Com pandemia, alunos de SP têm pior nota em Matemática do ensino médio na série histórica

Estudantes do ensino médio deixam escola com defasagem de quase seis anos; no ensino fundamental, aluno de 11 anos não consegue fazer contas de subtração e adição

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Por Julia Marques
4 min de leitura

Estudantes do 3.º ano do ensino médio tiveram as piores notas em Matemática na série histórica de uma avaliação do governo de São Paulo que mede o desempenho na rede estadual. Os dados, divulgados nesta quarta-feira, 2, evidenciam os prejuízos provocados pela dificuldade de ensino durante a pandemia. 

As provas do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) foram aplicadas em dezembro do ano passado para mais de 642 mil alunos do 5.º e 9.º anos do ensino fundamental e da 3.ª série do ensino médio. A última avaliação havia sido realizada em 2019. 

Escolas em todo o Brasil foram fechadas em março de 2020, para reduzir o risco de contaminação pelo coronavírus. A rede estadual paulista adotou o ensino remoto, mas houve dificuldade em alcançar os estudantes nas atividades online. Parte dos alunos deixou de frequentar as aulas remotas por problemas de conexão ou pressão para trabalhar. 

O retorno presencial aos colégios da rede estadual paulista começou, de forma gradativa, no segundo semestre de 2020. Com o recrudescimento da pandemia no ano passado, porém, as escolas voltaram a ser fechadas e houve rodízio de estudantes para frequentar as aulas presenciais. 

Conforme os dados do Saresp, a queda de rendimento ocorreu em todas as séries avaliadas, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática. O desempenho no ensino médio, que já vinha em redução desde 2018, despencou. A maioria dos estudantes do 3.º ano do ensino médio (58,7%) saiu da escola estadual no ano passado sem saber o básico de Matemática. 

Os alunos obtiveram nota 264,2 na disciplina, valor que nunca foi tão baixo em toda a série histórica do Saresp, que começou em 2010. Em 2013, ano com os piores desempenhos até então, a nota dos alunos em Matemática era de 268,7. O estudante do ensino médio terminou os estudos no ano passado com defasagem de quase seis anos em Matemática.

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Estudantes do 3.º ano do ensino médio tiveram as piores notas em Matemática na série histórica do Saresp Foto: Werther Santana / Estadão

O secretário da Educação, Rossieli Soares, afirmou que os resultados de queda no desempenho durante a pandemia já eram esperados. "O que já era ruim ficou ainda pior", disse ele, em coletiva de imprensa na tarde desta quarta, referindo-se à aprendizagem dos alunos no ensino médio. "O ensino médio estava no fundo do poço e a pandemia mostrou que pode piorar."

Em Língua Portuguesa, os dados também preocupam. Os resultados despencaram em relação a 2019 e foram semelhantes aos de 2013. Estudantes do ensino médio deixaram a escola com desempenho que seria adequado para um aluno quase cinco anos mais jovem. A maioria deles não tem habilidades como inferir o público-alvo de um texto ou os objetivos do autor. 

O problema atinge também alunos mais jovens, o que deve pressionar a rede estadual a recuperar a aprendizagem desses estudantes antes que eles deixem a escola. Alunos do 5.º ano vinham melhorando suas notas em Matemática desde 2017, mas o desempenho sofreu queda abrupta de 21,1 pontos com a pandemia - a maior redução porcentual entre todas as disciplinas e séries avaliadas. 

Boa parte dos alunos do 5.º ano do fundamental não consegue fazer contas de subtração e adição. Isso significa que esse estudante, de 11 anos, tem o mesmo desempenho esperado de um aluno de 8 anos de idade. Uma em cada cinco crianças nessa faixa etária tem nível abaixo do básico em Matemática. E só 23,9% tem desempenho adequado ou avançado. 

As dificuldades se intensificam na etapa seguinte. Em Matemática, um terço dos jovens de 15 anos (9º ano do fundamental) não sabe nem o básico. Os resultados obtidos agora interrompem a tendência de melhora no desempenho desses alunos e se comparam às notas de 2014. Em Língua Portuguesa, as notas do 9º ano são compatíveis com as de 2017. 

Segundo Rossieli, um dos principais fatores para a queda no desempenho dos estudantes foi o afastamento das aulas presenciais nos momentos mais agudos da pandemia. O secretário calcula que os esforços para a recuperação das aprendizagens devem mobilizar gestores por pelo menos três ou quatro anos. "Esse é o momento mais desafiador da história da Educação."

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Como estratégias para recuperar a aprendizagem, o secretário citou o redesenho de materiais oferecidos aos estudantes e aulas de reforço. Destacou, ainda, a necessidade de priorizar no currículo os aprendizados considerados elementares e projetos de reagrupamento de alunos para atividades de recuperação, considerando o desnível entre estudantes de uma mesma série.  

Para os jovens que já deixaram a escola, o secretário afirma que está em avaliação uma proposta de curso preparatório aos fins de semana para que esses estudantes recuperem as aprendizagens e possam se candidatar a vagas no ensino superior.

Indagado sobre as dificuldades da rede com as aulas online, Rossieli afirmou, mais uma vez, que "o ensino remoto não substitui o presencial". 

"Defendo o uso de tecnologia na educação, mas antes disso defendo a presença em sala de aula. Quando me perguntam qual a solução para recuperar a aprendizagem, a primeira é voltar para a sala de aula e ficar na sala de aula com os alunos. Não pode ser prioridade no nosso País o carnaval."

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