Projeto de Niemeyer: ‘Comprei o apartamento aos 17 e vou receber aos 74 anos’

Aposentado francês Gérard Scerb comprou prédio no Rio na planta em 1969 e só deve receber o imóvel em 2025

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Por Bruna Klingspiegel
Atualização:
4 min de leitura

Em 1969, o francês Gérard Scerb tinha apenas 17 anos quando o projeto de um complexo de residências, nomeado Centro da Barra, foi concebido por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Ele trabalhava como professor na Aliança Francesa, em São Paulo, quando comprou um apartamento na planta da Torre H, no Rio de Janeiro. Hoje, após mais de 50 anos de espera e longas disputas judiciais, aos 72 anos, o aposentado espera aproveitar a vista da cidade maravilhosa que tanto sonhou. Como a previsão é de entrega em 2025, ele terá 74 anos.

A história do imóvel é complexa. Também conhecido como Athaydeville, originalmente o prédio compunha um projeto de ocupação do bairro que previa a construção de 76 torres cilíndricas de 37 andares, seguindo o desenho de Niemeyer, com jardins planejados pelo paisagista Burle Marx. A expectativa era inaugurar as primeiras unidades do complexo em 1974, com todas as obras concluídas até 1980.

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O aposentado tinha apenas 17 anos quando comprou o apartamento na planta Foto: TABA BENEDICTO/ ESTADAO

Mas a história tomou um rumo diferente. A construção começou em 1970, mas foi paralisada por problemas financeiros da construtora do empresário Múcio Athayde. Somente quatro torres foram erguidas, sendo que duas foram entregues, uma demolida e outra - a Torre H - abandonada por 53 anos.

Segundo Gerônimo Leitão, autor do livro “A construção do eldorado urbano”, sobre o plano piloto da Barra da Tijuca, além de todos os problemas judiciais envolvendo a construção, não houve uma aceitação como se esperava dessas torres circulares como solução habitacional. “Na época, elas geraram um estranhamento por parte do público-alvo do projeto”, explica ele, que também é professor do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Segundo ele, apesar da vista deslumbrante, as seções circulares e os apartamentos em formato de “pizza” não agradaram os possíveis compradores da época.

Gérard Scerb adquiriu o apartamento ainda na planta e conta que na época a publicidade sobre o prédio era muito grande. Os jornais estavam cheios de propagandas dos apartamentos e a construtora fazia uma extensa campanha de divulgação prometendo um “paraíso ocupado” onde você não comprava um apartamento, mas sim um “estilo de vida”.

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“Eu acreditei nesse empreendimento”, conta o ex-diplomata. “Não achei que iriam entregar as 76 torres, mas ao menos achei que entregariam alguma.”

Gerard Scerb guarda todos os documentos e recortes de jornais da época em que adquiriu o apartamento na Barra da Tijuca. Foto: TABA BENEDICTO/ ESTADAO

Em meio a um imbróglio judicial, a única torre inacabada ficou anos vazia até que, em 2004, cerca de 300 famílias a ocuparam. O prédio logo foi retomado e a empresa de Athayde que enfrentava problemas financeiros, declarou falência no ano seguinte, em 2005.

O empreendimento foi incorporado neste ano pela brasiliense Capital 1, que adquiriu 85% dos apartamentos. Os outros 15% ficaram sob posse dos antigos compradores. O projeto foi relançado com o nome de Niemeyer 360º e tem previsão de entrega para 2025.

Esperança de conclusão

A construção permaneceu parada por tanto tempo que Leonardo Goldfeld nem imaginava que um dia desfrutaria dos apartamentos adquiridos por seu pai há mais de 20 anos. “Para mim, aquilo ali estava completamente esquecido”, relata ele.

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O pai de Leonardo, Fichel Goldfeld, comprou três apartamentos em um leilão na esperança de que uma incorporadora concluísse o projeto. A ideia era que isso se tornasse um investimento sólido e que, no futuro, seus filhos morassem no prédio. Ele faleceu em 2012 sem saber que o empreendimento poderia ser finalmente concluído.

Leonardo Goldfeld, juntamente com sua mãe e irmão, herdou três apartamentos na Torre H. Após 40 anos, a incorporadora brasiliense Capital 1 assumiu o empreendimento, e estabeleceu a entrega do empreendimento para dezembro de 2025. Foto: PEDRO KIRILOS

“Lembro da decepção no olhar dele sempre que passávamos por lá”, conta. “Ele falava dos apartamentos, mostrava para a gente. Era uma mistura de decepção, por não ver o projeto progredir conforme esperado, e de esperança de que um dia seria algo incrível e aproveitaríamos a vista sensacional.”

Leonardo Goldfeld espera que os apartamentos possam ser a casa dos seus filhos ou dos seus sobrinhos no futuro.

Segundo o sócio fundador da Capital 1, Antonio Osório, o investimento total para a reconstrução do empreendimento é de R$ 150 milhões.

Além disso, os antigos compradores também estão arcando com uma parte do projeto. Com previsão de entrega em dezembro de 2025, o Niemeyer 360º ressurge com 448 apartamentos e oferece uma área de lazer, incluindo uma das maiores piscinas do Rio de Janeiro, sauna, academia, churrasqueiras e um espaço gourmet com coworking. O projeto é assinado pelo bisneto de Oscar Niemeyer.

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