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Caminhos para melhorar o futebol brasileiro: especialistas comentam temas polêmicos em 2023

Criação da liga, calendário apertado, erros de arbitragem, qualidade dos gramados e violência entre torcedores estão entre o assuntos que afligiram o esporte nacional na temporada

Foto do author Rodrigo Sampaio
Por Rodrigo Sampaio
Atualização:

O futebol brasileiro terminou o ano de 2023 com alguns alicerces combalidos. Os principais clubes do País não conseguiram chegar em um denominador comum sobre a formulação de uma liga. O calendário apertado foi mais uma vez vilão das equipes na reta final da temporada, marcada também por excessivas reclamações contra a arbitragem, novas discussões sobre o uso do gramado sintético e a violência entre torcidas. Para piorar, a seleção patina nas Eliminatórias da Copa e a Confederação Brasileira de futebol (CBF) fecha o ano cercada por polêmicas.

Fora de campo, os embates políticos nos bastidores mancham ainda mais a imagem da CBF. Na última semana, Ednaldo Rodrigues foi destituído do cargo de presidente da entidade por meio de uma decisão judicial em consequência da anulação de uma série de assembleias da entidade, entre elas a que elegeu o dirigente baiano. José Perdiz de Jesus, presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), foi nomeado interventor e tem prazo de 30 dias para convocar novas eleições. Fifa e Conmebol demonstraram insatisfação com a situação e recomendam que o pleito não aconteçam sem averiguação prévia de seus representantes.

CBF encerrou temporada 2023 com polêmicas e destituição de presidente.  Foto: Wilton Júnior / Estadão

Levando em consideração os pontos citados acima, o Estadão falou com especialistas sobre os assuntos que afligem o futebol brasileiro para que propuseram caminhos para a melhoria do esporte no País. Veja abaixo.

CRIAÇÃO DA LIGA

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O ano caminha para o seu fim e os clubes dos blocos que negociavam a criação de uma liga unificada para organizar as Séries A e B do Campeonato Brasileiro não chegaram a um acordo. Ao longo das conversas entre Libra, Liga Forte Futebol (LFF) e Grupo União, houve divergências relacionadas à divisão de verbas, à quantia que cada equipe teria o direito de receber e ao processo de aprovação de temas em conselho. A perspectiva atual é de que a liga não saia do papel e que cada bloco venda os seus direitos separadamente.

Para o advogado Eduardo Carlezzo, especialista em direito desportivo, acontecimentos recentes, como a troca da Serengeti pela General Atlantic como investidores da LFF, podem influenciar em uma retomada das conversas. “Realmente era incompreensível que uma empresa pequena e sem reconhecimento internacional pudesse ser a compradora de uma fatia da liga. Isso era um erro”, diz.

Ainda de acordo com Carlezzo, mesmo com as polêmicas envolvendo a CBF, os clubes devem se ater a uma conclusão do assunto até o fim do próximo ano. “Ainda que o processo de criação da liga nacional pareça ser irreversível, esta instabilidade política na CBF não ajuda e sabemos que no ambiente das federações há oposição quanto ao assunto. E se o novo presidente for uma das pessoas que pensam assim? Com a fim do Brasileirão, os presidentes dos clubes deveriam dedicar-se ao máximo para chegar a um acordo até o fim do ano e entrar 2024 com a liga devidamente constituída”, disse.

Dirigentes da Libra não conseguiram a chegar em consenso com a Libra e Grupo União por liga unificada.  Foto: Rodrigo Corsi/FPF

CALENDÁRIO

Entre ano, sai ano, e o problema é o mesmo. Jogadores, treinadores e dirigentes reclamam do número excessivo de partidas na temporada. Campeão Carioca e da Libertadores, o Fluminense realizou 70 jogos ao longo de cinco competições em 2023 sem contar a final do Mundial de Clubes, marcada para sexta-feira. O calendário apertado é considerado a principal causa para lesões musculares, cada vez mais comuns nos atletas. Apesar de o futebol brasileiro ter se desenvolvido na figura dos campeonatos estaduais, estes torneios têm menor prestígio e são considerados um impeditivo para o avanço do debate. Após alterações da CBF, as federações ganharam poder e desde a temporada atual, a classificação para a disputa da Copa do Brasil acontece por meio dos Estaduais.

