Tecnologia melhora dinâmica de trabalho nos escritórios de advocacia

Ferramenta jurídica reduziu em até 95% as falhas processuais no Hasson Advogados; evolução do mercado demanda novas funções e formas de atuar

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Por Ludimila Honorato
Atualização:
6 min de leitura

Um estudo da FGV Direito SP sobre a profissão de advogados aponta que as novas carreiras ou atribuições a cargos já conhecidos são uma resposta a transformações do mercado. Concorrência, relacionamento com clientes e, em especial, a disseminação de tecnologias digitais vêm transformando esse mercado.

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“Hoje, os processos são eletrônicos e, se quero advogar, mesmo que seja o mais tradicional possível, preciso minimamente saber peticionar pela internet”, comenta Olívia Pasqualeto, professora da instituição e integrante do grupo de pesquisa do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação.

Para auxiliar os escritórios nessa digitalização, a Thomson Reuters desenvolveu a Legal One, ferramenta para eficiência e produtividade de forma automatizada voltada ao trabalho jurídico. O escritório Hasson Advogados adotou a solução no final de 2018 e reduziu em até 95% as falhas processuais.

O resultado foi alcançado porque o recurso é integrado aos sistemas dos tribunais, o que evita perda de prazos, e automatiza processos que são passíveis de mais erros se feitos manualmente. Com isso, também foi possível otimizar o tempo e o trabalho de pessoas que ficavam exclusivamente dedicadas a conferir e encaminhar documentos.

Rosine Hasson Marques, sócia no Hasson Advogados, buscou por ferramentas que otimizassem o trabalho dos advogados Foto: Karina Rocha

“Isso evitou muito o retrabalho e desperdício de pessoas. Pude aproveitá-las para tarefas mais estratégicas, como desenvolver tese e ir atrás de cliente”, diz Rosine Hasson Marques, sócia do escritório. Ela conta que a demanda pela ferramenta surgiu do crescimento da empresa e das mudanças no mercado.

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O Hasson Advogados também desenvolveu duas novas áreas, pensando na sustentabilidade do negócio. A de gestão jurídica combina questões administrativas, financeiras e de pessoas, por exemplo, com pesquisa de satisfação do cliente e trabalho de prospecção. Já a controladoria produz relatórios de análises para os clientes a fim de mostrar vantagens, falhas e traçar estratégias.

Para Marcelo Doubek, diretor executivo no KLA Advogados, a tendência natural é ter advogados dispostos e com conhecimento para analisar dados e que se integrem cada vez mais a outras profissões. “Quem entende do negócio no final do dia são eles”, comenta. “Os advogados mais novos já estão vindo com essa cabeça.”

Rosine concorda e seguiu por esse caminho. Advogada, ela fez MBA em gestão, é doutoranda em administração e também fica responsável pela gestão e operação legal do escritório. “A interdisciplinaridade tem de estar presente, mas tudo depende da liderança. Não adianta trazer gestor de dados, mas não dar autonomia e não entender o que implica no negócio”, afirma.

Cenário evolutivo

Tecnologias como essas não estão distantes do mundo jurídico. Softwares de jurimetria, por exemplo, analisam milhares de petições, decisões e são capazes de prever as chances de um advogado diante de determinado juiz.

Fernando Meira, sócio gestor do Pinheiro Neto Advogados, avalia que esses avanços são mais evolutivos, não disruptivos. “É um tema que vem sendo discutido há muitos anos, são tendências. Mas os anos passam e as transformações não acontecem na velocidade que imaginávamos”, afirma.

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Para ele, conforme mudanças econômicas, sociais, culturais e tecnológicas vão acontecendo, novos nichos de atuação e, consequentemente, novas habilidades surgem. Como exemplo, cita o direito ambiental, que ganhou mais corpo nos últimos anos, e o compliance, que gerou um campo de atuação que demanda pesquisa em bases de dados.

Com essa demanda, novas tecnologias vêm sendo testadas, como inteligência artificial, buscas por palavras-chave e padronização de documentos. “São ferramentas que vêm para mais ajudar do que para eliminar o papel do advogado”, diz.

Não adianta trazer gestor de dados, mas não dar autonomia e não entender o que implica no negócio”

Rosine Hasson Marques, sócia no Hasson Advogados

No Pinheiro Neto Advogados, há uma área de business intelligence e departamentos mais estruturados de marketing, estratégia e comunicação, além de um RH mais estratégico voltado a pessoas e cultura. Há ainda comissões temáticas de recrutamento, assuntos institucionais, estratégia com clientes, tecnologia da informação e, mais recentemente, de inovação.

“Contratamos um consultor externo para dar visão do que é a transformação digital concretamente na nossa indústria. Ele fez pesquisa no Brasil e fora, viu o estágio do uso dessas ferramentas digitais, a viabilidade de utilização e o que podia fazer com foco no nosso relacionamento com cliente”, explica o sócio.

A empresa também investiu na contratação de um profissional de design gráfico para incrementar a visualização de dados e resultados para os clientes, o que otimiza o tempo. “A gente utiliza muito como material de apoio em reuniões, em estruturas de transação, para explicar problemas.”

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Enquanto os recursos digitais fazem o trabalho mecânico, o profissional se dedica ao que não pode ser substituído por máquinas: escuta ativa, relacionamento com cliente, criatividade na abordagem de problemas e conexão humana. “As ferramentas dão agilidade, segurança e aumentam a qualidade do trabalho.”

Tradição moderna

O estudo da FGV aponta alguns desafios para o desenvolvimento de carreiras alternativas às tradicionais no Direito por questões institucionais e regulatórias. As sociedades de advogados brasileiras, por exemplo, não admitem sócios que não sejam advogados regularmente inscritos na Ordem.

Além disso, há questões culturais que esbarram na “pureza” do profissional, em que, quanto mais relacionado com práticas jurídicas, maior o status da advocacia.

A pesquisadora Olívia diz que esse tradicionalismo não é algo necessariamente ruim, porque é importante o profissional dominar técnicas jurídicas. Para ela, é uma questão de conviver com as diferenças.

“É permitir que a tradição conviva com essas novidades. Além do diálogo, mostrar como é difícil, no mundo de hoje, não haver interação com outras áreas, como os problemas não são só jurídicos”, destaca.

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