Comportamento Adolescente e Educação

Comportamento Adolescente e Educação

Pressão, medo e escuta: o que os adolescentes nos disseram em 2025

A gente adora um balanço de fim de ano, né? Resolvi tentar um apanhado do que foi esse 2025 trabalhando tão de perto com adolescentes

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Foto do autor Carolina  Delboni

A gente adora um balanço de fim de ano, né? Números, metas, curvas, previsões. Uma tentativa de organizar o que talvez não tenha sido organizado ao longo do ano. Ou uma tentativa de organizar o que está por vir. Confesso que por aqui nunca fui de balanços ou metas, mas resolvi tentar um apanhado do que foi esse 2025 trabalhando tão de perto com adolescentes.

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E, ainda que pareça óbvio dizer, nada aqui cabe em planilhas ou listinhas. O balanço mais honesto aparece nas palavras que eles foram escrevendo, falando, soltando no ar. Às vezes com coragem, às vezes com medo. Palavras que não pediam explicação, apenas responsabilidade para lidar com elas.

Encerramento de ano, portanto, vira essa espécie de inventário. E o mosaico de palavras que apareceram repetidamente nas falas dos adolescentes foram: pressão, respiro, medo, validar, respeito, microviolência, pertencer e, cada vez mais, voz e ser ouvido. Não são palavras soltas. São pistas. São sintomas. São retratos do país e da educação que a gente ofereceu - e oferece - a eles.

Decidi recolher as palavras que escutei nas escolas, em projetos sociais, rodas de conversa e mensagens que recebo. Resolvi criar um pequeno glossário. Não para defini-las, mas para lembrar que cada palavra dita por um adolescente é um diagnóstico do tempo. E meu papel aqui não será explicá-las, mas tentar transformá-las em políticas, práticas e vínculos mais humanos.

A primeira palavra que me trouxeram com muita intensidade foi pressão. Pressão por desempenho, por presença, por humor, por estabilidade emocional, por produtividade. Pressão para ser forte e para ser perfeito, ao mesmo tempo. Uma pressão que não nasce nos jovens: nasce no mundo adulto, mas escorre por toda a estrutura escolar e familiar até estourar na adolescência -- que é sempre o ponto mais visível da rachadura.

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Outra palavra recorrente foi respiro. É curioso porque eles não pedem descanso, pedem ar. Pedem menos correria, menos telas, menos barulho, menos comparação. Querem um intervalo que não seja imediatamente preenchido. E talvez essa seja a palavra mais política que ouvi: respiro não é luxo, é condição para existir.

Pressão, medo e escuta: o que os adolescentes nos disseram em 2025. Foto Sergey Novikov/ Adobe Photo  

Aparece também, com uma força que não dá para ignorar, a palavra medo. Medo da violência na escola. Do futuro climático. Da reação dos pais quando falam algo difícil. Do julgamento dos colegas. Do que pode acontecer quando voltam para casa. Medo de errar. Medo de tentar. Medo de crescer rápido demais. Ao contrário do que insistimos em dizer, adolescentes não são tão afoitos assim. Eu diria que são expostos.

Outra palavra que atravessou o ano foi validar. Eles pedem validação -- não de comportamento, mas de existência. Querem ser levados a sério. Querem que suas perguntas não sejam tratadas como drama, que seus incômodos não sejam chamados de frescura, que suas dores não sejam diminuídas. Validar não significa concordar; significa reconhecer humanidade no outro.

E, entre todas as palavras, uma voltou com força inescapável: voz. Ou melhor: ser ouvido. Não se trata de "dar voz", porque voz eles têm -- e têm usado. O que falta é legitimidade. Falta que a escuta adulta deixe de ser decorativa e passe a ter consequência. Eles querem que suas falas mudem práticas, alterem rotas, influenciem decisões. Voz sem escuta é barulho. Ser ouvido é política.

Falando em incômodo, a palavra microviolência entrou de vez no vocabulário deles. E entrou porque eles vivem isso nas amizades, nas famílias, nas redes sociais, nas brincadeiras - que de brincadeira não têm nada. Quando um adolescente nomeia uma microviolência, ele não está exagerando. Está fazendo um trabalho que nós, adultos, evitamos por séculos que é dar linguagem ao que sempre foi silenciado.

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E, por fim, talvez a palavra que mais se destacou foi pertencer. Não à toa. Vivemos um tempo de vínculos frágeis e expectativas desmesuradas. Pertencer é o oposto da performance. É ser visto na sua forma mais imperfeita e, ainda assim, encontrar lugar. Quando um adolescente diz que quer pertencer, ele está dizendo que quer existir com menos medo, mais vínculo e, sobretudo, mais escuta.

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Agora, fazendo um balanço final, eu diria que os adolescentes nos devolveram palavras que não são diagnósticos deles, mas nossos. Palavras que revelam falhas estruturais, urgências sociais, responsabilizações que empurramos para depois. Ou para o outro.

Que 2026 comece, então, com uma decisão adulta: transformar essas palavras em prática. Em ritmo mais humano nas escolas. Em políticas de cuidado. Em acordos de convivência que incluam a escuta como ferramenta de proteção. Em ambientes onde ser ouvido não seja exceção, mas regra.

No fim das contas, talvez seja essa a tarefa que nos espera no próximo ano: não oferecer respostas prontas, mas garantir que nenhuma palavra dita por um adolescente volte para ele como silêncio. É isso. Um bom final de ano para você e nos vemos por aqui em 2026.