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“Campeonato que se entra, independentemente da projeção que tem a competição, você tem obrigação de disputar no seu limite. (O Estadual) É um catalisador de crises porque penaliza os grandes clubes que retornam depois, voltam sem estarem nas suas melhores condições, e de repente se vê jogando de duas a três competições a partir de fevereiro. Não tem como relaxar no futebol. Mesmo tentando ser claro e explicando, ninguém entende, e nós não podemos pensar dessa forma”, disse Dorival Junior, técnico do São Paulo, em entrevista exclusiva ao Estadão.

“Precisa haver uma racionalização de datas entre as competições. Se os Estaduais forem continuar a existir, é preciso observar que os times que disputam a Copa do Nordeste e/ou a Copa do Brasil, não podem entrar na mesma fase dos que não têm esses calendários. Alguns times que jogam a Libertadores, por exemplo, não jogam as fases iniciais da Copa do Brasil. Algo neste sentido deveria ser pensado para os Estaduais. Não é possível jogar quatro competições ao longo de um único semestre”, argumenta Yuri Romão, presidente do Sport.

ARBITRAGEM

As reclamações contra a arbitragem se intensificaram em 2023. Foi comum durante a disputa do Brasileirão ver clubes reclamando formalmente no STJD contra atuação de árbitros e assistentes. O auxiliar de Abel Ferreira reclamou do “sistema”, que não teria interesse de ver o Palmeiras campeão. John Textor, dono da SAF do Botafogo, se defende de um processo de Ednaldo Rodrigues com um dossiê apontando erros no campeonato e sugerindo, entre outros pontos, a profissionalização da arbitragem.

Está em pauta no Senado Federal projeto de lei que pode profissionalizar o trabalho da arbitragem de futebol no Brasil. O PL 864/2019, de autoria do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), altera a Lei Geral do Esporte e determina que árbitros e assistentes tenham vínculo empregatício com as entidades pelas quais atuam. Segundo a legislação vigente, juízes e bandeirinhas são trabalhadores autônomos, pagos a cada partida realizada.

Profissionalização dos árbitros está em pauta no Senado Federal.  Foto: Rodrigo Ferreira/CBF

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Para 2023, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) determinou que um árbitro de Série A recebe R$ 6.500 por partida, se tiver escudo Fifa, ou R$ 4.700, se for vinculado à própria federação brasileira. Um bandeirinha Fifa, por sua vez, ganha R$ 3.900, enquanto um auxiliar da CBF recebe R$ 2.820. A remuneração do assistente de vídeo (VAR) em jogos da primeira divisão é de R$ 2.800, independentemente do vínculo. Os valores contrastam com os altos salários de algumas das estrelas da elite do futebol brasileiro, que chegam a receber mais de R$ 1 milhão por mês.

“Não há condições de ser um árbitro de ponta no Brasil e conciliar outro trabalho. A alta exigência exige dedicação exclusiva”, diz Leonardo Gaciba, ex-presidente da Comissão de Arbitragem da CBF e atual comentarista dos canais ESPN. “O simples, e importante, fato de ser CLT trará segurança aos árbitros que vivem na incerteza de escalas, mas não tem relação nenhuma com desempenho por si só. Erros acontecem em toda parte e de todos tamanhos. A diferença é como estes erros são abordados. Toda a arbitragem mundial precisa de melhoria, a brasileira não está fora deste contexto”, diz.

GRAMADOS

O debate sobre a qualidade dos gramados no Brasil voltou a ganhar força neste ano com a reclamação de alguns treinadores, como Abel Ferreira, pela condição ruim de alguns estádios, principalmente o Maracanã e o Mineirão. Até mesmo a recém-inaugurada Arena MRV, casa do Atlético-MG, não escapou das críticas. Na contramão, três equipes da Série A do Campeonato Brasileiro optaram pelo uso da grama sintética: Athletico-PR, Palmeiras e Botafogo. Os entusiastas do campo artificial citam a facilidade na manutenção do campo, possibilitando colocar estádios como a Ligga Arena, Allianz Parque e Nilton Santos no roteiro de shows do País.

