Por que tantas incorporadoras de prédios de luxo querem o Pininfarina, estúdio de design da Ferrari?

Coautora de mais de 30 empreendimentos em diversos cantos do Brasil, marca de design italiana transforma a silhueta de áreas nobres e fomenta o movimento de ‘branded residences’ no País

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Foto do autor Breno Damascena
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A Pininfarina, famosa por designs de carros como Ferrari, consolidou-se no mercado imobiliário de luxo no Brasil, com projetos como o Yachthouse em Balneário Camboriú. A parceria com incorporadoras como Pasqualotto & GT e Cyrela resultou em empreendimentos icônicos, destacando-se no movimento de branded residences. A marca italiana agrega valor e exclusividade, atraindo compradores de alto padrão e valorizando imóveis em até 30%. O Brasil é o maior mercado da Pininfarina no setor imobiliário devido à afinidade cultural e materiais locais.

De modelos icônicos da Ferrari à fachada de prédios suntuosos, a italiana Pininfarina desembarcou no Brasil há mais de uma década e se consolidou no mercado imobiliário de luxo. Incorporadoras de alto padrão ostentam o nome da marca em projetos milionários que estão transformando a silhueta de áreas nobres e fomentando o movimento de branded residences no País.

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O Yachthouse by Pininfarina, prédio mais alto do Brasil, é um dos símbolos da grife. Entregue em 2023, o empreendimento desenvolvido pela Pasqualotto & GT se tornou um marco da opulência de Balneário Camboriú (SC). Com 294 metros de altura, o projeto engloba 264 apartamentos que podem custar de R$ 9 milhões a R$ 70 milhões e teve uma das coberturas compradas pelo jogador Neymar Jr.

“Em meados de 2012, adquirimos este terreno em uma área muito privilegiada, a menos de cem metros do mar. Decidimos construir um produto com acabamento premium e que tivesse uma estética atemporal. Para isso, precisávamos de uma assinatura marcante. Assim, chegamos à Pininfarina”, detalha Alcino Pasqualotto Neto, presidente da companhia.

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Paixão automobilística aumenta o impacto de um produto assinado pela Pininfarina, diz Alcino Pasqualotto Neto, presidente da construtora do maior prédio do Brasil Foto: Angelo Borba/Divulgação Pasqualotto & GT

O executivo afirma que a parceria foi determinante para o sucesso comercial da empreitada. “A localização do prédio atrai o comprador, enquanto o conceito do edifício transmite o seu valor”, comenta. “Como o brasileiro ama o setor automotivo, sabíamos que essa conexão transmitia a percepção de qualidade aos nossos compradores”.

A Pasqualotto & GT possui três empreendimentos no portfólio, todos assinados pela Pininfarina, o que ajuda a ilustrar o tamanho da fatia de mercado abocanhada pela empresa, que tem o Brasil como maior mercado no setor imobiliário. Entre edifícios já entregues ou em desenvolvimento, a companhia possui mais de 30 projetos arquitetônicos no País.

Primeiros passos no Brasil

A simbiose entre a Pininfarina e o Brasil começou com um projeto em parceria com a Cyrela aprovado em 2014, o Cyrela by Pininfarina, em São Paulo. Entregue em 2018, aquele foi o primeiro projeto autoral da empresa italiana na América Latina. Localizado nas redondezas da Faria Lima, o prédio com linhas curvas e design simétrico ajuda a ilustrar o conceito que norteia os projetos da marca.

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“Este foi o nosso ponto de partida. Quando os desenvolvedores viram que também éramos capazes de desenhar prédios bonitos, e que eles vendiam rápido, outras empresas começaram a nos procurar”, conta Claudio Da Soller, vice-presidente e diretor-geral da Pininfarina no continente americano. “Agregamos o aprendizado de design da indústria automobilística à arquitetura e, por isso, tentamos trazer formas únicas”, observa.

Segundo Soller, o bom desempenho e o interesse pela marca são potencializados pelo movimento migratório. “Há uma forte afinidade cultural do Brasil com a Itália e com o estilo de vida italiano. Existe, também, o desejo dos incorporadores de dar um toque internacional para destacar os diferenciais de um edifício de alto padrão”, sintetiza o executivo.

