Saques, Drex e Pix: como influenciadores tentam minar a confiança no sistema financeiro

Em vídeos, eles incitam população a retirar dinheiro dos bancos e guardar embaixo do colchão; Febraban não quis comentar assunto; influenciadores dizem que País vive crise institucional

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Foto do autor Luciana Dyniewicz
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Uma onda de desinformação vinda das redes sociais e que se espalha pelo WhatsApp tem colocado à prova a confiança no sistema financeiro brasileiro. Vídeos e postagens de influenciadores e políticos viralizam boatos de que bancos, como o Banco do Brasil, estariam em risco e que o Drex — a moeda digital em desenvolvimento pelo Banco Central — serviria para “confiscar” dinheiro dos correntistas. As falsas alegações, amplificadas por perfis com milhares de seguidores, preocupam autoridades e especialistas, que alertam: a disseminação de pânico pode gerar corrida bancária e afetar a estabilidade do sistema.

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“Boatos podem quebrar um banco”, diz Ricardo Rocha, professor e coordenador do Programa Avançado em Finanças do Insper, em referência à possibilidade de uma mentira fazer com que milhares de correntistas queiram sacar, simultaneamente, suas economias. Ele pondera, no entanto, que os bancos brasileiros são sólidos. “Eles estão super capitalizados. Não há nenhuma crise bancária atualmente. Mas é ruim para o sistema que esses boatos gerem insegurança.”

Para o BC e para o setor, os boatos são um novo desafio, dado que a credibilidade é um dos pilares da estabilidade do sistema e de uma possível moeda digital.

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Imagem ilustrativa do Drex, a moeda digital que está em desenvolvimento pelo Banco Central e que já é alvo de fake news Foto: Adobe Stock

Os ataques, frequentes desde ao menos o começo do ano, ganharam força há pouco mais de um mês. À época, o presidente americano Donald Trump havia intensificado a adoção de medidas contra o Brasil. Parte das informações falsas foram propagadas por políticos como os deputados federais Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Gustavo Gayer (PL-GO) para, depois, serem ecoadas por influenciadores digitais com milhares de seguidores. Vários desses influenciadores se autodenominam palestrantes ou consultores e vendem cursos nos quais supostamente ensinam seus seguidores, de alguma forma, a ganhar dinheiro.

O influenciador Lauro Marques, com 211 mil seguidores no Instagram, é um exemplo. Em julho, ele postou um vídeo em sua rede em que afirma, sem provas, que a poupança dos correntistas brasileiros está em risco.

“Onde é que está o seu dinheiro? Na poupança? No banco? Que banco? Meu irmão, lembra que eu falei lá atrás: ‘Cuidado com o seu dinheiro, tira o seu dinheiro do banco, da poupança’. Esses caras (em referência à família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva) vão fazer um rapa aí no Brasil. Eles não têm mais de onde tirar dinheiro”, diz Marques. “Você vai quebrar se você não tirar o seu dinheiro (do banco). Guarde seu dinheiro em casa, embaixo do colchão”, acrescenta ele em vídeo compartilhado 13,1 mil vezes e curtido por 18 mil pessoas.

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Em seu perfil na rede social, Marques oferece programas de “consultoria” e “mentoria”, nos quais ensina inglês para interessados em deixar o Brasil, como conseguir emprego nos Estados Unidos e como “conquistar uma independência financeira em um ano morando” no país.

Questionado pelo Estadão sobre o post em que diz que as pessoas precisam sacar suas economias, o influenciador afirmou que o “País enfrenta uma crise institucional incrível na qual não se pode confiar em bancos” e que o “cidadão precisa preservar o mínimo que ainda tem”. Disse que, como “ninguém tem as rédeas” do Brasil, não se “pode confiar em nenhuma instituição nacional” e que a Lei Magnitsky vai afetar o País.

A lei americana Magnitsky permite que os Estados Unidos imponham sanções econômicas a acusados de corrupção ou violações graves de direitos humanos. Ela foi usada pelo presidente Donald Trump contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por suposta “campanha de censura” e “perseguição política”.

