bilhões para impulsionar as vendas de Natal, valor que sobe para R$ 14,5 bilhões quando somado com o pagamento de R$ 2,5 bilhões do 13.º para os beneficiários do Bolsa Família. 

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Segundo a economista Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a lenta melhoria do mercado de trabalho e a expansão do crédito já permitiriam um aumento do consumo das famílias, mas a liberação do FGTS levará o crescimento do principal componente do PIB pelo lado da demanda ao ritmo médio de 1,0% por trimestre na segunda metade do ano.

“R$ 500 pode parecer pouco, mas, dado que a renda real vem crescendo pouco e que não houve reajuste real para o salário mínimo, os saques do FGTS são um ganho real”, afirma Silvia.

Consumo das famílias aumentou 0,8% no terceiro trimestre. Foto: Nilton Fukuda/Estadão - 28/11/2019

O Ibre/FGV projetava um crescimento de 1,3% no consumo das famílias no quarto trimestre, em relação ao trimestre imediatamente anterior, antes de conhecer os dados divulgados nesta terça, pelo IBGE.

O problema, segundo a pesquisadora do Ibre/FGV, é que esse ritmo de crescimento do consumo das famílias de 1,0% por trimestre, esperado para a média da segunda metade deste ano, tende a não se sustentar. A recuperação lenta do mercado de trabalho e a expansão do crédito, com juros baixos, deverão seguir impulsionando o consumo em 2020, mas a um ritmo próximo de 0,5% por trimestre.“Com o crescimento só pautado em consumo e serviços, fica difícil ter mais tração”, afirma a economista Andressa Durão, da gestora Icatu Vanguarda. Para ela, passados os efeitos pontuais da liberação do FGTS, fatores estruturais, como a queda do juro, devem começar a impulsionar a economia, mas o desemprego elevado e a renda contida devam seguir limitando um crescimento mais robusto.

Pelo lado da oferta, o consumo das famílias impulsionou o PIB de serviços, que avançou 0,4% na comparação com o segundo trimestre deste ano e 1% em relação ao terceiro trimestre de 2018. O comércio registrou alta de 1,1% ante o trimestre imediatamente anterior.

O PIB da indústria avançou 0,8% no terceiro trimestre em relação ao período imediatamente anterior, com variações divergentes entre os segmentos. A indústria da transformação encolheu 1%, enquanto a indústria extrativa avançou 12%. Foi a maior alta nessa base de comparação desde o quarto trimestre de 2003, quando o avanço em relação ao terceiro trimestre daquele ano foi de 12,2%.

Segundo a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, o desempenho da indústria extrativa foi puxado pela alta da produção de petróleo e gás, com destaque para o pré-sal. Ainda afetada pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), ocorrida em janeiro, a produção de minério de ferro segue caindo, embora em menor escala, o que também contribuiu para o avanço da indústria extrativa. 

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“É um efeito conjunto: o minério caiu menos e o petróleo e gás cresceu bastante”, afirmou Palis, ressaltando que o efeito do petróleo foi maior porque essa atividade representa 65% da indústria extrativas.

O crescimento da construção civil, puxado pelo setor imobiliário, se refletiu, pelo lado da demanda, no avanço de 2% da formação bruta de capital fixo (FBCF, conta dos investimentos no PIB) na passagem do segundo para o terceiro trimestre. Na comparação com o terceiro trimestre de 2018, os investimentos cresceram em 2,9%.

“É o setor (a construção civil) que está realmente fazendo uma diferença. Temos bons números de lançamentos de novos imóveis, de início de novas construções, além das concessões que devem significar um impulso na infraestrutura”, diz o economista-chefe do Banco BRP, Nelson Rocha Augusto.

Ainda assim, Matos, pesquisadora do Ibre/FGV, acha que um cenário de atividade econômica crescendo puxada pelos investimentos ficará para 2021. Mesmo na construção, os investimentos estão mais localizados no segmento imobiliário de alto padrão e a alta recente do dólar pode inibir aportes em máquinas e equipamentos importados. / COLABORARAM THAÍS BARCELLOS E CÍCERO COTRIM

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