Epic by Pininfarina será o maior prédio residencial de São Paulo, com 210 metros de altura Foto: Divulgação/Cyrela

Depois do primeiro projeto, a Pininfarina se tornou parceira costumeira da Cyrela. Ao todo, são oito projetos em conjunto, incluindo o luxuoso Heritage Cyrela by Pininfarina, com vidros curvos e apenas um apartamento por andar, no Itaim Bibi; e o Riserva Golf, com unidades de até 1.308 metros quadrados e direito a um campo de golfe, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

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O mais grandioso de todos será o Epic Cyrela by Pininfarina. Com 210 metros de altura e vista para o Jardim Europa, será o maior prédio residencial de São Paulo, tem um Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 2 bilhões, justificado pelo preço médio do metro quadrado negociado a mais de R$ 34 mil. No estande de vendas, a Cyrela disponibiliza um carro da Ferrari com simulador para experiências imersivas em vídeo.

“Cada novo capítulo dessa colaboração (com a Pininfarina) aprofunda o compromisso com o design, exclusividade e legado”, afirma Efraim Horn, copresidente da Cyrela. Não à toa, a grife italiana também é responsável por projetar o Cyrela Corporate, primeiro edifício corporativo da incorporadora e que vai abrigar a sede da empresa a partir do terceiro trimestre de 2026. Outros dois projetos com a grife ainda estão sob sigilo.

Empréstimo de autoridade e apelo internacional

Fundada há quase cem anos, a Pininfarina é uma empresa italiana de design conhecida globalmente por desenhar modelos da Ferrari, da Maserati, da Alfa Romeo e da Peugeot. Segundo Silvana Scheffel, professora do Hub de luxo da ESPM, esse histórico e o reconhecimento internacional da marca são ferramentas utilizadas pelas incorporadoras para atribuir valor aos empreendimentos.

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“Essas empresas se posicionam perante o mercado internacional, além de garantir aos ultrarricos que eles encontrem no Brasil experiências e produtos que, de outra forma, não estariam disponíveis”, comenta.

Neste cenário, ela observa, a Pininfarina tem uma vantagem competitiva por ser uma empresa de design. “A estética tangibiliza experiências ao trabalhar com o imaginário das pessoas e transformar em peça um desejo subjetivo”, diz.

O conceito de desenvolver empreendimentos imobiliários com a assinatura de marcas globais é batizado de branded residences. No Brasil, a tendência ganhou fôlego nos últimos anos, mas o movimento já se consolidou mundo afora.

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Dados da consultoria Savills indicam que existem 740 empreendimentos do tipo já concluídos no mundo, enquanto outros 790 têm previsão de entrega até 2031. Dominado por grandes conglomerados hoteleiros, como o Marriott e o Accor, que possuem mais de cem projetos no portfólio, o segmento vem atraindo marcas de setores distantes do imobiliário.

As companhias Yoo, Pininfarina e Trump se destacam como líderes procedentes de outros segmentos, todas com mais de 40 projetos já entregues ou em desenvolvimento.

Nas Américas, porém, nenhuma marca é tão significativa como a Pininfarina. Um estudo da Savills mostra que ela é a marca com mais projetos de branded residences no continente.

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Por trás dessa afluência global, a perspectiva de projetos cada vez mais lucrativos. A tendência começou principalmente em cidades como Dubai, Miami e Nova York, mas agora municípios brasileiros como São Paulo e Balneário Camboriú seguem esta tendência, analisa Lucas Reis, sócio de real estate da consultoria Portofino Multi Family Office.

“O incorporador tenta trazer um parceiro para vender o seu produto a um público que se identifica com aquela marca. Ele constrói uma narrativa de pertencimento”, afirma Reis. “Em São Paulo, vemos a REM Construtora com a Artefacto, a Mitre Realty com a Daslu e a Gafisa com a Allard, por exemplo, como empresas trazendo glamour para a incorporação”, ilustra.

Valorização dos projetos

O executivo estima que os branded residences cheguem a custar de 20% a 30% a mais do que imóveis tradicionais. A própria Pininfarina, por sua vez, calcula que a assinatura da marca representa uma valorização de 15% a 30% no preço do imóvel. A resposta para a valorização, segundo Reis, está na exploração dos diferenciais e na reinvenção da experiência de venda.

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No mercado de luxo, em que os projetos costumeiramente possuem atributos e comodidades semelhantes, não basta só realizar um lançamento, ele diz. “Hoje, você tem muita oferta no alto padrão. Portanto, é preciso trazer mais experiências, entender a cabeça do comprador e agregar valor ao produto para se diferenciar da concorrência”.

