Cerveja, geleia, azeite: produtos com frutos da caatinga conquistam paladar nacional e estrangeiro

Sabor de frutos do sertão da Bahia atrai consumidor, mas empreendedores ainda enfrentam desafio para garantir rotatividade de compra e diversificação de vendas

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Por Jayanne Rodrigues
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O sabor diferenciado do umbu, do licuri e de vários frutos nativos da caatinga atraem, de cara, o consumidor. Mas um desafio antigo para pequenos e médios empreendedores é fidelizar o cliente. Pensando em superar esse obstáculo, cooperativas do sertão da Bahia têm investido na diversificação dos canais de venda e no aprimoramento do e-commerce para conquistar o público e, mais que isso, garantir espaço no mercado nacional.

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A Bahia é líder no Nordeste em número de cooperativas, segundo anuário de 2022 da Organização das Cooperativas Brasileiras. Um total de 185 estão cadastradas na base do órgão. Em termos de segmento, a agropecuária é o principal ramo, conforme indica pesquisa mais recente. A Cooperativa Regional de Agricultores Familiares e Extrativistas da Economia Popular e Solidária (Coopersabor) e a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) são grupos que comprovam que a demanda existe para posicionamento local e nacional das marcas.

De gosto levemente azedo e cheiro adocicado, o umbu se tornou o carro-chefe da Coopercuc. O fruto é aproveitado em sucos, polpas, sorvetes, geleias e até cervejas. Criada em 2004 com a união de 44 produtores rurais, a cooperativa elevou em mais de sete vezes a quantidade de colaboradores e, hoje, soma 290 cooperados.

O grupo realizou a primeira exportação no final de 2021 (cerca de 3 mil potes de doces de banana com maracujá e goiaba com acerola) para a Alemanha. A meta é ampliar o comércio com América Latina, Europa e Ásia, em especial, China e Emirados Árabes Unidos. “Temos cinco projetos de exportação e estamos participando de várias rodadas de negócio”, conta Dailson Andrade, gerente-geral da Coopercuc.

Hoje a agroindústria da cooperativa, situada em Uauá, a 425 quilômetros de Salvador, tem capacidade de processar 800 toneladas por ano e é responsável pela produção de 80% dos produtos. O restante é operado por empresas terceirizadas. O volume é suficiente para atender a um mercado que, no ano passado, gerou faturamento de R$ 3,5 milhões.

No caso da Coopersabor, a receita de 2022 foi de R$ 2,7 milhões. Nesse caso, o foco da cooperativa no curto prazo é priorizar a venda no Estado e melhorar a base produtiva, sem pretensões imediatas de alcançar maior escala nacional. Os investimentos no marketplace buscam dar ênfase aos canais de venda consistentes com os valores do grupo. “Temos muita preocupação em quem vende, buscamos sites que valorizam a agricultura familiar para não fugir do nosso princípio”, diz o presidente da cooperativa, Charles Conceição.

Nada disso, no entanto, significa que os produtos comercializados estejam limitados ao território baiano. No ano passado, por exemplo, foram exportadas 14 toneladas do licuri – coco em miniatura in natura – para a China. O fruto, um dos 20 produtos distribuídos pela cooperativa fundada em 2014, é base para a produção de cerveja, azeite, balinha, óleo e tapioca granulada.

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A partir do licuri, coco em miniatura de sabor adocicado, é produzida a cerveja do fruto. Assim como a Coopercuc, a Coopersabor terceiriza o processo de fermentação da bebida, que custa em torno de R$ 26 reais, a unidade. Foto: Anna França/Estadão

Juntos, os produtos ajudam a garantir o sustento de 139 cooperados e 600 famílias, que atuam desde a colheita da fruta à fabricação, com participação plena de redes de articulação e cooperativas parceiras. “O foco é fortalecer a complementação de renda dos agricultores que estão na zona rural”, diz Charles. A criação de três agroindústrias (doces, extração de óleo de licuri e laticínios), com certificado para produção em maior escala, estão nos planos para 2023.

