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Opinião|No sumidouro das letras

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Atualização:

"Nunca apareceria em nada. Contudo, necessito me desculpar com o colunista desta página."

(Imagem criada pelo autor no Dall-E)  

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Nasci no México, mas minha ascendência é japonesa. Esse mês, estou completando 13 anos. Desde que vim para o Brasil, resido na garagem do autor desta crônica.

Sou um Nissan Tiida, cor prata, reconhecidamente o sedã para quem valoriza bom espaço para a família e suas bagagens.

Hoje, venho, pela primeira vez, a público. Nunca apareceria em nada. Contudo, necessito me desculpar com o colunista desta página. Como mencionei, temos uma longa convivência: são 155 mil quilômetros rodados em parceria. Lembro-me, inclusive, de ter participado de momentos ímpares de sua vida.

Quando do nascimento de sua caçulinha, conduzi a genitora à maternidade e trouxe a bebê, dois dias depois, para casa. Durante esse tempo todo, menos durante a pandemia, enfrentei engarrafamentos diários para ir e vir de seu trabalho, sem nunca falhar.

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Nesse sábado, infelizmente, manquei. Fui levar o escritor à Paraty, numa palestra marcada para o começo da noite na rua do Comércio.

Até a serra da Oswaldo Cruz, corria tudo bem. Porém, ao entrarmos em Ubatuba, a lâmpada amarela do meu painel se acendeu: dei para tremer como um celular no vibracall. O autor teve que me embicar na primeira oficina que encontrou, num bairro chamado Sumidouro.

Ali, fui auscultado pelo mecânico Gustavo. Após passar o scanner em mim, diagnosticou que minha bobina havia pifado. Pediram, no ato, a peça a um fornecedor. Mas, sabem como é, sabadão, praia, meio da tarde...

O tempo rugia, a chuva despencava, e notei que o escriba seguia cada vez mais desolado. Mirava um pé de cacau no jardim da oficina com o olhar mais vago do que promessa de vendedor de carro usado. Sem dúvida, estava preocupado em perder o evento. Natural, imagino que ir à FLIP deva ser como participar do Salão do Automóvel.

Gustavo também se impacientou. Enviava áudios pelo celular à loja de peças e nada acontecia. Só o pé-d'água regando o cacaueiro.

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O rapaz tomou uma decisão: ir buscar pessoalmente os apetrechos em Caraguatatuba. Apeou na cinquentinha e lá se foi.

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A bobina só veio três horas depois. Remontaram o motor, testaram a regulagem, e logo me senti novo de novo. Num primeiro momento, a bem da verdade, expeli uma branca e espessa fumaça. Era a peça nova se ambientando ao meu ecossistema; logo, tudo se encaixou.

O cronista deu uma olhada no relógio. Estávamos a 70 quilômetros de Paraty. Caso apertássemos o passo, sem paradas para refeições (ele não tinha almoçado), chegaríamos ao destino em cima da hora.

Ele saiu esbaforido da oficina. Quando deu minha partida, Gustavo e a mãe vieram acenando em nossa direção. A princípio, o colunista se irritou. Chegou mesmo a socar meu volante. Outra interrupção para lhe atrasar mais a vida?

No entanto, o hiato era para lhe ofertarem uma braçada de cacaus maduros.

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    "Vi que gostou deles, pode levar, são docinhos", disse a senhora. "E vá com Deus que, se for da vontade Dele, o moço chega ao seu compromisso".

O autor sorriu mais amarelo do que os frutos. Informou à dupla que sua mãe também lhe dizia a mesma frase sobre os desígnios do Todo-Poderoso. E, conhecendo-o como o conheço, já atestei na hora: esse mistifório todo, em breve, vai virar uma crônica.

 

 

Opinião por Carlos Castelo

Carlos Castelo. Cronista, compositor e frasista. É ainda sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

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