A volta dos unicórnios: mercado prevê retorno das startups bilionárias após dois anos de retração

Em 2023, apenas uma empresa de tecnologia atingiu valor de mercado de US$ 1 bilhão, garantindo o título de ‘unicórnio’; este ano há seis apostas, a maioria do segmento financeiro

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Por Cleide Silva
Atualização:
6 min de leitura

Após dois anos de forte retração, demissões e encerramento de atividades, o segmento de startups vislumbra uma recuperação neste ano, com a volta gradual de investimentos e de rodadas de captação. O apetite dos investidores, contudo, ainda se manterá muito distante do “ano de ouro”, em 2021, quando havia abundância de recursos no mercado e as captações mais que triplicaram em relação ao ano anterior - que já tinha sido bom - e atingiram US$ 11 bilhões.

O melhor ano para o segmento veio acompanhado de recordes de rodadas - 948 ao todo - e de 11 empresas que se tornaram unicórnios, segundo a Sling Hub, uma plataforma de dados sobre o mercado de startups. O apelido, uma alusão a algo raro, especial e mítico, é dado às empresas iniciantes avaliadas em US$ 1 bilhão antes de abrirem capital em bolsas de valores.

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Em 2022, apenas duas startups do Brasil passaram a valer US$ 1 bilhão, a Dock (de tecnologia para serviços financeiros) e a Neon (instituição financeira de pagamentos). No ano passado, apenas uma - a Pismo, desenvolvedora de tecnologia bancária e de pagamentos - recebeu o título em junho, ao ser comprada pela Visa.

Escultura de unicórnio no Inovabra Habitat, do Bradesco: em 2023 o Brasil só teve uma startup que atingiu valor de US$ 1 bi Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O Brasil tem atualmente 26 unicórnios, de acordo com a Sling Hub. A primeira a entrar para essa categoria especial foi a 99, em 2018, seguida por Nubank e iFood. Ao todo, há cerca de 14 mil startups no País, segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups).

Com as expectativas de um aumento nas captações, ainda que discreto, há seis startups na lista de apostas de analistas para se tornarem unicórnios neste ano ou no próximo. Quatro são fintechs, ligadas ao segmento financeiro – Asaas, idwall, Parfin e QI Tech. Uma é a agtech Agrotools, da área de agronegócios, e a outra a eureciclo, do segmento ambiental (veja aqui).

Captação maior

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João Ventura, fundador e CEO da Sling Hub, avalia que as captações brasileiras de 2023 devem ficar próximas das de 2020, que foram de US$ 3,3 bilhões. Também uma startup, a plataforma monitora 32 mil empresas de 21 países da América Latina e mantém um banco de dados sobre todo o ecossistema do segmento.

Até 10 de dezembro, último levantamento feito pela empresa, as captações estavam em US$ 3,2 bilhões, 40% abaixo do montante de 2022 que, por sua vez, foi 50% menor em relação ao ano anterior (ver quadro abaixo). Para este ano, a previsão é ser ligeiramente maior.

“2021 foi um ano de ouro, estava muito pró startup, fácil para captar, com muitas empresas virando unicórnio”, diz Ventura. “Vai demorar muito para voltarmos aos US$ 11 bilhões investidos naquele ano, com certeza não será antes de 2025.”

Entre as justificativas para a derrocada dos dois últimos anos Ventura cita os juros altos no Brasil e em outros países, as incertezas para a economia mundial em razão da guerra entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, o conflito entre Israel e o grupo terrorista Hamas.

“Para este ano e para 2025, as expectativas são de queda dos juros, e isso tem relação muito forte com investimentos em startups”, diz. “Quanto menor a taxa, mais atrativo é investir nessas empresas; quanto maior, mais investimentos competem com a renda fixa e o risco de investir em startups não compensa.”