Geração de renda

A agricultora Perpétua Barbosa, de 64 anos, conta que “desde novinha” trabalha no campo em plantações de umbu, mandioca, feijão, melancia, além de criar bode, galinha e porco. Moradora da comunidade Serra da Besta, no interior de Uauá, ela é uma das cooperadas e fundadoras da Coopercuc. Há 18 anos na cooperativa, ela viu a vida da família e dos sete filhos mudar com a chegada de organizações em prol do Semiárido brasileiro.

“Antes o povo maltratava o pé de umbuzeiro”, diz Perpétua. Naquela época, ela vendia para o que chama de “atravessador”, que comprava os produtos pelo preço que queria. “Não tinha como ter renda de nada.” A agricultura familiar e a agrocaatinga só foram incorporadas no cotidiano dela e de outra famílias depois da união de pequenos produtores rurais da região.

Agora, com técnicas de plantio, conservação e de várias culturas no mesmo local, usam potencialidades e alternativas do clima para conviver com a seca fora do período de chuva.

Dona Perpétua, 64, relata que teve a sua renda transformada após a criação da cooperativa, quando se tornou possível vender o fruto colhido por um preço justo. Foto: William França/@imburanatec/Divulgação Coopercuc

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Na prática, a trabalhadora vende matéria-prima para a Coopercuc, no caso, o umbu. A safra do fruto dura em torno de quatro meses. Em 2022, Perpétua chegou a entregar seis caixas de umbu por dia, com 23 quilos cada. Enquanto espera a nova safra de umbu, ela trabalha na colheita de macaxeira e maracujá do mato. “Até onde os pés e braços puderem mexer vou continuar.”

Digitalização

Para levar os frutos colhidos no interior da Bahia para qualquer região, a Coopercuc redirecionou investimentos para garantir a entrada no mercado nacional. Hoje, produtos do grupo podem ser encontrados em 23 Estados, seja por meio de redes de varejo – estão em 40 unidades do Pão de Açúcar e em 120 do Carrefour – ou pelo e-commerce e marketplace.

“Se um cliente pede 10 potes de geleia conseguimos entregar com eficiência, mas se solicita um pote de doce, vamos ter dificuldade. Porque o nosso modelo de negocio é vender para empresas”, diz o gerente da Coopercuc, Dailson Andrade, acrescentando que pretendem furar essa bolha.

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O olhar para o digital recebeu mais atenção após a pandemia e virou uma grande aposta. Antes, as vendas eram pulverizadas entre empresas, consumidor final e venda para projetos governamentais, como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

No caso da Coopercuc, o marketplace e o e-commerce se tornaram aliados para elevar a rotatividade de compra por causa dos produtos diferenciados que comercializam, a exemplo do umbu. “Não é como arroz e feijão. O desafio não é o consumidor comprar a primeira vez, mas se encantar na segunda, terceira, quarta vez”, diz Andrade. Nesta semana, a cooperativa lançou uma plataforma para venda de produtos na internet para o Brasil.

O Armazém da Caatinga é referência em produtos da agricultura familiar e da economia solidária. Com espaço físico na orla nova de Juazeiro, norte da Bahia, e uma franquia em Uauá, o comércio tem uma loja virtual que reúne 14 cooperativas do cerrado, da região amazônica e do sertão baiano, incluindo a Coopercuc e a Coopersabor. O local funciona como uma porta de comercialização para os grupos e os instiga a criar produtos estruturados para venda. Nas prateleiras físicas, são oferecidos em média 400 tipos de produtos.

Inaugurado fisicamente em abril de 2022 e, virtualmente, em novembro do mesmo ano, o empreendimento só não vende no site carnes congeladas, peixes e queijos. Entre os itens comercializados, estão cajuína do Piauí, alimentos à base de milho, iogurte, derivados de mandioca, artesanato e vestimentas. O envio para todo o País ainda é recente, por isso, ainda não resulta em um faturamento muito alto, afirma Denise Cardoso, coordenadora institucional do Armazém.

O espaço está localizado à beira do Rio São Francisco, onde os clientes podem ter uma experiência alimentar com cardápio personalizado interligado a comidas regionais, como carne de bode com molho de licuri. Denise avalia que o Armazém desempenha um papel importante no fortalecimento de cooperativas com base agroecológica para além do território baiano. “O espaço é uma vitrine de viabilidade de negócios e permite que alcancem mais pessoas. É muito mais que uma loja”, diz.

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