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Entre as sanções previstas pela lei, estão o bloqueio de contas bancárias e de bens em solo americano, além da proibição de prestação de serviços em caráter “extraterritorial”. Isso significa que, mesmo fora do território americano, uma empresa que tenha ativos nos Estados Unidos não pode prestar serviços a um alvo da norma.

O caso ganhou a atenção de influenciadores que passaram a afirmar que, como o Banco do Brasil havia oferecido o cartão Elo ao ministro Alexandre de Moraes, o banco estaria em risco. O deputado Eduardo Bolsonaro afirmou que o BB seria cortado das relações internacionais, o que poderia levar o banco à falência. “Tenho certeza de que já tem gente neste momento, preocupado, querendo descobrir para onde que leva o dinheiro para ficar protegido.”

O deputado Gustavo Gayer (PL-GO) publicou um vídeo afirmando que o banco poderia perder todos os seus correntistas. Disse ainda que o Bradesco (que detém participação na Elo) e que a Caixa Econômica Federal (com participação na Elo Serviços via a holding Caixa Cartões) também estavam em risco.

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Procurados, Bradesco e Caixa não comentaram o assunto. Gayer e Eduardo Bolsonaro não responderam à reportagem. Em nota, o Banco do Brasil afirmou acompanhar o “surgimento de algumas publicações inverídicas e maliciosas que disseminam desinformação em redes sociais, com o objetivo de gerar pânico e induzir a população a decisões que podem prejudicar a sua saúde financeira, sugerindo uma retirada de depósitos por parte dos clientes”. Disse ainda que tomará as medidas legais necessárias para proteger sua reputação.

Ainda em agosto, o BB enviou ofício à Advocacia-Geral da União (AGU) alegando que pessoas, como Eduardo Bolsonaro, estavam difundindo notícias falsas sobre o banco. A AGU apresentou notícia-crime à Polícia Federal pedindo a investigação da denúncia. “Tais condutas (de difusão de fake news) têm o potencial de fomentar uma verdadeira corrida bancária para retirada de valores dos bancos, o que pode causar prejuízo à economia do País. Soma-se a isso uma intenção política no sentido de, relacionando tal colapso às atividades dos membros do Supremo Tribunal Federal, colocar a opinião pública contra o órgão judicial e constranger o Poder Judiciário em sua atuação típica”, afirmou a AGU no documento enviado à PF.

Influenciador diz que brasileiro será ‘aprisionado financeiramente’ pelo Drex

Um assistente social do Rio Grande do Sul, que pediu para não ser identificado, contou ao Estadão que, recentemente, sua mãe lhe implorou para que sacasse todo o dinheiro da família de uma conta do BB porque o banco iria confiscar os recursos dos correntistas. Desesperada, ela havia recebido essa informação falsa em grupos do WhatsApp, onde também circulavam vídeos como o publicado pelo deputado Gustavo Gayer e pelo influenciador Lauro Marques.

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O professor Ricardo Rocha, do Insper, destaca que, ao receberem esse tipo de informação, os correntistas precisam ser cautelosos. “Precisam conversar com o gerente do banco, procurar se informar com bons veículos de comunicação. Não está acontecendo nada no sistema bancário. Não há nenhuma crise sistêmica.”

Outro vídeo que a mãe do assistente social havia recebido era um do influenciador Marcos Trombetta em que ele afirma que o brasileiro será “aprisionado financeiramente” quando o Drex for adotado. “O dia em que nós tivermos nosso dinheiro 100% rastreável, o dia em que aqueles caras que estão lá em cima tiverem total controle sobre onde você gasta, como você gasta, quanto você ganha e a hora em que eles puderem tirar de sua conta bancária ao seu bel-prazer tudo o que você tem, será o fim”, diz ele no vídeo com mais de mil curtidas e compartilhado quase 600 vezes.

