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Provas de rua de A a Z

Fundação Cásper Líbero processa corredor amador por se manifestar contra mudanças na São Silvestre

Antonio Colucci realizou duas manifestações há 11 anos, foi processado e agora teve de pagar R$45.549,29

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Por Silvia Herrera
Atualização:

Alguma vez na vida você recebeu uma medalha por algo que você não fez? Foi isso que a Fundação Cásper Líbero "criou" em  2010, para agilizar a dispersão da corrida mais celebrada do Brasil, a São Silvestre, que tem esse nome por ser realizada no dia desse santo, 31 de dezembro. Todos os corredores receberam a medalha de conclusão, antes de correrem, na retirada do kit, quando os inscritos recebem a camiseta, número de peito e chip. No ano seguinte voltaram atrás, e anunciaram mais uma novidade: a chegada tradicional na Avenida Paulista seria no Parque do Ibirapuera. Essas duas mudanças polêmicas foram muito criticadas pela comunidade da corrida amadora. À época, Antonio Colucci foi bem criativo. Fez dois treinões com os amigos da corrida, que batizou de São Silvestre Cover, todos usando nariz da palhaço. No ano seguinte, a Fundação Cásper Líbero abriu o processo nº 0012084-13.2012.8.26.0002contra o corredor. Alegou que ele tinha usado indevidamente a marca "São Silvestre" - "uso abusivo da marca". Colucci perdeu o processo na 1ª instância, mesmo sem nunca ter sido chamado a depor. Onze anos depois, teve sua conta corrente bloqueada para pagar R$ 45.549,29 à fundação. Na época, o diretor geral da São Silvestre era o jornalista esportivo Júlio Deodoro, que se esquivou de todas as perguntas da imprensa sobre a medalha e a mudança do trajeto.

 Foto: acervo pessoal

Colucci é conhecido por correr um uma máscara do Homem Aranha. Ele é o  Sempre Correndo, tem um site de corrida de rua com esse nome, e durante a pandemia começou uma live  semanal no Facebook e YouTube muito bacana, entrevistando todo domingo um atleta - é o Resgate da História do Atletismo, que faz com o fotógrafo Tião Moreira. É muito querido por toda a comunidade corredora, e não se considera "influencer". Ele é contador. Enquanto isso, o guerreiro Colucci vai pagando os boletos e agora teve que abrir uma vaquinha para tentar juntar esses 45 mil reais. Quem quiser participar, a chave  PIX é o número de celular 11 915 513 679. Quem doar R$ 99,99 ganhará um livro digital, com a história desse processo.

 Foto: acervo pessoal

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O pai e advogado de Colucci, que cuidava dessa ação, faleceu em 2019. Depois veio a pandemia e o influenciador acabou não acompanhando mais essa ação. "Fui aconselhado por várias pessoas a zerar minha conta corrente, para evitar que a Justiça a bloqueasse,  mas não fiz isso. Não sou bandido", explica.

A Fundação abriu uma ação de Perdas e Danos, em 2012, que tramitou na 8ª Vara Civil, e julgada pela juíza Cláudia Longobardi Campana, por uso indevido da marca "São Silvestre" em corridas. Colucci perdeu a causa já em 2014. A fundação pediu R$ 200 mil, e o pai de Colucci conseguiu baixar para R$ 10 mil, perderam a ação em primeira instância, e Colucci foi proibido de fazer corridas com o nome "São Silvestre Cover".  Este ano, ele entrou em contato diversas vezes com a fundação para fazer um acordo, já que a punição dada em 2014 era de R$ 10 mil, e o valor foi atualizado para quase cinco vezes mais. Detalhe, Colucci nunca organizou uma corrida na vida, apenas fez os treinões.

 Foto: acervo pessoal

Mas uma mudança bem anterior, em 1988, do horário da noite para a manhã, foi a que mais impactou negativamente no evento. O que é consenso no meio do entretenimento e do esporte é que o charme da São Silvestre era ser realizada à noite. O jornalista Flávio Ricco escreveu esta semana sobre isso: "São Silvestre já foi para São Paulo o que os fogos de Copacabana são para o Rio". "Foi tão grande a sua importância que, em muitas dessas disputas, as TVs da ocasião - Tupi, Paulista e Record - se juntavam num pool, distribuindo caminhões e geradores para poder transmitir todo o circuito. Operação de guerra. TV ao vivo, na veia, em toda virada do ano. Uma festa. Mas que um dia resolveram acabar com ela, transferindo a prova para a manhã do dia 31, com todas as condições que são adversas: sol, temperatura na casa dos quase 40 graus, ruas e avenidas fechadas em horários dos mais desfavoráveis, enfim, tudo jogando contra. O charme e a graça de outros tempos foram trocados por uma iniciativa que hoje poucos sabem que ainda existe." Concordo totalmente com Ricco, e não sou a única.

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CORRIDAS DE SÃO SILVESTRE

O jornalista Cásper Líbero, em viagem à Paris, se deparou com uma corrida noturna com os corredores levando tochas para iluminar o caminho, muito mais charmosa que as corridas de rua que ele já tinha presenciado em Berlim e Londres, e resolveu fazer em São Paulo, no no último dia do ano, e batizou com o nome do santo de 31 de dezembro. Isso foi em 1925. Assim nasceu nossa São Silvestre. Mas esse corrida no último dia do ano não é exclusividade paulistana. Só na Espanha são 1.293 corridas de São Silvestre, que levam o nome do santo, realizadas no último dia do ano. No Brasil,  os organizadores tiveram que mudar os nomes da corrida do Santo, para não serem processados por uso abusivo da "marca". Mas há milhares no dia 31 de dezembro. A mais nova é a de Vera Cruz, no Rio de Janeiro, também com distância de 15 km. Em Portugal também tem, é a São Silvestre Lisboa, que este ano será no sábado, 30 de dezembro. Tem também a São Silvestre Amadora, essa na tarde de 31 de dezembro, em Cascais, que está na 48ª edição. Tem também a São Silvestre do Porto e dezenas de outras.

 

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