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Defensores da grama natural criticam o avanço do sintético no Brasil. Uma das principais reclamações de quem é contra o gramado artificial é de que a bola fica mais “viva”, com o jogo ganhando uma velocidade acima dos campos naturais, além do suposto risco maior de lesões — artigo publicado pela revista científica Lancet diz que não há evidências do fato. O excesso de partidas em um calendário que oferece até 60 jogos por equipe e estádios que abrigam mais de um time são os vilões de gramados esburacados, ondulados e sem cuidado, onde a bola não rola como deveria. Ter menos jogos, portanto, é uma saída.

Gramado do Maracanã foi alvo de criticas durante a temporada 2023.  Foto: Greenleaf/Divulgação

Para Rodrigo Santos, coordenador do centro de gramados esportivos e inovação da Itograss, empresa responsável pelo fornecimento de grama natural para os clubes da Série A, um gramado natural de qualidade passa pela realização de menos jogos e um tempo maior de “descanso” entre uma partida e outra. “O gramado não tem como se recuperar com dois jogos por semana”, enfatiza. “A gente tem um calendário esportivo muito maior do que qualquer outro lugar do planeta”, diz. O ideal seria fazer um jogo por semana.

O Maracanã, que recebeu partidas de Flamengo, Fluminense, Vasco e da seleção brasileira, teve incríveis 73 jogos em 2023. “A gente tem um calendário esportivo muito maior do que qualquer outro lugar do planeta”, critica Rodrigo Santos, sugerindo uma revisão do número de jogos por equipe na temporada.

VIOLÊNCIA NAS TORCIDAS

A violência entre torcedores mais uma vez assustou e esteve presente na temporada. Somente em 2023, oito pessoas morreram em decorrência de brigas relacionadas ao futebol. O caso mais emblemático aconteceu em setembro, quando a palmeirense Gabriela Anelli, de 23 anos, morreu depois de ser ferida durante uma briga do lado de fora do Allianz Parque, antes a partida do Palmeiras com o Flamengo, pelo Brasileirão. Ela foi atingida no pescoço por um estilhaço de garrafa e foi socorrida em estado grave. A torcedora não resistiu e morreu no segundo dia de internação.

O caso de Gabriela colocou novamente em debate a questão da segurança dos torcedores em estádios de futebol. Para Raquel Sousa, Mestre em Ciências Sociais e especialista em Policiamento e Segurança em Eventos Esportivos pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a solução do problema tem caráter educacional.

“Acredito que seja válido para as federações e o poder público, até mesmo em nível federal, a promoção de ambientes em que haja um ambiente de educação com as torcidas. É necessário espaços para que diferentes torcidas possam interagir, agregar e estabelecerem trocas”, diz. “Na Alemanha, cada clube tem um profissional responsável pela parte educacional para além da questão pontual, mas estabelecendo diálogos e promovendo palestras. É um meio importante e também preventivo para diminuir a violência, que não está presente somente nos estádios.”

A palmeirense Gabriela Anelli, de 23 anos, morreu após ser atingida por estilhaço de garrafa em briga antes de Palmeiras e Flamengo.  Foto: Reprodução/FacebookReprodução/Facebook/Gabriela Anelli/Gabriela Anelli

Às vésperas dos Estaduais, a discussão sobre a realização de partidas com torcida única também volta à tona. A medida é aplicada há 11 anos em São Paulo e tem como objetivo evitar confrontos entre torcedores. Palmeiras, campeão do Brasileirão, e São Paulo, campeão da Copa do Brasil, vão disputar a Supercopa do Brasil em 2024. Caso a final, que teve as suas duas edições realizadas em Brasília, não aconteça na capital paulista, existe a possibilidade de o duelo acontecer com palmeirenses e são-paulinos nas arquibancadas.

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“Na sociedade, a gente só consegue compreender o outro quando consegue dialogar. Se é um espaço dedicado a uma torcida única, os riscos de atomização desses torcedores ficam ainda maiores, criando novos problemas. Na Argentina, por exemplo, os clubes passaram a enfrentar problemas de brigas dentro da própria torcida quando inventaram a torcida única. Essa medida é totalmente contrária à lógica de prevenção e educação”, diz Raquel Sousa.

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