A Sling já detectou um apetite maior dos investidores após algumas grandes rodadas em 2023, como o acordo entre a fintech Meutudo com o BTG, de US$ 417 milhões, e a compra da Pismo pela Visa. Ventura, no entanto, é menos otimista que o mercado e acredita que, neste ano, apenas uma empresa chegará ao status de unicórnio. “Hoje, para virar unicórnio é mais difícil e tem de estar muito mais avançada do que há três anos, quando o cenário era mais fácil.”

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Fernando Freitas, responsável pela área de inovação do Bradesco - que tem o inovabra ventures como fundo de investimentos em startups -, ressalta que, após os dois anos de “excitação total”, o que se viu foi uma queda importante dos investimentos em venture capital e uma seletividade grande dos investidores. “O foco, a partir do último biênio, passou a ser em empresas com geração de caixa e não mais em crescimento a qualquer custo.”

Com essa visão, os principais focos das empresas de venture capital neste ano e em 2025, na avaliação de Freitas, são em negócios ligados à Inteligência Artificial (IA), à economia prateada (voltada a pessoas com mais de 50 anos), questões de ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) e para as de ativos e pagamentos digitais. Sua aposta pessoal para candidatas a unicórnio são Agrotools, Asaas e Parfin.

Excesso de capital

O setor de startups vinha num crescimento constante e sólido a partir de 2015 até o boom ocorrido em 2020 e 2021, visto como “exceções” pelo diretor do Google for Startups Latam, André Barrence. O excesso de capital disponível gerou distorções no ecossistema. Em sua opinião, os dois anos seguintes, marcados por fechamento de empresas e demissões, foram períodos de ajustes que devem seguir pelo menos até o primeiro semestre deste ano.

Ele acredita que o ritmo de desenvolvimento mais saudável de antes da euforia de empreendedores e investidores vai ser retomado só a partir da segunda metade do ano. Para Barrence, este início de ano ainda será complicado e provavelmente algumas empresas não consigam novas rodadas de investimento e tenham de fechar, fazer movimentos forçados de consolidação ou venda.

Para André Barrence, investidores ainda serão muito cuidadosos neste início de ano Foto: Google/Divulgação

“O primeiro semestre ainda terá movimentos de sobrevivência, com muita necessidade de controle e de gestão das empresas”, diz Barrence. “Os investidores ainda serão cuidadosos e criteriosos e os empreendedores terão de deixar a casa impecável do ponto de vista de eficiência e rentabilidade para conseguirem acessar esse capital.” Sua certeza é de que as empresas que passaram pela crise estão muito mais maduras e sólidas e os investidores mais preparados.

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Barrence avalia que várias empresas têm grande potencial no Brasil, ainda que não cheguem a ser unicórnios. Em oito anos, 400 empresas passaram pelos programas do Google for Startups e algumas atingiram valor de R$ 1 bilhão. Atualmente, ele destaca duas que podem estar mais próximas desse movimento, a idwall e a eureciclo.

O vice-presidente da ABStartups, Felipe Mattos, também acredita que em 2024 “o cenário de investimentos terá uma retomada, ainda que leve, recuperando a curva de crescimento dos anos pré-pandemia”. Até 2019, houve crescimento praticamente contínuo do setor.

O gerente de pesquisas da empresa de inovação Distrito, Eduardo Fuentes, confirma que o ecossistema de startups passou por escassez de investimentos nos últimos 12 a 18 meses, como parte de um ciclo de ajuste necessário após um período de excesso de liquidez que gerou algumas distorções no mercado. “Agora, com empresas conseguindo se ajustar, somado a uma redução da taxa de juros, o mercado começa a atrair novamente mais investidores e a retomar o volume de investimento, especialmente em estágios mais avançados.”

Por enquanto, a Distrito tem duas apostas para unicórnios, a QI Tech e a CERC, ambas fintechs. Fuentes, contudo, ressalta que a ascensão deve ocorrer “em um intervalo de três anos”.

CORREÇÃO: Gráfico anterior continha erro de dados e foi atualizado