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Comoção nacional

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Os últimos dias têm sido agitados no futebol brasileiro: clássicos, gols bonitos, equilíbrio na ponta da tabela do campeonato, crise em alguns clubes, a preferência de Blatter pelo Rio para abrir a Copa de 2014... Para mim, contudo, o fato mais marcante não tem diretamente que ver com bola rolando, embora envolva um personagem importante de nosso esporte. Refiro-me à doença de Ricardo Gomes.Desde a noite de domingo, quem luta pela correção nesse meio não consegue relaxar. Ligo a televisão, recorro à internet e pego os jornais para me atualizar sobre o estado de saúde do treinador vascaíno, torcendo por boas notícias. Eu o vi pessoalmente poucas vezes, mas, como torcedor e depois jornalista, acompanhei sua carreira de jogador aqui, na Europa, na seleção, e mais tarde como técnico, na equipe olímpica do Brasil, na França, no São Paulo...É triste e chocante, para qualquer um, assistir ao vivo pela TV a um ser humano sentir-se mal, ser socorrido e minutos depois receber a informação de que sua situação é gravíssima, principalmente em se tratando de alguém que prima pelo caráter. Nesse momento, creio, percebemos nossa fragilidade, a impotência, o medo de que algo nos atinja de uma hora para outra.Todo esse quadro dramático mexe com a sensibilidade das pessoas, sem dúvida. Tenho certeza de que afligiu muita gente. E a angústia tomou proporções maiores, acredito, por causa do personagem. Ricardo Gomes é figura rara hoje no meio esportivo e (por que não?) na sociedade. Não sabemos qual será seu futuro. Mas é certo que, se precisar deixar o gramado, o futebol terá grande prejuízo. Perderá um símbolo de ética e correção. Muito mais do que um treinador, que não foi bem na seleção olímpica e fez trabalho apenas razoável no São Paulo. Vivia justamente agora, no Vasco, sua melhor fase, com o título da Copa do Brasil e a ótima campanha no Brasileiro.Ricardo Gomes não é bom moço por marketing, mas por filosofia e índole. Sua história fala por si só. Foi demitido da seleção em 2004 e do São Paulo no ano passado. Saiu como se nada tivesse ocorrido. Sempre deixou seus empregos sem arrumar confusão, nunca usou a imprensa para "desabafar" ou criticar dirigentes e jogadores. Ao contrário. Sabe ganhar e perder.Existem alguns treinadores elogiadíssimos por nós da mídia por causa do comportamento. Competentes, honestos, vencedores! Ok. Bastam duas ou três derrotas, no entanto, para que deixem a elegância de lado, tratem mal os repórteres, joguem a culpa na arbitragem ou no desgaste físico do elenco. Nunca vi isso em Ricardo Gomes. E, diga-se de passagem, ele não perdeu poucos jogos na vida.Quantas vezes o leitor observou o vascaíno correr na direção do juiz para ameaçá-lo? Ou bater boca com jornalista? Ou atirar a responsabilidade por um revés num atleta de seu time?Hoje somos carentes de pessoas como esse carioca de 46 anos. Não quero adotar discurso politicamente correto e, talvez, chato, mas estamos perdendo o poder de indignação e, cada vez mais, achamos tudo normal. Não consigo ficar quieto ao olhar um atleta ignorar seu companheiro machucado, caído no campo (da própria equipe ou do adversário), e prosseguir a jogada. Ou ter de engolir a construção de um estádio novo às pressas (caríssimo e com dinheiro público) para a Copa de 2014 numa cidade que já tem um ótimo local para receber as partidas.Ricardo Gomes merece ser valorizado, é exceção no mundo da bola. Por isso, sobretudo, sua luta vem causando comoção fora do comum em sites, twitters, blogs, entre clubes, treinadores e torcedores rivais.Seu nome não aparece entre os grandes treinadores da história do futebol brasileiro. Mas a "simples" repercussão de sua internação já mostra algo a que muitas vezes não damos atenção: não é preciso levantar taças ou quebrar recordes para deixar um legado importante. Mesmo com poucos títulos de expressão, Ricardo Gomes, com sua conduta ética, moral, profissional e respeitosa, tornou-se um vencedor, um grande campeão.

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