Com 148 mil seguidores no Instagram, Marcos Trombetta se apresenta como “professor, mentor, empresário e investidor”. Afirma que seu trabalho é mostrar como “construir uma nova realidade usando o poder” da mente.

Em seu site na internet, Trombetta vende cursos em vídeo como o “Conexão com Riqueza”, em que diz ensinar em “21 dias como mudar sua programação mental para o dinheiro e despertar o entendimento para a abundância financeira”. Também comercializa seus livros. Entre eles, um em que o leitor “entenderá como o dinheiro funciona e como criá-lo em sua vida de um jeito prático”, chamado “Como Sair do Buraco”. Procurado pelo Estadão, ele não retornou à reportagem. Seu assessor afirmou que Trombetta responderia de acordo com a disponibilidade de agenda.

Desenvolvido pelo Banco Central desde 2020, o Drex é a versão virtual do real. Ele será emitido pelo BC e não substituirá o papel moeda, sendo uma opção adicional para o consumidor. Hoje, 130 países desenvolvem algum projeto semelhante ao do Drex.

Essa versão virtual do real poderá ser usada para, por exemplo, comprar um carro. Nesse caso, quando o comprador pagar pelo veículo, ele receberá um certificado digital que garante a propriedade do bem — o que dará transparência e segurança à transação.

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O Drex também é alvo do agrônomo Vanderlei Campos Jr., que tem 1,2 milhão de seguidores no Instagram e vende pela plataforma uma ferramenta para o produtor rural alavancar seus lucros. Neste mês, Campos Jr. afirmou, em um vídeo que colocou na rede social, que o Drex vai limitar o uso de benefícios sociais a estabelecimentos próximos do local de residência do beneficiado. “No início, pode ser programa social, mas, amanhã, salário, aposentadoria, crédito rural.” Isso, no entanto, não faz parte do projeto do Drex. Procurado, o agrônomo afirmou que havia retirado o vídeo do ar.

Ricardo Rocha, do Insper, esclarece que o Drex é uma ferramenta que deve dar mais segurança às transações e que, inicialmente, só será usado em grandes transações financeiras. “Não vai acabar com o papel moeda, como dizem por aí. E o Banco Central tem independência, jamais se prestaria a usar seus instrumentos para prejudicar a população.”

Assim como o Drex, o Pix já foi alvo de ataques nas redes sociais. Em janeiro, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo em que afirmava que não duvidava que o Pix passasse a ser taxado e que o monitoramento dos Pix superiores a R$ 5 mil seria prejudicial sobretudo aos trabalhadores informais que não declaram toda sua renda. Os ataques fizeram o governo recuar na medida que aumentaria a fiscalização das transações financeiras.

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Também em janeiro deste ano, o candidato a deputado estadual de Goiás na última eleição Amarildo Filho publicou um vídeo em que afirmava que o Drex é mais “assustador” do que o fato de a Receita Federal ter acesso às informações do Pix — medida que estava em discussão à época. “Esse real digital é uma nova ferramenta que o Banco Central do Brasil quer adotar para acabar com o dinheiro em espécie”, diz ele, que tem 172 mil seguidores.

Amarildo Filho — que não respondeu o contato da reportagem — também afirmava que o Projeto de Lei 4068 de 2020 quer “tornar crime quem anda com mais de R$ 1.500 em espécie”. O vídeo foi visto 337 mil vezes, curtido por 17,4 mil pessoas e compartilhado 25,7 mil vezes.

O PL 4068, proposto pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), propõe acabar com o dinheiro em espécie em um prazo de cinco anos após sua aprovação, mas não fala em prisão. A tramitação do projeto está parada desde 2023. Segundo o deputado, sua ideia, com o PL, era tentar eliminar a economia informal, diminuir a corrupção e a lavagem de dinheiro. “Poderia deixar uma pequena quantidade de papel-moeda circulando, mas não sei nem se tem justificativa para isso hoje.”

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Procurada para comentar a onda de informações falsas sobre o sistema financeiro, a Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin) afirmou que a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) está à frente do assunto. A Febraban não quis comentar.

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