Molécula de pimenta gera anestesia que não imobiliza

Ação da capsaicina, responsável pelo ardor do fruto, é direcionada só a nervos sensíveis à dor, sem afetar células motoras, o que evita paralisia

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Por Cristina Amorim
Atualização:

Imagine tratar um canal sem sentir dor e sem sair do consultório do dentista com o rosto paralisado. Esse é o objetivo de uma pesquisa publicada hoje na revista britânica Nature (www.nature.com), que usa a molécula responsável pelo ardor das pimentas, a capsaicina, para atingir o objetivo. Três cientistas ligados à Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, conseguiram criar um anestésico que age somente nos nervos que mandam o sinal de dor ao cérebro, sem afetar as células motoras vizinhas. Isso porque normalmente os anestésicos atingem todas as células nervosas de determinada região do corpo, sem distinguir quem é quem. O resultado é que, além de a dor ir embora por um tempo, também somem a sensibilidade ao tato e o controle de movimentos. Essa tem sido a regra desde que a anestesia geral foi aplicada pela primeira vez em cirurgia, em 1846. TIRO CERTEIRO Para fugir disso, o trio trabalhou especificamente com os nervos sensíveis à dor. Desde a década de 1970 sabe-se que esses neurônios específicos possuem poros nas membranas. Eles funcionam como canais que abrem e fecham para permitir a passagem de determinadas moléculas. Tal característica é exclusiva - esses poros ou canais não existem nos outros neurônios, como os motores. Para atingir apenas as células sensíveis à dor, os cientistas tinham de levar em conta dois passos: abrir os canais para que o anestésico entrasse e usar uma substância que fosse inócua aos outros neurônios. Foi quando lembraram do QX-314, nome de um derivado do popular anestésico lidocaína. Ele é pouco eficiente quando aplicado pelos métodos tradicionais, porém a situação é outra ao ser levado para dentro dos neurônios certos: ele consegue interferir na corrente elétrica emitida pelas células nervosas, aquela que manda a mensagem "aqui dói" até o cérebro. O segundo passo seria forçar a passagem. É quando entra a molécula da pimenta. A capsaicina funciona como uma chave-mestra e consegue abrir esses poros. Assim, as duas moléculas aplicadas juntas - a lidocaína QX-314 e a capsaicina - foram capazes de conter a dor sem atrapalhar os movimentos. TESTE A experiência foi feita em ratos. Eles primeiro receberam uma aplicação das duas moléculas nas patas e andaram normalmente em uma placa quente, sem apresentar muita sensibilidade ao calor excessivo. Num segundo momento, os cientistas aplicaram a combinação química no nervo ciático dos animais e espetaram suas patas, sem que qualquer reação fosse esboçada. Ao mesmo tempo, os roedores continuaram a se mover tranqüilamente, sem mostrar nenhum comprometimento motor. O grupo está confiante de que a estratégia pode ser transferida para tratar pessoas com o avanço do estudos. "Os neurônios sensíveis à dor são parecidos em ratos e em humanos", diz Bruce Bean, um dos pesquisadores. Para Clifford Woolf, outro autor do estudo, a técnica "poderia ser levada a muitas operações".

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