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Opinião|Sobre meninas, ciência e boas notícias

Embora as notícias ruins possam dominar as manchetes e a atenção pública, é importante reconhecer que também há muitas coisas boas acontecendo no mundo

Atualização:

Em seu artigo “As Sete Leis Do Pessimismo”, o professor Maarten Boudry, da Universidade de Ghent afirma que ao olharmos para 2023 pelo espelho retrovisor veremos um dos melhores anos da história e que a mesma coisa poderia ter sido dita a cada ano, desde o início do milénio (com exceção dos anos pandêmicos de 2020 e 2021). E defende sua conclusão: “Nunca tantas pessoas viveram com riqueza, segurança e boa saúde. Ele não fecha os olhos para os horrores das guerras - Ucrânia, Gaza, Sudão, Iémen etc. Ainda assim, elas por elas, o ano passado, provavelmente, foi o melhor da humanidade. Embora não pareça assim... É paradoxal. Então, se a vida está melhor por que o mundo parece tão deprimente?” Um dos culpados é a mídia, declara Boudry.

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E aí nos perguntamos: Por que as pessoas dão mais importância às notícias ruins do que às boas? Há várias razões para isto, segundo especialistas. Por exemplo, as pessoas têm uma tendência natural a prestar mais atenção e a se lembrar mais das informações negativas do que das positivas porque evocam emoções fortes. Notícias ruins provocam medo, e este desempenha um papel crucial na vida humana, pois é uma resposta natural a situações percebidas como ameaçadoras. Esse instinto de sobrevivência tem sido vital ao longo da evolução da espécie humana.

Tal herança desemboca na indústria da mídia. De fato, notícias ruins muitas vezes têm um valor noticioso mais alto do que as boas, porque geralmente envolvem eventos incomuns, dramáticos ou perturbadores. Sendo assim, tendem a atrair mais a atenção do público e gerar mais engajamento.

Embora as notícias ruins possam dominar as manchetes e a atenção pública, é importante reconhecer que também há muitas coisas boas acontecendo no mundo. A avaliação de se o mundo melhorou nos últimos 50 anos é complexa e depende de muitos fatores. Mas claramente, em várias áreas, houve progressos notáveis. Relembrando apenas alguns:

· Saúde: Avanços na medicina e na tecnologia médica levaram a uma significativa redução na mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida e erradicação ou controle de várias doenças infecciosas.

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· Educação: O acesso à educação tem se expandido em muitas partes do mundo, resultando em taxas de escolaridade mais altas e mais oportunidades educacionais para pessoas de todas as idades e origens.

· Redução da pobreza: Houve redução da pobreza extrema no mundo que caiu de 64% (ano 1964) para 9% (ano 2015), com uma proporção maior da população global tendo acesso a recursos básicos, como água potável, saneamento e eletricidade.

· Tecnologia e conectividade: Avanços tecnológicos, como a internet e dispositivos móveis, transformaram a maneira como as pessoas se comunicam, trabalham e acessam informações, tornando o mundo mais conectado e acessível.

· Direitos humanos: Em muitos lugares, houve avanços nos direitos humanos, com uma maior conscientização e luta contra a discriminação com base em raça, gênero, orientação sexual e outras características.

Tudo isso, em maior ou menor grau, ocorreu também no Brasil. Fazemos parte dos países em que esses indicadores mostram evolução. Claro que existem desafios persistentes e novos problemas que surgiram nas últimas décadas, e há muito trabalho a ser feito para resolver questões locais e globais, para garantir um futuro mais justo e sustentável para todos. Mas o fato é que avançamos!

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E isto vale também para as conquistas das mulheres. A Revista Fortune 500, que contém as 500 maiores corporações dos Estados Unidos, publicou que nunca tivemos tantas mulheres em cargos de CEO: no ano de 1998 havia apenas uma, e no ano de 2020 já eram 37.

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Se observarmos quantas mulheres já ganharam Prêmio Nobel salta aos olhos a pouca representatividade feminina entre os laureados. Até 2023 apenas 63 mulheres ganharam o Prêmio Nobel contra 901 homens, desde a criação do prêmio em 1901. No entanto, nos últimos 50 anos aumentou o número de mulheres cientistas no mundo. Políticas de igualdade de gênero, programas de incentivo à participação feminina na ciência e uma mudança de atitudes sociais têm contribuído para esse aumento.

Tal constatação vale também para o Brasil, pois nos últimos 50 anos aumentou o número de mulheres cientistas no nosso país. Políticas governamentais, programas de incentivo à participação feminina na ciência, além do crescente reconhecimento da importância da diversidade de gênero nas pesquisas, têm contribuído para esse aumento. Os números são eloquentes: mais mulheres do que homens estão completando seus doutorados no Brasil.

Sim, ainda existem desafios persistentes que precisam ser superados para alcançar uma verdadeira igualdade de oportunidades e representação na ciência.

E por que resolvi escrever nesta coluna sobre estes assuntos? Por que estamos no mês de março, marcado por ser o mês comemorativo das mulheres? Também, mas não só.