Por outro lado, ele argumenta que esse movimento pode representar um risco para a incorporadora. “O empresário precisa entender se aquela conexão realmente faz sentido para o público que ele deseja atingir”, alerta. A Pininfarina não informa os valores cobrados pelos projetos ou se continua lucrando com os empreendimentos depois de entregues, mas afirma ser cautelosa na escolha dos clientes e explica que cada contrato tem cláusulas particulares.

“Cada contrato é diferente e cada relacionamento é diferente. Não posso dar detalhes por causa da confidencialidade, mas o licenciamento da marca é bastante regulado e permite ao cliente utilizar a marca em termos específicos ou durante um período de tempo, além de restrições com o logotipo, gráfico, comunicação etc”, diz Soller, da Pininfarina. “Somos muito cuidadosos porque é a nossa reputação”.

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A justificativa para a empresa ter encontrado no Brasil seu maior mercado na atuação imobiliária, segundo Soller, é a profusão de elementos naturais. “O Brasil tem materiais excepcionais para a construção e o design de interiores, como madeiras, mármore e pedras exclusivas”, argumenta. “A afinidade cultural, os materiais disponíveis e a forma como os brasileiros entendem o design são a chave do sucesso da Pininfarina no País”, sugere.

Emoção, realização e lucro

Além dos atributos práticos e calculáveis, existem justificativas imateriais por trás do encontro entre a Pininfarina e grandes incorporadoras brasileiras. A conexão do empresário André Penazzi com a empresa, por exemplo, começou bem antes dele anunciar o lançamento de um empreendimento de luxo assinado pela marca em João Pessoa, na Paraíba.

À frente da incorporadora Setai Grupo GP, Penazzi é colecionador de carros e proprietário de sete modelos diferentes de Ferraris, agora estacionadas no showroom do Setai Residences Design by Pininfarina. Com VGV de R$ 500 milhões, o edifício será um complexo residencial com três torres, unidades de até 300 m² e as linhas curvas típicas da marca de design.

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Em João Pessoa, o Setai Residences tem assinatura da Pininfarina e VGV de R$ 500 milhões Foto: Divulgação/Setai Grupo GP

“Quando um prédio da Pininfarina surge em uma região logo os outros edifícios passam a ser conhecidos como ‘vizinho do Pininfarina’”, alega Penazzi. “Existe um universo muito exclusivo, de altíssimo padrão, onde uma marca deste tamanho naturalmente envolve os clientes e atrai compradores. Conseguimos atribuir um valor acima do mercado, apoiado na arquitetura diferente”, detalha.

Localizado no Altiplano, bairro nobre da capital paraibana, o Setai Residences tem o metro quadrado negociado a R$ 20 mil. Em comparação, o preço médio do m² na região, segundo o Índice FipeZAP, está avaliado em R$ 8,9 mil. “Construir um produto desses é trazer um pedaço legítimo do alto padrão para o nosso mercado regional”, alega o empresário.

A perspectiva de morar em um Pininfarina também foi o que motivou Henrique Blecher, CEO da incorporadora Origem, a procurar a marca. “Sempre fui apaixonado por carros e, como toda criança, sonhava em ter uma Ferrari. Quando tive a oportunidade, não hesitei em chamá-los para desenvolver o primeiro projeto no Rio de Janeiro”, relata.

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Do briefing à realização, a Pininfarina esteve presente em toda a concepção do Atto Design, conta Henrique Blecher, CEO da incorporadora Origem Foto: Divulgação/Origem Incorporadora

O residencial Atto Design by Pininfarina reúne 20 unidades com metragens entre 452 m² e 1.189 m² e uma cobertura triplex com valor aproximado de R$ 80 milhões. Localizado em um terreno à beira-mar na Barra da Tijuca, o Atto é o primeiro empreendimento assinado pela Pininfarina no Rio de Janeiro e se apoia numa ideia de quiet luxury.

“Não tem nada ali que seja pensado apenas pelo lado estético. Tudo é pensado a partir da funcionalidade e pela experiência que o cliente terá com a arquitetura”, alega Blecher. “Com a Pininfarina, trouxemos uma estética com personalidade, curvas e retas para a cidade. Provocamos o mercado a sair da caixa, buscar novas alternativas”, entende.