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O que me inspirou foi uma situação vivida na viagem que fiz durante o Carnaval deste ano. Sou fã de ecoturismo e turismo de aventura. E embarquei então para Serras Gerais, no estado do Tocantins. Alojamento em tendas do chamado Safári Camp. Nada de internet nem no Camping e nem durante os longos e sacolejantes percursos feitos de ônibus nas estradas de terra. Era um grupo extremamente simpático de várias famílias com filhos adolescentes. Durante os trajetos para os passeios, trilhas, cachoeiras, cânions etc. - sem internet – o remédio era conversar.

E foi assim que, papeando com a adolescente que ia ao meu lado no ônibus, pude conhecer a história de Tarsila Schultheis Trevisan Assolini, uma menina de 14 anos, que estuda no Colégio Stocco, localizado em Santo André, São Paulo. Ela está no 9º ano do Ensino Fundamental e tem uma bolsa de iniciação científica júnior do CNPq para pesquisar “foguetes”. Uau, foi minha expressão quando ela me contou do que mais gostava na escola.

Ter escolas com boa estrutura e professores bem-preparados é fundamental para estimular aprendizado da ciência entre jovens.  Foto: Monkey Business - stock.adobe.com

Então perguntei se ela havia tido algum modelo na família, alguma mentora feminina na ciência que a tivesse inspirado em suas aspirações científicas. Ela disse que não, os pais são jornalistas. Conhecia um único nome científico feminino, que era Marie Curie, mas nem sabia exatamente o que ela tinha feito. Hoje em dia já sabe. O fato é que integrou um grupo com outras 4 meninas da escola, denominado “Stock Girls Robots”, e foi assim que se tornaram campeãs numa competição nacional.

Tal grupo fazia um trabalho em escolas públicas e ensinava robótica para as meninas, para poder trazer justamente mais meninas para a área científica, onde o público feminino é muito menor. Conseguiu ver isso indo às competições e diz ficar muito feliz de notar que a participação de meninas está sim aumentando; mas ainda é um número muito inferior em relação à quantidade de meninos que frequentam as competições nessa área.

Na escola na qual Tarsila estuda há um MakerSpace de Robótica, onde qualquer aluno ou aluna que se interessar pode frequentar. O professor Luís Gustavo Cordeiro Alves orienta e apoia todo mundo que queira fazer um projeto. “Ele é muito aberto”, enfatizou Tarsila.

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E acrescentou: “Eu acho muito divertido, eu adoro. Eu passo o dia lá, almoço e já vou para o Maker. Fico lá até às 6 da tarde fazendo as atividades, porque é muito legal, eu adoro, eu me sinto realizada. Nossa, eu chego feliz de lá porque é algo que eu gosto de fazer. O professor Luís sempre faz questão de nos estimular a participar de competições. Encoraja a gente mesmo. Ele lidera e motiva todo mundo. E foi assim que comecei a participar de competições locais e depois nacionais.”

No ano passado, Tarsila e seu grupo fizeram um projeto de satélite. Seu interesse por foguetes surgiu convivendo com amigos que faziam foguetes e participavam da Mostra Brasileira de Foguetes. Daí decidiu que também queria fazer foguetes. Montou um grupo que fez os foguetes e assim se classificaram para uma importante competição no Rio de Janeiro, onde acontece a Jornada de Foguetes.

Ganharam a medalha de ouro, com o foguete que voou 241.3 metros. E ela passa toda a emoção em seu depoimento: “Quando a gente escutou que tínhamos ganho, começamos a pular, a nos abraçar, de tanta felicidade.” Mas foi alguns meses depois da cerimônia de premiação e de ganhar a medalha de ouro em outubro de 2023, que veio um convite inusitado. Em janeiro deste ano ela foi convidada para entrar no processo de seleção de bolsa de pesquisa do CNPq.

Embora a bolsa seja voltada para o Ensino Médio, abriram uma exceção para o Ensino Fundamental. Preencheu o Currículo Lattes, fez planilhas e mais duas tarefas exigidas, até que veio a resposta do CNPq concedendo a bolsa de iniciação científica júnior.

Há responsabilidades com a bolsa. A cada quatorze dias recebe uma circular com 2 ou 3 tarefas para entregar no prazo. São pesquisas a serem feitas. Também têm que comparecer às reuniões virtuais com o orientador do CNPq, João Batista Garcia Canalle, e fazer tudo muito bem-feito, senão...cortam a bolsa.

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Tarsila também destaca o apoio fundamental sempre recebido da família inclusive para as viagens que ela tem que fazer para estar presente nas competições.

Estou sendo uma otimista ingênua? Pode ser, mas não há como não ficar entusiasmada com esse relato de Tarsila. Segundo ela:

“Esta bolsa me propicia amadurecimento, tenho responsabilidades. Aprendo, adquiro conhecimento, e é algo que me motivará a aprender ao longo da minha vida, é uma coisa que vai ser minha. O conhecimento é um poder. E eu acho que isso é muito valioso. Tomara consiga inspirar outras meninas a também fazerem ciência!”

Parece que sabemos bem o que funciona para uma formação científica de qualidade, não? Ter escolas com boa estrutura, oferecendo programas extracurriculares, com professores bem-preparados e que sejam líderes inspiradores. Sem isso, nada feito. Mas com isso, a ciência acontece de maneira séria, prática e divertida. E apoio familiar, sempre!

Não são boas notícias?

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Opinião por Marisa Eboli

É Doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É professora do mestrado orofissional e coordenadora da pós-graduação em Gestão da Educação Corporativa, na FIA Business School

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